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II

Um exemplo que ilustra muito bem os verdadeiros interesses por detrás do discurso relativista são os criminosos que, por meio de artifícios legais quaisquer, buscam se inocentar de crimes dos quais sabem ser culpados: um comportamento relativista bastante típico. Claro que, se fossem inocentes, não teriam nada a perder com a verdade; pelo contrário, ajudariam a buscá-la por interesse próprio. Porém, como são culpados, dizer a verdade não convém: se quiserem permanecer livres, sua única chance está em confundir tudo o que se entende por verdade, ao menos no que diz respeito às evidências que os incriminam. Por isso nunca exibem qualquer interesse sincero em averiguar os fatos, sempre se limitando ao mínimo necessário para que saiam impunes. Assim, em vez de adotarem uma postura aberta, enfatizando uma irrestrita busca por evidências, simplesmente olham ao lado na esperança de que ninguém se dê ao trabalho de investigar mais a fundo — pois seria apenas questão de tempo até encontrarem indícios que os incriminam. Essa é a razão pela qual todos os culpados são estranhamente isentos de curiosidade: sabem muito bem o que será encontrado por detrás das aparências. Precisam, portanto, relativizar as evidências que apontam para sua culpa e também desestimular investigações posteriores a fim de evitar que sejam encontrados novos indícios, pois poderiam facilmente fragilizar, ou mesmo tornar indefensável, sua versão alternativa dos fatos segundo a qual são inocentes.

Suponhamos que nos acusem de um crime qualquer. Por mais hediondo que seja esse crime, se não o cometemos, a realidade estará em nosso favor. Assim, se confrontados a esse respeito, em vez de nos defendermos com discursos delirantes, relativizando toda a realidade, atacando ferozmente nossos acusadores, plantando dúvidas traiçoeiras em cada argumento que nos dirigem, seremos, pelo contrário, os maiores interessados cooperar com qualquer investigação que se proponha, para que se chegue à verdade o mais rapidamente possível, e assim os indícios demonstrem nossa inocência. Então, se somos inocentes, nosso maior interesse estará em ser honestos, pois, por mais que se descubra a nosso respeito, isso apenas confirmará nossa versão dos fatos. Por isso o sinal distintivo da honestidade é a consciência tranquila. Esse interesse sincero na busca pela verdade é a exata postura de qualquer cientista: ele tem consciência de que ser honesto é um interesse pessoal porque seu objetivo é alcançar a verdade — e qualquer outro interesse que se insira nessa equação só poderá prejudicá-lo, razão pela qual todo indivíduo que não tenha nada a esconder com sua interpretação pessoal dos fatos sempre verá o relativismo como um inimigo, nunca como um aliado. Portanto, se a realidade está ao nosso lado, nada temos a esconder. Não importa que surjam novas pistas a serem investigadas, não importa que todos os cientistas do mundo investiguem a questão por décadas e décadas com as mais avançadas ferramentas tecnológicas — quanto mais se investigar, mais ficará comprovada nossa inocência.

III

É normal uma pessoa religiosa estufar o peito para falar sobre a crença dos grandes gênios da humanidade. Alguns nomes logo vêm à mente. Isaac Newton é o primeiro. Físico, pai do cálculo e teólogo, para orgulho dos teístas. Galileu, um dos homens que desafiou a igreja, também acreditava em deuses. Einstein, muito citado em fontes não confiáveis pela internet como sendo autor de diversas frases, boa parte delas com alto teor religioso, também acreditava em algum deus (embora muito diferente do que a versão da grande maioria dos teístas). Da Vinci, Blaise Pascal e Kepler são outros nomes de grandes gênios crentes em deus.

Segundo o meu último texto, esse fato não interessa. Não entendam isso como uma tentativa de desvio ao fato de que muitos cientistas brilhantes acreditavam em deus. Na verdade, muitos outros cientistas brilhantes não acreditavam em nenhum e isso também não faz diferença alguma. Esse meu texto não vai atacar a validez da defesa apologética na qual os grandes gênios aparecem como evidência de que deus existe. Essa defesa já começa inválida por se tratar de simples falácia do apelo à autoridade. Quero falar sobre a relação entre a crença e suas experiências, uma ideia fundamental que parece ser sistematicamente ignorada por muitos teístas. Para tal eu focarei em Newton, visto que ele é o mais óbvio expoente de cientista crente em deus.

