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Muitas vezes nos aprofundamos em discussões sobre detalhes e perdemos de vista a verdadeira questão. Por exemplo, quando discutimos se um deus pode ou não ter nos criado, se alienígenas nos visitam, se o amor é para sempre, pressupomos que haja realmente algo sendo discutido. Mas não há; por quê? Porque já sabemos as respostas. Aliás, em regra, todos os assuntos que apresentamos com esse tom de dúvida são apenas piadas vestindo paletó (será que fantasmas existem? Será que o mundo terá paz um dia? Será que o Santo Sudário é realmente o corpo de cristo? Etc.) Nessas questões há sempre dois lados, que nunca estão equilibrados; um se porta racionalmente, representando o bom senso, o outro se guia pela emoção, representando nossa capacidade de ignorar os fatos. Assim, há os que abordam o assunto com sensatez e os que preferem vê-lo como uma espécie de emplastro para feridas existenciais. Note-se que alguns indivíduos chegam a estar cientes da irracionalidade de suas crenças, e parece paradoxal que mesmo assim continuem acreditando, mas sabemos bem demais como isso é comum.

Então, quando nossas discussões estão estagnadas por motivos emocionais e a razão não nos permite prosseguir por falta de fatos concretos, o melhor modo de levar a questão adiante pode ser um revigorante retorno ao óbvio. O que isso quer dizer exatamente? O retorno ao óbvio pode ser visto como uma espécie de metaintuição, tornando racionais processos mentais que normalmente realizamos automaticamente, tomados como pressupostos; é a tentativa de isolar os pontos-pacíficos que temos em nosso favor, usando-os como uma alavanca que multiplica a força de nosso conhecimento, a qual também pode, alternativamente, tornar inúteis nossos melhores esforços. Por exemplo, suponhamos que dois indivíduos estejam tentando decidir qual corre mais; porém, em toda disputa um vence o outro por frações de segundo, ou chegam perfeitamente emparelhados. Sem fatos, a razão não pode dizer qual dos dois foi mais rápido; por outro lado, racionalizar algum pretexto emocional para considerar este ou aquele mais rápido não será mais que uma mentira desculpável.

Nessa situação, onde está o óbvio? Não naquilo que se discute, mas naquilo que se cala. O óbvio sempre está distante das disputas acaloradas (que se tornam tão mais acaloradas quanto menos fatos houver). Mas trata-se de algo difícil de ser visto e tornado consciente. É tão evidente que chega a ser difícil sequer pensá-lo; claro que, uma vez visto, torna-se óbvio, como todo problema bem resolvido. Do que exatamente estamos falando? Há testes antidopping em corridas, certo? Faz sentido. Mas há testes antimilagre? Não; porque deus não existe; logo, milagres simplesmente não acontecem. Não é óbvio? Sim, é; e isso nos toca num nível tão fundamental que ficamos levemente atônitos; e é um pouco ridículo também, por se tratar de uma obviedade desmascara o nosso modo tradicional de lidar com o assunto. Esse tipo de detalhe normalmente passa despercebido, mas prova a inexistência de deus melhor que as complexas argumentações científicas/filosóficas (quando não têm todos os fatos, claro). Então, antes de discutir assuntos quaisquer no nível micro — como evolução versus criação —, deveríamos considerar se um rápido resgate do óbvio já não resolveria a questão logo de início, descartando a necessidade de nos engajarmos em discussões sérias, aprofundadas e inúteis.

Muito do que tomamos como óbvio nunca foi realmente trazido à consciência de maneira deliberada; num primeiro contato, por vezes isso nos choca, por vezes nos surpreende. O óbvio sempre nos revela perspectivas perigosamente imprevistas, ainda que instigantes. Porém, aqui não há margem de segurança; nesse nível não há como nos protegermos da realidade, pois estamos falando de uma busca por fatos autoevidentes, e não haverá como negá-los depois que os tivermos visto. Não há como prever exatamente quais serão as implicações; mas, na medida em que é esclarecedor, pode ser também um processo emocionalmente perturbador.

O óbvio pode revelar-nos uma verdade insuportável, mas também pode trazer-nos uma longamente aguardada serenidade diante da incerteza; para o bem ou para o mal, um raio de luz nunca deixará de ser um esclarecimento. Metaforicamente, esses insights são como buracos de minhoca da inteligência, ligando dois pontos de nosso conhecimento imediata e inesperadamente. Sempre revelam muitas coisas; porém, às vezes revelam mais do que gostaríamos, e diante disso nossa reação mais comum é fingir que nada vimos. É frustrante perceber nossa clara tendência de resistir ao conhecimento, engajando-nos em microdebates que frequentemente perdem de vista a imagem do todo, mas talvez seja exatamente essa a ideia. Nosso modo quase cínico de ignorar o óbvio não seria apenas reflexo de nossa incapacidade de suportá-lo?