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É uma época do ano em que a religião está em mais alta evidência. Por consequência, é também a época do ano em que os fieis entram em maior questionamento sobre sua crença. Alguns saem com a fé abalada; outros, fortalecida; outros tantos, sequer pensam a fundo sobre o assunto.

Para o cristianismo, é a época de celebrar o nascimento de Cristo, figura emblemática que até hoje divide opiniões sobre sua historicidade. Sabemos, no entanto, que a data não é mencionada algures nem alhures e que foi incorporada na tradição cristã através dos ritos pagãos de celebração solar, no hemisfério norte.

De uma forma ou de outra, tudo isso é irrelevante. Os maiores questionamentos pouco têm a ver com os dogmas específicos de tal ou qual religião. Principalmente porque eles, com o avanço científico, se tornaram mais simbólicos e mitológicos do que a maior parte dos religiosos se permite admitir.

Os maiores questionamentos ainda dizem respeito às nossas origens e ao nosso destino, depois da nossa passagem de tempo neste mundo que conhecemos. O fato de persistirem já seria suficiente para derrubar qualquer alegação de que a religião nos dá respostas satisfatórias para nossas preocupações existenciais.

A verdade é que temos uma resposta muito bem evidenciada: chegamos até aqui por meio da seleção natural e partilhamos com os outros seres-vivos toda a nossa história biológico-evolutiva. Depois que morrermos, também teremos o mesmo fim que terão nossos soci malorum: a inevitável decomposição e a reincorporação no ciclo do carbono.

Por que, então, protelamos as questões? Em parte, porque as respostas científicas massageiam pouco ou quase nada nosso senso de importância cósmica. Ou seria simples coincidência que tenhamos um paraíso à espera e o resto dos seres não? Aos advogados de nosso mérito, resta-lhes escolher características como consciência, raciocínio ou reflexão para justificar nossa posição central em um plano superior.

Não sei quanto às outras pessoas, mas suspeito que sejamos nós a escolher quais características devem contar para a seleção divina de seres; e suspeito mais ainda que as características eleitas para o concurso sejam exatamente aquelas que apresentamos com maior proeminência. E não me digam que a escolha veio de uma força maior, a menos que me apresentem o que vos legitima a falar em nome de deus(es) mudos e incomunicáveis.

No fundo, somos produtos em ambas as visões de mundo – não importa se científica ou religiosa. Se preferimos ser uma criação divina, isso diz mais sobre nossa vontade de valorização do que sobre nossa vontade de entender.

Bom. Hoje é dia 25 de dezembro. É feriado. É natal. O que se segue é um dia muito agradável, em que a família se reúne para jantar, se divertir, trocar presentes e novidades. Para muitos cristãos, o principal motivo para a existência deste feriado não inclui cear, esperar o Papai Noel ou juntar a família. O que importa é relembrar o nascimento do cidadão Jesus. Pois natal seria um feriado cristão. Supostamente, muçulmanos, hindus, budistas e – como não poderia deixar de ser – ateus, não deveriam comemorar o natal.

Vejo muitos ateus constrangidos quanto a isso. Existem ateus que simplesmente ignoram a data, por achar que o feriado não se aplica às suas ideologias. Eu já adianto que acho isso uma tremenda bobagem. Sempre fui do tipo “faça o seu feriado”, e nada mais conveniente do que comemorar em uma data na qual todos os seus conhecidos se dispõem a comemorar juntos. Pouco importa se uma guerra foi ganha nesta data, se o seu país conquistou a independência ou se alguém nasceu de uma virgem. A vida é curta e acontece apenas uma vez para cada um de nós (a menos que provem o contrário); portanto, qualquer dia é um bom dia para se fazer um feriado, desde que não atrapalhe muito os nossos afazeres, afinal, aproveitar a vida não significa ser um inútil.

Mas ainda tem a questão do nascimento de Jesus. Essa parte é realmente engraçada. Se você, leitor, é um pouco mais informado do que a grande parcela da população, deve estar ciente de que Jesus provavelmente não nasceu dia 25 de dezembro. O porquê do 25 de dezembro ter sido eleito como uma data interessante para se comemorar o natal envolve muitas hipóteses. Uma delas é a de que o 25 dezembro já era comemorado muito antes, pois coincide com o solstício de inverno no hemisfério norte (na verdade, o solstício mesmo ocorre em torno do dia 21, no dia 25 o Sol começa a retomar a inclinação anterior avistada no céu). Então, por conveniência, o cristianismo engolfou o 25 de dezembro como um feriado seu.

O que nos leva a pensar. Se o cristianismo se apropriou da data, por que eu não posso fazer o mesmo? Chegamos à situação cômica de um brasileiro estar comemorando o solstício de inverno do hemisfério norte. Isso faz tanto sentido quanto eu pegar o 20 de março (data em que normalmente ocorre um dos dois equinócios) para comemorar o nascimento da Dercy Gonçalves.

Portanto, eu vos digo o que realmente nasceu no natal. Nasceu uma ótima oportunidade para juntar a família, trocar presentes e comer peru, chester, buster, ou mesmo uma galinha cocoroca. Nasceu uma desculpa excelente para não ir ao trabalho e curtir um tempinho em casa.
O que são meras ideologias, personagens ou mitos, perto da família, do lazer e da comida? Convenhamos, o que queremos é qualquer motivo (mesmo que seja besta) para comemorar o que realmente importa, que é a nossa saúde, o nosso sucesso, e a presença de quem nós amamos.