Newton acreditava – muito – em deus. Não resta a menor dúvida quanto a isso. De fato, ele era um teólogo. A faceta de Newton que não nos ensinam na escola inclui teologia e alquimia dentro das atividades deste cientista britânico. Essa mesma faceta é muito lembrada com orgulho pelos defensores da “ciência amiga de deus” de que eu falei no meu último texto. Como a relação deus e ciência é tão repleta de ironias, é óbvio que existe mais uma por trás da teologia de Newton. Não sei se os apologistas nunca pararam para pensar sobre isso por preguiça ou conveniência, mas o fato é que existem ótimos motivos pelos quais Newton não é conhecido por sua teologia e alquimia. Ao contrário do Newton físico, matemático e filósofo natural, a sua contraparte teológica e alquimista não colaborou muito (ou nada) para a humanidade. O cálculo de Newton e suas leis fundamentais revolucionaram a física, mas a alquimia e teologia foram irrelevantes. Seria interessante se Newton não tivesse desperdiçado tanto tempo na busca de uma pedra filosofal ou de um deus bondoso, talvez saísse mais um ou dois postulados.

Mas o ponto mais importante não é esse. Não faz muito sentido divagar sobre o que Newton teria descoberto caso investisse mais tempo em seus estudos sobre a natureza. Newton, como cada ser humano, era uma criatura cujos conhecimentos dependiam intimamente de sua experiência. Antes de ser um filósofo/físico/teólogo de grande calibre ele era um filósofo/físico/teólogo do século XVII – XVIII. Não há como dissociar Newton de seu tempo da mesma maneira que não há como dissociar uma ideia de sua época, visto que a primeira é um reflexo da última.

Um exemplo de como muitos apologistas falham miseravelmente ao dissociar um pensamento de sua experiência está no criacionismo. É comum ver criacionistas defendendo que os principais gênios, como os que eu citei no primeiro parágrafo, eram todos criacionistas. Mais uma vez vamos um pouco além, ignorando o fato de que o argumento é apenas uma falácia, para analisar a sua validade.

Antes de nos perguntarmos por que Newton, Galileu e Pascal eram criacionistas, devemos nos perguntar como eles se tornariam evolucionistas. Sabemos como Darwin se tornou um. Entre os principais fatores está nada menos do que uma viagem ao redor do mundo com frequentes paradas, incluindo na América do Sul, onde Darwin servia primariamente como geólogo mas também coletava espécimes diversos. Wallace, o co-autor da teoria darwinista estava na Malásia quando chegou, de maneira independente, à mesma ideia central que Darwin. Antes de ir para a Malásia Wallace estudou e coletou durante anos na bacia Amazônica, um lugar que muitos brasileiros sequer conhecem. E fez isso em pleno século XIX. Há de se considerar a experiência destes dois naturalistas. Como que Newton chegaria à mesma conclusão que Darwin e Wallace? Estudando prismas? Observando uma maçã cair? Ou então Galileu deveria ter descoberto algo sobre a evolução das espécies olhando as estrelas através de seu telescópio.

Nem Newton, nem Galileu, nem Darwin ou mesmo eu e você tiramos nossas conclusões do nada. O que chamamos de grandes gênios são pessoas que sugam lições de suas experiências com a voracidade que um tolo não conseguiria. Mas a informação chega para todos com a mesma intensidade, a única diferença está em quem a acolhe. Uma maçã caindo foi o suficiente para inspirar Newton a postular algo sobre a gravidade, mas nem mesmo todas as maçãs do mundo caindo simultaneamente fariam com que um homem, preguiçoso ou temeroso em pensar, concluísse qualquer coisa.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes

I

Ateus são figuras estereotipadas. Um exemplo é a imagem do ateu cientificista. Claro, como todos os outros estereótipos atribuídos a nós, ateus, este não passa de mais uma bobagem. Ateus não [necessariamente] creem que a ciência possui resposta para todas as questões. Falando por mim, vejo o método científico como uma poderosa ferramenta para se compreender fenômenos naturais, mas termina aí. Não existe nenhum motivo muito evidente para que eu baseie minhas concepções de moral e visão de mundo inteiramente na ciência. Não trato as descobertas científicas com a mesma fé ardorosa que um cientificista o faria ou como um crente devoto trataria seu livro sagrado.

