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De uma forma ou de outra, todos nós caímos no mito do absoluto. Na tentativa de facilitar o nosso aprendizado, desde pequenos somos influenciados a tomar aquilo que nos ensinam como verdade incontestável. De fato, muitas coisas são tão bem evidenciadas que podem ser consideradas, para todos os efeitos, incontestes.

Ninguém nos explica, entretanto, que tais coisas só fazem sentido dentro da caixa que usamos para delimitá-las. A matemática, por exemplo, funciona bem porque definimos claramente seus limites e suas funções. Assim também funcionam todas aquelas ciências que partem do método indutivo para formular suas teorias.

Condenar a linguagem por não abarcar toda a realidade é não enxergar o escopo de sua caia; em outras palavras, é como condenar um cachorro por ser menor que um elefante. Simplesmente não faz sentido. Nunca foi pretensão da linguagem explicar tudo. E o fato de nos sentirmos mal quando finalmente enfiamos na cabeça as suas limitações diz muito mais sobre o quão frustrados estamos por termos acreditado em coisa diferente.

Em uma boa analogia, peguemos o sentido da visão: o nosso globo ocular possui um sistema complexo de lentes e músculos. O conjunto permite que a luz seja captada e transformada em impulsos elétricos direcionados até o cérebro, onde serão interpretados e cumprirão sua função: nos relacionar com o mundo e nos dar a possibilidade de interagir com ele.

Sabemos que não enxergamos todo o espectro da radiação eletromagnética. Nem por isso invalida-se o fato de que enxergamos uma boa faixa dela. É engraçado como tentamos inverter a ordem dos acontecimentos: enxergamos antes de explicar o funcionamento da visão e isso faz toda a diferença. Se estamos descontentes com as nossas limitações, estudamos e ampliamos nossa capacidade de captação de luz, como bem fazemos com microscópios ou telescópios.

Acontece algo parecido com a linguagem: sua genealogia é de difícil compreensão e estudo porque, convenhamos, quando desenvolvemos algum tipo de raciocínio crítico, já a temos por certa. Mesmo estudando a aquisição da linguagem em crianças não conseguimos conhecer mais do que o modo como elas aprendem, basicamente através da repetição daquilo que observam ao seu redor.

Agimos antes de pensarmos porque o neocórtex é um achado recente em nossa história evolutiva e, se dependêssemos somente dele para situações extremas, já teríamos deixado de existir. Que se lembrem disso os esquizofrênicos que teimam em jogar ideias de “verdade” no mundo, caindo aos prantos quando a natureza não corresponde aos seus anseios filosóficos.

Mas sejamos francos: nenhuma lacuna de comunicação da linguagem nos impede de comprar o pão quente da manhã na padaria da esquina. Da mesma forma, nenhum conhecimento deixa de ter sua parcela de validade por se basear em um sistema incompleto. Focar as críticas na falta de funcionalidade de algo que nunca foi alegado como perfeito é, além de um erro grosseiro, um apelo à falácia do espantalho.

Se isso é tudo o que os arautos do relativismo têm para oferecer, é simplesmente deprimente. Partem de uma premissa falsa, jogam ideias no mundo e se revoltam por não encontrá-las. Em mais um caso, esbanjam ceticismo para teses rivais e abraçam desesperadamente o absoluto que criam a partir dos pedaços de sua estima magoada.

Dentro de cada sistema, há um conhecimento mais adequado e negar uma afirmação tão óbvia é ignorar toda a praticidade que tal conhecimento proporciona. Confundir o conforto de uma situação com sua validade epistemológica parece ser o último recurso de quem deseja, de qualquer maneira possível, justificar comportamentos inadequados para os objetivos traçados.

Eis a herança maldita de todos esses séculos de filosofia: a natureza não mais responde como desejamos e nos resta chorar o luto pela morte da mãe idealizada.

Apesar das evidências que dão suporte às ideias de Darwin, uma porção considerável dos cristãos insiste em defender com unhas e dentes as fábulas do gênesis bíblico. Isso não é nenhuma novidade, e essa resistência aos fatos ― notória principalmente entre os protestantes, no universo cristãos ― tornou-se tabu. “Ensine a controvérsia”, eles dizem. É como defender o ensino oficial de que o holocausto pode mesmo não ter existido, ou que o mundo é plano e encontra suporte no casco de tartarugas gigantes ou ainda que as pirâmides do Egito foram construídas por seres alienígenas.

Design de camisetas que satirizam o movimento Teach The controversy.

Design de camisetas que satirizam o movimento Teach The controversy.

Mas não é exatamente sobre criacionismo que quero tratar hoje, mas sim sobre a implicância de determinada ignorância no mundo prático. Que mal pode ter? Deixe que os cristãos tenham suas fantasias sobre homens vindo do barro. O que não se percebe é a carga de dano potencial de que tais ideologias estão carregadas. Nos Estados Unidos ― um dos países mais poluidores do mundo ― há várias correntes religiosas que negam a existência do Aquecimento Global, e professa que mesmo que o planeta esteja se degradando, pouco importa pois Jesus voltará a tempo para julgar a humanidade e restabelecer a ordem. Mas nem todas as denominações protestantes americanas negam a existência do Aquecimento Global, algumas acreditam que Deus é o responsável pela mudança climática como forma de nos alertar e alterar o nosso comportamento.

Trata-se de uma tentativa de denegrir o conhecimento científico em detrimento da incapacidade dogmática religiosa. Como afirma Lawrence Krauss, físico e diretor da Origins Initiative, da Universidade Estadual do Arizona:

“Onde houver uma batalha sobre a evolução hoje, há uma batalha secundária para suavizar outros assuntos quentes, como o Big Bang, e, cada vez mais, a mudança climática. Trata-se de lançar dúvidas sobre a veracidade da ciência – dizer que essa é apenas mais uma visão do mundo, mais uma história, nem melhor nem mais válida que o fundamentalismo.”

Por ser um país religioso em sua essência, inúmeros projetos de leis ― alguns chegam mesmo a ser aprovados ― combatem o ensino das teorias científicas em escolas públicas. A assembleia legislativa de Kentucky não é exceção, e um exemplo disso é o projeto apresentado pelo deputado estadual Tim Moore, que pretende negar o efeito estufa e a ação do homem como capaz de alterar o ecossistema. “Nossos filhos estão sendo apresentados a teorias como se elas fossem fatos”, afirma o deputado, “especialmente no caso do aquecimento global, tem havido um ponto de vista politicamente correto na elite educacional que é muito diferente da ciência sólida”.

Nenhum ritual religioso foi capaz de salvar o povo Azteca do seu destino.
Nenhum ritual religioso foi capaz de salvar o povo Azteca do seu ocaso.

A ignorância e a relutância para aceitar fatos solidamente comprovados nem sempre podem ser encarados com inocência e complacência. Ao revés, há uma necessidade latente para que se combata esse tipo de ideologia danosa, muitas vezes hipócrita, que ainda hoje tenta impedir o avanço científico. Não precisamos mais da vigilância religiosa para nos dizer que a terra é o centro do universo, que a terra é plana ou que através de indulgências era possível comprar um terreno nos céus. Tais absurdos pertencem aos museus e livros de história, já não há mais espaço para essas puerilidades em nosso mundo hodierno. Justificar o aquecimento global como a vontade de deus, e acreditar ser possível reverter a situação através de oração e obediência religiosa é equivalente a sacrificar homens em pirâmides e esperar saciar a sede de sangue dos deuses. Todos nós sabemos como essa história termina.