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Indivíduos inteligentes e racionais nunca escolheram ser incapazes de se dopar com ilusões infantis, bem como religiosos nunca escolheram ter fé. Nenhum dos dois tem a liberdade de mudar voluntariamente o modo como seu cérebro desde sempre se habitou a funcionar. Porém, como precisamos de ilusões para viver, cada qual, de acordo com sua inteligência, se vê obrigado a empregar métodos diferentes para suportar a existência.

É inútil insistir: não conseguimos ter fé. Nossa única alternativa passa a ser buscar consolo no esclarecimento, mas como? Só causa miséria a lucidez diante de um mundo miserável. Então, se não conseguimos contornar esse problema nos envolvendo com ilusões absurdas, passamos então a nos envolver com ilusões sensatas, que satisfazem nossa inteligência. Mentiras simplesmente não nos cativam, nos enojam. Assim, como não conseguimos nos iludir com falsidades, iludimo-nos com o seu oposto: a verdade. Encontramos no conhecimento o que os tolos encontram na fé, buscamos na honestidade o mesmo que os demais no engano, entendemos de olhos abertos como se consolam os vendados. Aprendemos a suportar a vida à nossa maneira. Se hoje temos uma consciência tranquila diante do fato de não precisarmos ter fé, isso ocorre porque nos bastam farmácias e bibliotecas. Nossos milagres estão em blisters. Concluímos em vez de acreditar, refletimos em vez de suplicar.

O fato é que nunca teríamos aceitado tão tranquilamente a morte de Deus se não dispuséssemos de meios seguros de substituí-lo. No lugar do jardim do Éden, colocamos o jardim da filosofia, e tanto um como o outro servem apenas para nos distrair, para esconder o desfiladeiro niilista. Sabemos que, em nossas vidas, a filosofia, a reflexão abstrata, cumpre o mesmo papel que a religião, e ambas as coisas não passam de meios de fugir da realidade. Reconhecemos que nem a filosofia nem a religião nos levarão a lugar algum, apenas nos distrairão do tédio. Parece pouco, mas basta. Somos humanos, e uma existência decente é tudo o que esperamos. Como temos farmácias, o autoengano tornou-se dispensável. Como temos inteligência, encontramos consolo na reflexão, e sentimo-nos plenos por podermos levar adiante nossa natural inclinação à honestidade.