Como esses dois conceitos, ateísmo e ciência, vieram a ficar tão interligados é o cerne deste texto. Imagino que a responsável por essa associação no imaginário popular não seja o ateísmo em si, mas sim a mitificação da ciência. Falarei brevemente não da história da ciência, mas da história de como o grande público leigo viu a ciência moderna durante todos esses anos.

Fazendo um resumo porco desta história, a ciência começou sendo vista como um incômodo curioso e rebelde, desafiando dogmas centrais na sociedade ocidental. Isso já começa a conferir à “ciência” uma aversão à idéia de “fé”. Galileu é uma das figuras mais importantes desta época. Depois de incomodar, a ciência cresceu e começou a surpreender. Nos fins do século XVII e durante boa parte dos séculos XVIII e principalmente XIX tivemos grandes gênios. Newton, Lavoisier, Darwin, Tesla e Faraday, para citar alguns. Descobertas que alavancaram a tecnologia, a economia e até mesmo a própria maneira de interpretar o mundo, radicalmente. Até a primeira metade do século XX surgiam eventuais gênios, como Einstein, Watson e Crick. Parecia mesmo que tudo podia ser respondido de maneira lógica e sem apelo ao sobrenatural através do método científico. Depois disso ela cresceu exponencialmente tanto em termos de cientistas quanto de publicações. A quantidade de informação nova publicada anualmente ficou colossal. Porém, isso não refletiu em reviravoltas impactantes como as de épocas anteriores. Muito pelo contrário. A ciência decepcionou. Esperávamos cura para o câncer, colonizações no espaço, maior longevidade, carros voadores. Mas, no fim, parece que os avanços se limitaram ao meio virtual.

Jetsons - Versão cartunesca de como algumas pessoas imaginavam o final do século XX

A razão pela qual se associa normalmente ateísmo com ciência é porque esta começou a ser vista exatamente como ela não é, ou seja, detentora de todas as verdades. É de se convir que um método baseado essencialmente na dúvida, no ceticismo e no debate não pode se dar ao luxo de ser visto como infalível e absoluto. Este é um bom exemplo de como o público acaba por ver as coisas de maneira diametralmente oposta ao que realmente são.

Não só a ciência começou a ser vista como deidade, mas também foi vista como uma deidade que fazia acontecer, ao contrário dos muitos outros deuses que eram misteriosos demais e eficientes de menos. Também era natural que as pessoas começassem a perceber o quanto essa “ferramenta milagreira” que era o método científico dispensava deuses e orações. Surgia uma nova fé: a fé nos milagres da ciência, a fé cientificista. Uma deidade a qual valia a pena acreditar. Como o cientificismo consiste em acreditar que tudo pode ser explicado através de teorias naturais, o número de ateus consequentemente aumentou. Muitos chegaram a pensar que a fé em deuses teria um fim próximo. Ledo engano. As pessoas se desiludiram com a ciência tão violentamente que, além da fé no sobrenatural ter aumentado, criou-se uma aversão descabida à ciência. Leigos passaram a ver muitos dos cientistas como arrogantes, partindo do pressuposto que estes pretendiam se aproximar a(os) deus(es). Arrogantes, é claro, pois os cientistas eram pobres seres incapazes que ainda não se deram conta disso. É por isso que existe hoje uma confusão entre “curiosidade” e “presunção”, “humilde” e “ignorante”, e “douto” e “arrogante”. Na minha opinião, essa é uma situação um pouco triste. O ser humano é uma criatura naturalmente curiosa e não existe nada de condenável em querer entender o mundo ao seu redor, nada de presunçoso em conhecê-lo.

