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Quando dizemos que o mundo físico, externo a nós, existe, independentemente de nós, queremos dizer que ele existiu antes do advento do ser-humano e continuará a existir, se um dia viermos a perecer. Por mais que nós não possamos comprovar essa alegação pessoalmente, parece bem provável que ela seja verdadeira.

Nossa criatividade é impressionante e, para o bem ou para o mal, podemos aventar várias explicações para o que observamos ou simplesmente vivenciamos. Essas explicações podem ser úteis nas mais diversas formas, desde que supram a nossa necessidade de entender ou de sentir conforto e segurança.

No entanto, elas só serão úteis se acreditarmos em alguns pressupostos: 1) que a verdade objetiva, isto é, independente de nós, de alguma forma existe; 2) que podemos, senão alcançá-la, chegar perto dela; 3) que temos um método razoavelmente eficiente para isso.

Se o pressuposto 1) for falso, nossa busca pela verdade não é apenas infrutífera, mas também não teremos nenhum padrão para julgar sua veracidade; se 2) for falso, teremos um padrão para julgar, mas será apenas o de nossa infinita falha e esta crença não restará justificada; se 3) for falso, em princípio, só precisamos criar um método que supra nossa necessidade.

De toda forma, se a hipótese solipsista estiver certa, e se formos realmente somente o ser pensante em um mundo falso, aparente, ainda precisaremos de uma forma de conviver neste mundo, de interagir com ele; falso ou não, parece ser o único que temos, a menos que se alegue ser preciso morrer nele para atingir um mundo novo, real – uma espécie de paraíso.

Como se questionam até mesmo os dados empíricos, não há senão a Navalha de Occam para dirimir a discussão. Trata-se de um princípio valioso na averiguação de hipóteses concorrentes. Dessa forma, ao decidir sobre uma colisão delas, devemos seguir a mais simples, por uma questão de elegância e por exigir menos variáveis, quanto mais questionáveis forem.

Na impossibilidade de termos um referencial externo a nós mesmos, ficamos com a) nosso conhecimento sofre limitações biológicas, bem explicadas por conta de nosso processo evolutivo, mas temos certo acesso à verdade; ou b) não temos acesso nenhum à verdade e toda essa ilusão é criada por algo que não conhecemos sem sabermos com qual propósito.

Até que tenhamos boas razões para largar a hipótese mais parcimoniosa, é de bom tom que não o façamos; se só conseguimos enxergar os fenômenos, que entendamos que eles apontam para a coisa-em-si, por mais inacessível que se a julgue. E tenhamos em mente, principalmente, que o fato de existir algo para o qual se aponte coincide com a nossa versão de mundo objetivo.

Independentemente de buscarmos algum sentido específico de verdade, devemos ter em mente o que realmente buscamos. Falsidades podem ser reconfortantes, mas, se não queremos nos enganar, resta-nos passar por uma espécie de auto-adestramento para que os nossos métodos pessoais conduzam aos nossos objetivos pessoais. Fora de nós, o êxito logrado por outros métodos consiste exatamente em extirpar essas discrepâncias intersubjetivas, em busca de conhecimento que, na medida do possível, independa de nós.

O que importa, afinal, é entender que essa verdade objetiva é uma meta, e que os nossos mecanismos subjetivos de produção de verdade são meios de tentar alcançá-la. A verdade subjetiva – em suas mais diversas formas –, torna-se, ao invés de uma entidade metafísica inquestionável, a construção de ferramentas para encontrar as melhores formas de caminhar até ela.

Resta agora diferenciar essa realidade objetiva do mundo das ideias, conforme Platão o descreveu. Para ele, tal mundo também se contrapunha à deficiência dos sentidos – ao mundo sensorial –, mas a sua solução não era descartar o ser-humano, e sim encontrar, a partir dele, formas eternas e imutáveis, possíveis por ser o homem dotado de uma alma.

O mundo objetivo, por outro lado, existe independentemente do ser-humano, por mais que nós sejamos a única forma conhecida de contemplá-lo e de atestar-lhe a existência. Não é imutável e não possui formas eternas. Em nossa cabeça, o mundo objetivo é o esforço mental para representar a realidade sem a interferência de cérebros programados para executar funções específicas.

 

Leituras recomendadas:

HARRIS, Sam. We are lost in thought. Disponível em <http://www.edge.org/q2011/q11_12.html#harriss>. Acesso em 07 maio 2011.

PLATÃO. Timeu. Disponível em <http://en.wikisource.org/wiki/Timaeus>. Acesso em 07 maio 2011. [em inglês]

SAGAN, Carl. Admiração e ceticismo. Disponível em: <http://ateus.net/artigos/ceticismo/admiracao-e-ceticismo/>. Acesso em 07 maio 2011.

