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II

Certamente, todos nós concordamos que a teoria da evolução ainda encontra alguns problemas. É uma teoria forte, porém incompleta. Ainda não se sabe explicar a origem da reprodução sexuada ou da célula eucariótica. A explosão do cambriano e como a vida se originou são lacunas que perduram até hoje. O que alguns não sabem é que essa mesma teoria não está em conflito com a maioria das coisas que acreditam estar. Isso é algo engraçado. Vejo pessoas dizendo que a evolução contradiz a biogênese, a entropia, a estatística, o bom-senso, mas raramente vejo essas pessoas atacarem onde a teoria realmente ainda não explica. Um exemplo disso está em processos de convergência presentes na natureza que, segundo alguns, contradizem a aleatoriedade da evolução.

Pois bem, segundo essas pessoas, uma mesma característica não poderia surgir independentemente em duas populações diferentes pois seria improvável demais. Para um fenômeno que ocorre essencialmente ao acaso, não seria possível uma estrutura, como a asa, por exemplo, surgir mais de uma vez em táxons distintos. Essa alegação se baseia na estatística. Para os seus defensores, dizer que a asa surgiu em vários grupos diferentes equivale a defender que um mesmo apostador ganhou na mega sena mais de uma vez. O melhor adjetivo para descrever esse comportamento tipicamente criacionista é “afobado”. Nomeamos uma estrutura considerando uma ou mais características que supostamente a designam. No caso das asas, seriam estruturas que permitem um vôo ativo e independente. Isso significa que qualquer estrutura que obedeça a essas definições pode e deve ser chamada de “asa”, independente do modo pelo qual ela alcança essas propriedades. Só que isso não implica que essas estruturas devam ser idênticas.

As asas são um exemplo didático, e até bonito, de como a crença na evolução como fundamentalmente aleatória é falsa. Na natureza existem leis bem estritas: qualquer coisa que não funcione muito bem estará apenas consumindo energia e a seleção natural ceifará tudo o que não for útil o suficiente. O que não significa que ela não premie, e muito bem, os improvisos. Dentre todas as estruturas possíveis de existir, pouquíssimas permitem o vôo, mas os caminhos para chegar a essas estruturas são bem mais diversos do que imaginamos à primeira vista.

Desenho das asas de aves e insetos. Notem que as diferenças são muitas.

Para começar, vamos analisar os grupos vivos que possuem asa, que seriam as aves, os morcegos e os insetos (Os pterossauros assim como algum possível grupo portador de asa desconhecido e extinto ficam de fora). Quanto às asas, todas são estruturas chatas e alongadas, quase ovais, que possuem flutuabilidade, força propulsora e arrasto. Sob o ponto de vista funcional, elas podem ser bem parecidas, mas anatomicamente as diferenças são muito maiores. As das aves podem ser entendida como um braço de um dedo só (na verdade, ainda tem o polegar, formando a álula) e com penas. Os morcegos possuem membranas interdigitais enormes, sendo as asas as suas mãos estendidas, por isso o nome “quiróptero” (asa nas mãos). E temos as asas dos insetos, que são bem diferentes das anteriores. São membranas finas e vascularizadas e, ao contrário dos vertebrados, nos insetos os músculos estão inseridos apenas no tórax.

Fóssil de Archaeopteryx

Mas como essas asas vieram a surgir é que é a parte interessante. São caminhos muito diferentes levando para o mesmo modo de locomoção. A origem das asas nas aves remonta à sua ancestralidade com os dinossauros, mais especificamente os terápodos (o grupo do velociraptor e do tiranossauro), chegando à espécie considerada como a ave mais antiga, que seria o Archaeopteryx. Seriam terápodos pequenos, leves, as penas seriam escamas modificadas. Essas penas estariam presentes não só no Archaeopteryx, como também em alguns de seus ancestrais terrestres. A função das penas em um dinossauro que não voava, ainda que pequeno, é uma incógnita. Mas devemos lembrar que nem tudo possui uma função em termos de sobrevivência, podendo as penas servir como display, seja para assustar predadores ou atrair fêmeas. O que muitos não sabem é que existiu uma porção de dinossauros com penas. Alguns deles possuíam muitas penas nas pernas traseiras e certamente muitas dessas linhagens de répteis penados foi extinta. Voltando aos Archaeopteryx, eles eram dinossauros muito pequenos, do tamanho aproximado de um pé humano, e não se sabe ainda se eles voavam ou apenas planavam. A hipótese atual para o comportamento desse bicho é que ele realizava vôos baixos e curtos, certamente para capturar animais voadores como libélulas. É a conhecida hipótese terrícola. Além de ser uma hipótese mais plausível, eu particularmente gosto muito dela, graças a um detalhe: ela lembra muito o começo do vôo dentro de nossa própria civilização. Como os primeiros aviões, o Archaeopteryx também não realizava vôos elaborados e extensos. O 14-bis voou apenas alguns metros, somente depois surgiriam aviões capazes de voar durante horas, percorrer continentes ou atingir velocidades supersônicas. Com as aves essa história é semelhante. Hoje existem aves que atravessam o planeta, pairam no ar e realizam rasantes em altíssimas velocidades. Um começo humilde, pouca coisa mais do que um mero salto, para enfim o vôo e todas as suas possibilidades.

Dumbo: inspirado pela história de sucesso dos insetos?

Para os insetos, a origem das asas é completamente diferente. As membranas que hoje são usadas para o vôo, antes eram usadas como termorreguladoras. Esse mecanismo não é novo. Para resfriar a linfa, o inseto a espalhava por uma membrana fina e a sacudia velozmente aumentando a troca de calor entra a linfa e o meio. Elefantes fazem algo análogo, irrigando as orelhas com sangue e abanando-as. O que os elefantes não conseguem é utilizar essas orelhas para voar (ao menos os elefantes reais, desconsiderando, neste caso, o Dumbo). É uma pena que não possamos conhecer a compreensão de mundo de um inseto, pois seria engraçado imaginar o quão perplexo ficou o primeiro inseto encalorado em seu primeiro vôo. E algo tão versátil, útil e poderoso quanto as asas, nascendo de um mecanismo prosaico de termorregulação. É como se os helicópteros tivessem sido inventados por um fabricante de ventiladores. Você pode imaginar a cena.

O que há de mais moderno em termos de "asas".

O ponto é: muitas pessoas veem na funcionalidade e na beleza da natureza um projetista infinitamente sábio e onisciente por trás. Tanta convergência, tanta eficiência só pode ser interpretada como obra de um designer inteligente. Bobagem. Não interessa o quão perplexos fiquemos com a complexidade de nosso mundo, sempre existe uma ótima explicação. Uma explicação mais completa, plausível e elegante, que só pode ser obtida através de muito estudo e muita perspicácia (sempre com uma pitada de  criatividade). Poderíamos encerrar a questão das asas como prova cabal de que existe um deus por trás das espécies e que ele sabe o que está fazendo, mas morreríamos sem conhecer as suas histórias evolutivas, interessantes e belas por si mesmas, como as próprias asas que deram origem.