Essa decepção quanto aos milagres da ciência acabou por criar muitos dualismos em nossa cultura, alguns deles falsos. Temos “fé” de um lado e “razão” de outro. Um dualismo que impede muitos fervorosos de ponderar sobre suas crenças e muitos racionais de possuir segurança em suas convicções. Tudo bem que “fé” e “razão” são conceitos diferentes, mas também não são excludentes. Fé é uma forte crença e razão é a dedução lógica de certas premissas. Apesar de as duas não serem “grandes amigas”, elas não se tratam de ideias opostas uma à outra. Além desse dualismo tem-se “crentes” e “cientistas/ateus”, o que é patético. Eu como ateu ouço com relativa frequência perguntas do tipo “Ué, mas você não é ateu? Não é um cientista?”.

Mas muito pior do que o simples equívoco de associar ateísmo com cientificismo é a condenação do livre pensar. Existe hoje um abismo entre as descobertas científicas e a carga de conhecimento da população, mesmo a da elite intelectual. Falo isso baseado na rejeição que a teoria neodarwinista da evolução biológica encontra em muitos círculos. Essa rejeição é fruto da criação desse dualismo entre fé e razão. Muitos querem enxergar uma guerrinha entre sua fé e as novas descobertas da ciência, como se a última estivesse tão somente preocupada em ocupar o lugar de seu deus ou deuses. Pessoas mais elucidadas sabem que a ciência é apenas um método (poderoso) de entender o mundo natural e que a crença no sobrenatural não deve fugir do escopo pessoal. Deus e ciência não são dois generais se enfrentando em um campo de batalha. São apenas duas coisas que não interagem entre si, ou que ao menos não deveriam interagir. Mas falarei desse aspecto noutro texto.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes

Falei sobre um tipo específico de agnóstico em meu último texto. Agora falarei do agnosticismo como um todo, pois parece que eu fiquei devendo uma discussão mais ampla sobre o tema. Para início de conversa, já vou adiantando que existe um pouco de dificuldade em elaborar em grupo de agnósticos. Ao passo que o time dos “sem opinião”, que constitui agnósticos radicais e incômodos, formavam um plural bem definido, “agnóstico” é um termo que define muito pouco. Até mesmo “ateu”, um epíteto que pode ser concedido a praticamente qualquer tipo de pessoa, ao menos é objetiva quanto ao seu significado. “Ateu” é o descrente em deus, é claro. Mas e o “agnóstico”?

Não é à toa que, em meu último texto, eu defini “agnóstico” como aquele que admite não possuir conhecimento. “Admitir” é a palavra que faz toda a diferença nesse caso. Não se trata apenas de uma visão do mundo, mas do reconhecimento do óbvio. Somente alguém muito simplório acreditaria que possui conhecimento pleno sobre determinado assunto. Ou total conhecimento para defender racionalmente uma posição convicta e que dispensa qualquer debate acerca da existência de deus. Ou seja, a definição mais ampla de “agnóstico” inclui um número consideravelmente grande de pessoas. E poderíamos dividir as pessoas em agnósticas e fanáticas. Lembrando que essa divisão consideraria apenas se o indivíduo admitiria ou não a sua inerente falta de conhecimento, e não a falta de conhecimento em si.

Isso já é um problema. Se o agnóstico é apenas alguém não fanático, então é um termo um tanto quanto inútil. Eu seria um agnóstico. Seria um descrente em deus disposto a debater o assunto. Mas não vamos nos limitar à etimologia da palavra. É evidente que as palavras carregam o significado que os seus falantes dão a elas. Mesmo que “agnosticismo” seja a derivação do grego “a” (ausência) e “gnosis” (conhecimento) é um tanto óbvio que a palavra carrega um significado além destes. Existe outra definição, na qual “agnosticismo” consiste em crer que a razão jamais pode ou poderá ser usada para compreender assuntos de cunho sobrenatural. Muito sensato, na verdade. Algo muito parecido com a ideia de “magistérios não sobrepostos de Gould”, segundo a qual seria inviável se utilizar de métodos científicos e racionais para compreender questões de natureza teológica.

