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“Talvez a maior tragédia da história humana tenha sido o sequestro da moralidade pela religião.”[1]

Se alguém se der ao trabalho de notar se as pessoas que frequentam o noticiário policial, ou mesmo as pessoas que não chegam a tanto, mas são conhecidas e mais aparecem por atitudes de mau caratismo; se alguém prestar atenção ao fato de essas pessoas terem ou não religião e quanto se dedicam a ela, talvez se surpreenda ao perceber que muitas têm religião e algumas se dedicam bastante. Políticos corruptos, ladrões de todas as estirpes, pequenos ou grandes sonegadores de impostos, a proporção de pessoas religiosas nesses grupos é algo parecida com a proporção na população em geral.

Em vários casos, os próprios líderes religiosos acabam sendo autores de notórios crimes às vezes até propiciados pelas atividades que exercem. Recentemente, pastores da Igreja Mundial, tentaram aproveitar o prestígio da sua imagem e livre acesso a um morro de Niterói para fazer tráfico de armas. O casal líder máximo da Igreja Renascer, famosa por ter vultuosa arrecadação, foi preso ao tentar entrar nos E.U.A. com uma quantia de dólares sem a declaração legalmente prevista, escondidos dentro de uma Bíblia. Ao redor de todo o mundo padres desviam sua sexualidade reprimida pelo celibato para alguns desafortunados coroinhas que neles confiam, e a igreja de que são membros vez por outra se preocupa mais em ocultar os casos para manter uma imagem santa do que em punir os padres criminosos e evitar mais vítimas.

Convém não generalizar. Assim como a proporção de religiosos entre os criminosos guarda similaridade com a proporção na população toda, felizmente a recíproca também é verdadeira. A infelicidade é que algumas religiões, notadamente as religiões cristãs, se auto-declarem os únicos guias confiáveis para a moralidade. É simplesmente escabrosa a imagem que essas religiões tentam passar a respeito dos ateus. Normalmente somos acusados de incapacidade de fazer qualquer distinção entre bem e mal e, a partir dessa premissa, sermos responsáveis por todo o tipo de comportamento reprovável que existe na sociedade. Esse tipo de afirmação é mais um que requer o exercício alienante da fé, pois não encontra qualquer apoio nos fatos. As atitudes reprováveis são esmagadoramente cometidas pela esmagadora maioria religiosa da população. E os ateus têm noção de moralidade tanto quanto qualquer pessoa religiosa.

Vejo com bons olhos a intenção das religiões de guiarem moralmente seus fiéis. Isso propicia dedicação ao assunto e, consequentemente, seu desenvolvimento. Vejo também certa incoerência ao usarem para isso um livro recheado de violência e atitudes pueris na maior parte das vezes perpetradas pelo personagem principal, mas isso é assunto para outro artigo. O maléfico é a desonestidade de atacar gratuitamente quem não segue uma religião e o preconceito que surge disso. Preconceito leva a atitudes erradas em qualquer direção, seja a de um ateu que possa ser desmerecidamente punido quanto a de um religioso ganhar mais confiança do que merece, muitas vezes dos seus pares ou seguidores. Uma pessoa deve ser julgada por suas atitudes reais e não pelas que somos levados a crer com base na religiosidade ou falta dela.

Notas:

[1] CLARKE, Arthur C. Greetings, Carbon-Based Bipeds!: Collected Works 1934-1988. New York: St. Martin’s Press, 1999.