______. Podemos conhecer o universo? Reflexões sobre um grão de sal. In: O cérebro de broca. Lisboa: Gradiva, 1987.

Causa arrepios toda vez que ouço frases como: “Criacionismo Científico”, “O espiritismo não é religião, é ciência” ou até mesmo “Isto é comprovado cientificamente”. A ciência é largamente utilizada por todo o tipo de charlatão para vender seus produtos. Em um país como o Brasil, entre os piores no ensino de ciências, charlatões desse tipo encontram alvos fáceis em nossa população.

Tudo o que é científico está subordinado aos fatos. Por este motivo, uma das maneiras de avaliar o grau científico de uma afirmação é questionar quais fatos a sustentam. Quais fatos sustentam a astrologia, por exemplo? Haverá, possivelmente, casos em que a astrologia parece prever a personalidade de uma pessoa em particular; porém, o que observamos é que as previsões acertadas se encaixam para a quase totalidade das pessoas; quanto mais específica é uma previsão, maior a possibilidade de erro. Neste vídeo, James Randi faz uma excelente demonstração de como a astrologia é capaz de fazer acertos.

Experimentos científicos precisam sempre utilizar controles para avaliar os fatos. Um exemplo desta necessidade são os testes com homeopatia. Analisando a homeopatia isoladamente, esta é capaz de promover curas; porém, quando comparada com um placebo, o número de pacientes curados não se diferencia estatisticamente. Assim como fizemos com a astrologia, quando avaliamos os fatos, precisamos observar a influência de outros fatores como a idoneidade dos avaliadores, utilização de controles, relevância estatística etc.

Outras afirmações são, pelo menos aparentemente, sustentadas pelos fatos. O exemplo disso é o criacionismo, no qual seus proponentes sustentam que o fato de o corpo humano ser perfeito prova que deus existe e nos criou. Conforme já expus neste artigo, esta afirmação parte de uma série de pressupostos não comprovados (o fato de o nosso corpo ser perfeito, só para começar), e quanto mais dependemos destes pressupostos para sustentar uma determinada afirmação, menores são as chances de esta ser a explicação correta, conforme a Navalha de Occam.

Observar os fatos que sustentam dada afirmação e aplicar a Navalha de Occam já torna possível rechaçar quase todas as afirmações tomadas como científicas por charlatões. Existe, porém, uma terceira ferramenta que pode dar o golpe de misericórdia em qualquer uma delas, trata-se do conceito de falseabilidade. Este conceito, porém, é tão abrangente e interessante que merece o próximo artigo inteiro só para ele.

Em meu penúltimo artigo, comentei que diante das maravilhas deste mundo, em uma visão superficial, Deus parece ser a melhor explicação. Porém, se nos aprofundarmos no assunto, a hipótese divina se sustenta?

A navalha de Occam afirma que diante de duas explicações para um mesmo fenômeno, a mais simples tende a ser a mais correta. Se a pergunta for, por exemplo, como surgiu o universo, e houver duas explicações:

1- Deus criou o universo

2- O universo surgiu de uma explosão originada por uma flutuação no vazio quântico.

A explicação 2 parece ser de longe a mais complicada, pelo menos para quem não tem um doutorado em física. Mas então por que os céticos não aceitam a explicação 1 como a verdadeira se ela é mais simples?

Primeiramente porque simplicidade, neste contexto, não significa aquilo que é mais fácil de entender; ora, não poderíamos esperar que nossos cérebros, que se desenvolveram para caçar e contar fofocas, tenha facilidade em compreender um dos maiores mistérios do universo. Portanto, dentro de um contexto científico, a explicação mais simples é aquela que contém o menor número de afirmações não comprovadas.

Quando um crente lê a explicação 1, não vê aí nenhuma complicação, afinal já é tomado por ele, como uma premissa verdadeira, o fato de deus existir. Porém, se tentarmos ser minimamente imparciais nesse assunto, veremos que dizer “deus existe” é uma afirmação carente de evidências. Poderíamos afirmar, por exemplo, que quem criou o universo foi o Pelé, e essa seria uma afirmação menos absurda; afinal, o Pelé existe, e há várias provas e evidências disso. Só restaria comprovar que o Pelé de fato tenha criado o universo, mas essa prova também falta a deus.

Já a explicação 2, apesar de bastante complicada tecnicamente, parte apenas de premissas comprovadas, isto é, condiz com o que observamos em aceleradores de partículas, telescópios, cálculos matemáticos etc.

Abaixo, deixo o link para um fantástico documentário do History Channel que conta sobre o Big Bang, como viemos a saber tanto sobre a origem do universo. Além de tratar sobre o Big Bang, podemos, por meio deste documentário, entender como se dá o processo científico de construção de conhecimento. Vale a pena ver até o final.

History Channel – Além do Big bang