Essa definição também me incluiria como um agnóstico. Na verdade, muitas pessoas acham que eu deveria me autointitular “agnóstico”. Mas eu me pergunto se é porque o epíteto faz mais jus às minhas ideias, ou se é a ideia de “ateu” que as incomoda muito. O que me leva a pensar que o termo nasce da aversão que a sociedade tem ao ateu. Muito mais do que simplesmente admitir a dúvida ou acreditar que um debate racional sobre a existência deus é infrutífero, o termo “agnóstico” aparece para se diferenciar da idéia estigmatizada de “ateu” que muitos (infelizmente) têm até hoje. Pois não seria a dúvida uma forma de descrença? Não vou repetir aqui a analogia da porta e do leão que usei no meu texto anterior, pois lá ela aparece exaustivamente. Mas ela não é necessária. Fica apenas essa reflexão para os que acham que “dúvida” é algo a meio caminha da “crença” e da “descrença”.

No vocábulo popular, é claro, agnóstico é aquele que não defende nem a existência de deus, nem o contrário. Neste momento, eu deixo de ser agnóstico, pois acho que a questão está um pouco mais resolvida do que parece. O agnóstico acaba sendo visto como alguém que não ataca nenhuma das ideias, mas é morno demais. Não chove nem molha. Exceto é claro, o timinho dos “sem opinião”, que fazem questão de incomodar todo mundo com suas ideias irrelevantes. Eu sou daqueles que vê a maioria dos agnósticos como pessoas em estado de eminente ateísmo. “Agnosticismo”, visto de maneira prática, pode ser interpretado como estado de transição. Mas não da transição entre a crença e a descrença. Trata-se do desenvolvimento do ateísmo ou teísmo dentro de uma mente indecisa.

Só podemos cultivar a racionalidade nos espaços que a emoção não ocupa. Então, se, numa questão qualquer, quisermos permanecer racionais, a única possibilidade seria tentarmos nos conservar calmos e emocionalmente neutros. Isso porque, em relação às opiniões racionais, as emoções são como uma medusa: petrificam-se ao vê-la — e nunca mais mudarão pelo resto de nossas vidas. Assim, se desejamos nos tornar livres-pensadores capazes de refletir com independência, devemos recorrer ao estudo e aos livros, não aos debates, à militância e às disputas acaloradas, e fazer todo o possível para nos distanciarmos de situações emocionais envolvendo o assunto, dissociando-o de nossos interesses e de nossa vaidade. É sensato proceder desse modo porque, quando nos envolvemos pessoalmente com uma questão qualquer, é inevitável que nos tornemos parciais. Sempre que pudermos escolher num assunto nos quais estejamos envolvidos, escolheremos parcialmente — é uma tentação que não conseguimos resistir, e a única alternativa é não ter um lado pelo qual escolher. Então, uma vez consigamos conquistar essa ótica de distanciamento, compreenderemos finalmente que, pelo motivo que for, o socialismo está correto, e o capitalismo também — a depender da miopia que nos fisgou muito antes de entendermos o assunto com clareza.

Nessas disputas imaginárias, gostamos de acreditar que somos os únicos com a razão ao seu lado, mas somos apenas macacos míopes tagarelando sobre seus absurdos. Seja qual ela for, a opção com que ficamos, apesar de nos sentirmos inclinados a elogiá-la, dependerá apenas de nossa personalidade — e nossas personalidades são apenas um acaso pessoal, uma miscelânea de preconceitos herdados e aprendidos, sem que haja nada digno de respeito nas opiniões que elas inspiram, pois todas as verdades que precisam ser defendidas são mentiras — especialmente aquelas que, exatamente agora, estamos procurando um pretexto para classificar como uma exceção. Em suma, vivemos num mar de opiniões e convicções, todas inúteis. Dentro disso, o modo como cada qual governa sua vida é mera questão de estilo, e tanto quanto discordamos dessa afirmação, isso apenas revela nossa parcialidade, nossa incapacidade de nos olharmos com o mesmo desprezo que dispensamos às opiniões alheias pelo simples fato de não corresponderem às nossas.

