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Muitos dos esforços que mais conseguiram progredir em determinadas áreas dizem respeito à organização de um método capaz de resolver os problemas com os menores gastos de tempo e energia possíveis. Uma vez encontrado, um trabalho dispendioso e errático pode ser executado de maneira rápida e reprodutível. É assim com o método que Henry Ford implementou na indústria automobilística, só para citar um caso que mudou drasticamente o modo de produção.

Nas ciências, podemos destacar Aristóteles e seu método analítico e classificatório como o grande propulsor da biologia, por exemplo, bem como é de seu mérito a organização de uma gramática como a conhecemos e estudamos até hoje nas escolas. Mas é Descartes – junto com outros nomes como Bacon – quem nos dá a maior contribuição nesse sentido, pois seu método é, para todos os efeitos, uma forma de aprender a aprender.

Longe de qualquer coincidência, os princípios cartesianos são uma forte base para o método científico da forma como é atualmente concebido. Os passos de Descartes podem ser descritos em quatro conceitos: evidência, análise, síntese e recordação. Em resumo, devemos partir do fato, desmembrando-o em partes e vendo o que apresenta em comum sem negligenciar ou omitir qualquer informação.

Sabemos de nossas limitações e não é – como muitos fazem parecer – fraqueza admiti-las. Pelo contrário: é quando as abraçamos que podemos superá-las. Eis a função do método: retirar ao máximo as falhas de nossas avaliações pessoais e dar às nossas observações um caráter impessoal e despido, na medida do possível, de todos os mecanismos evolutivos que possuímos que são, muitas vezes, obstáculos para o conhecimento.

Ainda assim, é difícil dissociar ciência de cientista. No entanto, apontar erros do segundo grupo de modo algum invalida os méritos da instituição científica. Em primeiro lugar, porque é a mesma instituição que tem a função de desmascarar os erros provocados por seus membros – e não é com menor orgulho que o faz. Mesmo publicações periódicas indexadas podem ser ludibriadas por pessoas inescrupulosas, mas é usando o método que encontrarão as fraudes.

Ergo, a construção do método é uma tarefa empírico-filosófica de maior importância. É empírica porque precisa descrever e ser capaz de manipular os fenômenos observáveis da melhor forma possível – é sua raison d’être. E é filosófica porque, até onde lhe é permitida, é puramente especulativa – um produto de nosso pensamento abstrato. É, sem a menor das dúvidas, a criação da maior das ferramentas para satisfazermos a nossa propensão natural à curiosidade com o devido cuidado de selecionar as respostas mais satisfatórias e fiáveis.

E não é com menor admiração que estudos neurológicos começam a nos mostrar que o próprio cérebro trabalha de forma semelhante: nossa massa cinzenta não é somente responsável por processar informações de forma passiva, mas elabora hipóteses que serão testadas com os estímulos captados pelos sentidos. E a razão disso parece ser óbvia: realizar a tarefa com o menor dispêndio.

Observou-se menor atividade neural quando o estímulo visual pertence a um contexto previsível. Em outras palavras: o cérebro tenta antecipar o estímulo sensorial para operar com maior economia. Para entendermos com um exemplo: o cérebro cria a hipótese de encontrarmos a nossa televisão onde sempre esteve na sala-de-estar e terá menor atividade pela sua confirmação se comparado ao resultado inesperado de vermos um objeto diferente – ou mesmo a falta de um objeto – em seu lugar.

De modo algum existe a alegação de que a ciência é perfeita ou imune a críticas. Seu método pode ser melhorado? Por princípio, tudo pode. Os limites parecem ser aqueles que emergem das propriedades definidas no objetivo – e os da ciência dizem respeito ao que é passível de observação e reprodução controlada. Parece pouco, mas dificilmente encontraremos fenômenos realmente importante que estejam fora de seu escopo.


Referências:

ALINK, Arjen. SCHWIEDRZIK, Caspar M. et al. Stimulus Predicability Reduces Responses in Primary Visual Cortex. The Journal of Neuroscience, Washington, 2960, pp. 2960-2966, fevereiro de 2010. Disponível em: <http://www.jneurosci.org/cgi/reprint/30/8/2960.pdf>. Acesso em 10 jan. 2011. [em inglês]

ARISTÓTELES. Metafísica. Disponível em: <http://remacle.org/bloodwolf/philosophes/Aristote/tablemetaphysique.htm>. Acesso em 10 jan. 2010. [original grego com tradução para francês]

BACON, Francis. Novum organum. Disponível em: <http://temqueler.files.wordpress.com/2009/12/francis-bacon-novum-organum.pdf&gt;. Acesso em 10 jan. 2011. Do original latim Novum organum scientiarum (1620), disponível em <http://ia700402.us.archive.org/5/items/1762novumorganum00baco/1762novumorganum00baco.pdf>. Acesso em 10 jan. 2010.

DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 2009. 4. ed. Também disponível em: <http://ateus.net/artigos/filosofia/discurso-do-metodo/>. Acesso em 10 jan. 2011. Do original francês Discours de la méthode (1637), disponível em <http://s3.amazonaws.com/manybooks_pdfLRG/descarte1384613846-8pdfLRG.pdf>. Acesso em 10 jan. 2010.

LAKATOS, Imre. Ciência e pseudociência. Disponível em: <http://ateus.net/artigos/ceticismo/ciencia-e-pseudociencia/>. Acesso em 10 jan. 2011.

POPPER, Karl. Como a ciência evolui. Disponível em: <http://ateus.net/artigos/filosofia/como-a-ciencia-evolui/>. Acesso em 10 jan. 2011.

MACCARI, Cesare. Cicerone denuncia Catilina. 1882-1888. Villa Madama, Roma. (detalhe)

MACCARI, Cesare. Cicerone denuncia Catilina. 1882-1888. Villa Madama, Roma. (detalhe)

Quando tomamos conhecimento de tudo o que até agora criamos, respondemos, evidenciamos, comprovamos, descobrimos — nós, enquanto humanidade —, fica difícil compreender em que ponto estaria, na ideia de progresso, de desenvolvimento, de avanço, a concepção (malograda) de providência divina. Se a História evidencia algo, é isto: Deus — sua defesa, mais propriamente, por meio de instituições religiosas — serviu à humanidade tão somente para detê-la em seu curso e garantir seu retrocesso. Ou a conservação de seus insensatos paradigmas.

Ainda que tal ideia não seja inédita, é importante evidenciá-la porque, como se sabe, o óbvio é óbvio apenas a quem acolhe, a par de sua honestidade intelectual, a par de uma sinceridade irrestrita e, por vezes, insuportável, a evidência das evidências. Não é difícil, nesse ínterim, encontrar exemplos sobre isso — visto que a história da humanidade, ainda que seja um livro empoeirado e digerido por traças e sandeus, é sobretudo um livro aberto; contudo, e é pertinente esclarecer, apontemos alguns fatos. Levando-se em consideração a Idade Média, o que encontramos é, no campo da Filosofia, a estagnação ou mesmo a desaceleração de um processo racional de entendimento do homem, do mundo, da existência, iniciado com os gregos e deturpado pelos santos filósofos ligados à ICAR que, ao reciclarem as ideias de Platão e Aristóteles, nada mais fizeram que deturpá-las a fim de garantir a validade de um resguardo caquético que amparasse Deus.

Do mesmo modo, se enfocarmos a Física teremos, no mesmo período, a evidência de descobertas relevantes, embora árduas — posto que, contra os dogmas cristalizados da Igreja, não se podia argumentar francamente (Galileu o prova, a contragosto) —; o curioso, aqui, é que qualquer descobrimento dessa natureza serviu para extrair da Igreja parte de sua coerência (na suposição de que existisse alguma). Restaria a nós, com isso, inferir quanto estaríamos mais desenvolvidos — do que de fato estamos — caso não existissem tais bloqueios. A fortuna da humanidade foi a de ter como compartes alguns homens que presentemente denominamos gênios, e que nada mais fizeram do que o contrário que fez a grande maioria que homens que puseram em prática a obediência que nada questiona, uma mistura de estupidez e insolência. Estes, os insensatos e simplórios — não necessariamente em tal ordem —, se constam na história do homem é meramente por, talvez, uma questão de sarcasmo.

Como aventamos acima, ainda que brevemente, no curso do progresso humano houve sempre o conflito da aceleração rumo à sensatez versus o retrocesso rumo ao desesclarecimento. E hoje, quando vemos no tecido da História as máculas que nos coagiram, é impossível não concluir que, atualmente, estaríamos muito mais avançados no que concerne à tecnologia, à ciência e à cultura do que, de fato, estamos. Estaríamos, nós, homens de hoje, pois os homens de ontem trocaram o avanço intelectual por um lenitivo metafísico, placebo que nunca realmente curou — pelo contrário, sempre acabou por nos denegar um pouco mais. Saliente-se, além disso, que o tempo perdido nesse retrocesso não podemos reavê-lo.

No entanto, ainda está ao alcance de nossa competência mudar o andamento da sinfonia humana, fazê-la de staccato a prestissimo, isto é, evitarmos que nosso presente e nosso futuro sejam pacientes de possíveis pioras de sua doença dogmática. Possíveis, vale dizer, caso nossa liberdade de pensamento se aliar à rejeição de tudo o que nos re-tarde. Até quando?

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Nota

Quo usque tandem…?: expressão latina a significar “Até quando?”, foi imortalizada pelo orador romano Marcus Tullius Cicero que a empregava no início de seus discursos contra Catilina. A frase completa (Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?, “Até quando, ó Catilina, abusarás de nossa paciência?”) serve aos nossos propósitos caso fizermos uma simples mudança: alterarmos “Catilina” por “caterva”.