Para ilustrar esse fenômeno bastante deselegante de odiarmos os indivíduos gratuitamente apenas porque não concordam conosco, pensemos na clássica disputa entre os que se iludem e os que se desiludem, entre os que amam as mentiras e os que as destroem em nome da verdade, tendo em mente que nossas paixões nos escravizam. O que é melhor, viver em nome da felicidade, mesmo que isso envolva enganar-se, ou viver em nome da verdade, mesmo que isso envolva desgraçar-se? A resposta é simples: tanto faz. Porém, se observarmos a questão mais de perto, veremos ainda o seguinte: os que amam a mentira e desprezam a verdade serão escravos da mentira, mas os que amam a verdade e odeiam a mentira serão escravos de ambas — estarão certos, mas serão para sempre escravos disso, como fanáticos da verdade, emocionalmente submissos a uma realidade impessoal e arqui-inimigos de uma mentira torpe. Em termos práticos, o fardo dos primeiros parece mais leve. Porém, se gostamos de estar certos, custe o que custar, tudo bem, mas isso não nos torna superiores aos que gostam de se iludir, pois eles se guiam por outros critérios, e com razão nos veem com o mesmo desprezo com que os vemos. O fato é que não há por que nos orgulharmos de escolher o modo mais esclarecido de regressar à inexistência; tal ideia não passa de paspalhice. No mais, seja qual for o nosso lado, se não podemos escolhê-lo agora, isso significa que nunca pudemos. Então, se ainda não tivermos um lado, talvez o melhor que possamos fazer seja continuar assim.

Em se tratando de plurais, os agnósticos formam um grupo bastante heterogêneo. No mínimo tão heterogêneo quanto nós, ateus. Antes que o meu texto seja mal interpretado, não chamo os agnósticos, todos eles, de “sem opinião”. O time dos “sem opinião” se refere a um grupo dentro do grupo. Um tipo particular de agnóstico muito comum e muito irritante.

Antes de falar deste grupo, vou falar dos agnósticos no geral. Agnóstico é aquele que admite não possuir conhecimento o suficiente para ter convicção de que deus existe, ou de que ele não existe. Agora, se você é um leitor esperto, deve ter percebido que “ateísmo” e “agnosticismo” não são posicionamentos excludentes dentro de uma mesma mente pensante. Não acreditar em algo não significa ter convicção de que este algo não exista. Eu mesmo sou um ateu, e posso ainda ser definido como agnóstico. Mas vá explicar isso para o pessoal “sem opinião”…

Mas quem são esses gajos, afinal? Bom, para começar, todos se definem como agnósticos. Eles o fazem de tal modo que fica fácil criar uma aversão (injusta) aos agnósticos em geral, mesmo que esse grupo possua pessoas muito mais lúcidas que a média da população. O diferencial do time dos “sem opinião” está, obviamente, no esforço destes em não tomar partido algum na questão da existência de deus(es).
Esses agnósticos se baseiam em certas premissas, todas equivocadas.

A primeira delas. “Descrer na existência de deus é crer convictamente que este não existe”.  Falso. Existe a crença e a descrença. Assim como existe a convicção. Crer em alguma coisa é agir sob o pressuposto de que esta coisa exista. Descrer é o oposto. Crer convictamente é ignorar qualquer evidência que derrube a sua crença.

Para ilustrar esse exemplo, imagine uma porta. Agora eu lhe digo que, atrás desta porta, existe um leão faminto que não vai pensar duas vezes antes de devorá-lo. A questão é que você quer abrir essa porta. Existem duas escolhas. Você crê no que eu digo, ou descrê. Logicamente.
A crença de que o leão existe vai se refletir nos seus atos. É muito improvável que você vá incauto em direção à porta, sendo que você acredita na existência do leão espreitador. Certamente você sequer se aproximará da porta, ou caso vá em direção a ela, o fará com muita cautela. Isso é a crença, no seu modelo de mundo, o leão está lá, e é sensato tomar bastante cuidado.

Você pode descrer. Neste caso você abrirá a porta sem o menor receio. Ou talvez com um pouco de receio, é verdade, mas ainda assim abrirá. Você pode discutir comigo, tentar ser razoável. Um leão atrás da porta emitiria algum barulho, ou mesmo calor. Ou poderia me perguntar, e seria uma pergunta muito pertinente: “o que um leão estaria fazendo atrás daquela porta, afinal?”. Eu poderia inventar qualquer coisa. Poderia até mesmo dizer que um simples humano como você não seria capaz de compreender as minúcias da fome do leão.

Uma crença convicta no leão seria se, mesmo sem qualquer evidência a favor do bicho, você ainda ficasse com medo. Impediria qualquer um de se aproximar da porta e gritaria aos quatro cantos que “ali tem um leão!” e que “todos deveriam se manter afastados da porta o máximo possível!”. Poderia também crer convictamente que o leão não está ali, o que é diferente de simplesmente descrer. Porque você ignoraria a priori qualquer evidência corroborando o leão faminto.

Esse equívoco manifesta-se de maneira mais óbvia na seguinte afirmação, muito comumente pronunciada por este subgrupo peculiar de agnósticos:
“Eu não acredito, mas eu também não desacredito.”
Uma pérola, em minha opinião. Assemelha-se a dizer “Eu não conheço, mas eu também não desconheço.” ou “Eu não confio, mas também não desconfio.”! No entanto, é muito normal ler ou ouvir essa frase em discussões por aí afora. De maneira geral, eu tomo essa frase como um diagnóstico de que o sujeito em questão faz parte mesmo do timinho dos “sem opinião”.

A outra premissa é a de que crer e descrer em deus(es) são posições de mesmo mérito intelectual. Discordo totalmente.
Peguemos o exemplo do leão atrás da porta. Qual a chance de ter um leão atrás da porta, sendo que você está em um recinto fechado, dentro de uma zona altamente urbanizada, com um oceano atlântico te separando da savana africana? Cinqüenta por cento? Certamente que não. Fica óbvio que a crença e a descrença, neste caso, não fazem parte de extremos opostos de igual plausibilidade. Pois bem, o mesmo acontece com deus. Quais são as evidências de que existe algum deus? Eu desconheço. E isso que eu já li muita coisa, das mais absurdas às mais sofisticadas defesas da existência do “papaizão”.

O religioso fanático tem uma visão romantizada das coisas. Visão essa na qual o mundo é um palco e o seu teste de fé é negar a realidade, sonhar com o além-vida e converter os infieis para a sua crença. O ateu fanático também vê as coisas de maneira exagerada. Sendo ele o paladino defensor da razão, a única virtude que um ser humano pode ter. Assim como esses dois, o agnóstico também pode ser fanático. Evidentemente, é esse o caso dos “sem opinião”. Eles também têm uma visão romântica do mundo, em que este está em uma guerra ideológica entre teístas e ateus e eles, os agnósticos, são os únicos seres sábios e iluminados que se distanciaram desse conflito para pensar livremente a respeito do mundo. Todos os três exemplos de fanáticos se mostram como pessoas simplórias. Estão sempre na constante tentativa de se destacar dos demais, colocando todos no mesmo saco e eles, como seres acima de qualquer debate.

Mas tem algo pior no time dos “sem opinião”. Uma desvantagem adicional. Ao passo que ateus e teístas, mesmo os fanáticos, têm ao menos sobre o que se posicionar, os “sem opinião” sequer têm isso. Como eu disse anteriormente, é um esforço constante em não tomar partido. São pessoas inteligentes o suficiente para admitir que religiosidade e racionalidade não conseguem conviver juntas. Percebem que deus é algo que foge à lógica e à razão. Mas têm medo de admitir que não acreditam em deus. Claro, pois, se algum deus existir, eles estarão seriamente lascados.

Não ter opinião é algo perdoável somente sob o estado da ignorância. Mas à medida que nos informamos mais sobre um assunto, é recomendável nos posicionarmos. Ter opinião não é sinal de fanatismo, mas sim de sinceridade frente aos seus conhecimentos. De que adianta termos conhecimento, se não colaboramos para melhorá-lo?

Enganar-se é aceitável? Ampliemos um pouco nosso contexto: dizer a verdade é aceitável? Ser sempre indiscriminadamente honesto não chegaria a ser imoral? Até mesmo estúpido? Por exemplo, imaginemos que estejamos diante de um paciente terminal. Ele nos pergunta se vai morrer; respondemos que sim, e não tardará muito; ele nos pergunta se alguém chorará por sua morte; pensamos em dizer algo confortante, mas lembramos nosso compromisso com a verdade, sendo forçados a confessar que não, ninguém o amava; morrerá como viveu, sozinho, e depois será esquecido. Nesse caso, que benefícios há na verdade? Ao que parece, nenhum; há apenas um sentimento de honra, semelhante ao de um guerreiro que morre com as armas em punho e os dentes cerrados. A diferença é que não há guerra alguma acontecendo.

Claro que a verdade pode ser muito útil. Por exemplo, para alguém que depende da lucidez para ser mais competitivo no mundo, a razão pode se justificar como uma ferramenta de sobrevivência. Nunca estar errado é um ótimo meio de assegurar que venceremos todas as disputas possíveis. Aqui, por mais que a verdade pareça desagradável, ela cumpre um fim; sentimo-la como uma feroz aliada, e torna-se temível um homem que jamais se engana. Contudo, todo pacto com um demônio tem seu preço. E o preço de uma temível honestidade é não termos controle sobre ela. Seremos honestos, doa a quem doer, como bestas selvagens da racionalidade. Isso não parece um compromisso exagerado? Porque, para além do exemplo acima, a verdade tem pouca utilidade; mais ainda, quando voltada ao nosso íntimo, ela parece um fardo, mostrando-nos uma realidade que nunca conseguiremos aceitar plenamente. Então por que permanecemos de olhos abertos diante de uma vista que nos horroriza? Não seria possível a perturbadora ideia de termos nascido sem pálpebras? Pois não sabemos dizer por que somos assim; até onde podemos perceber, não parece ter sido uma escolha.

É comum pensarmos que, se alguém atravessa a vida manifestando essa honestidade quase heroica perante o mundo, deve haver nisso algum motivo, já que, se não houvesse benefício algum, seria mais fácil simplesmente inventar qualquer teoria espúria para o mundo e dormir dentro dela. Mas, para nós, realmente seria mais fácil? Aqueles que se sentem irresistivelmente atraídos pela verdade podem escolher enganar-se? Não é essa integridade uma espécie de vício que, por acaso, tem o rótulo de virtude? Por isso mesmo, tal inépcia não deveria ser vista como um tipo de fraqueza, como uma incapacidade de mentir suficientemente bem? Enfim, uma sobriedade nascida não da coragem, mas da incompetência. Gostaríamos de ter medalhas por permanecermos acordados, mas tudo o que temos é insônia.

Se fôssemos livres, se pudéssemos escolher, qual seria a situação mais desejável? Idealmente, pensando na diminuição da dor e no aumento do sucesso, a lucidez deveria ser total para o lado de fora — para o mundo social competitivo — e mínima para o interior, para nossas vidas pessoais. O problema é que não conseguimos fechar os olhos quando, ao fim do dia, voltamos para casa; somos vítimas disso que podemos descrever como um desassossego intelectual. Desnecessário dizer que essa lucidez que não consegue controlar-se causa uma grande quantidade de sofrimento, que seria facilmente evitável se conseguíssemos escolher quando abrir ou fechar os olhos. Mas não conseguimos, e talvez apenas por isso sejamos honestos. Permanecemos absolutamente sinceros, mas não entendemos muito bem o porquê. Não se trata de virtude; seríamos os últimos a negá-lo. Parece uma lealdade verdadeiramente cega ao Inútil.

CIORAN, Emile. Breviário de decomposição. Trad. José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1989.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
PESSOA, Fernando. O livro do desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

O Nobel de literatura irlandês George Bernard Shaw uma vez comparou, com sua forma peculiarmente bem humorada, a felicidade de um homem religioso à doce ilusão de um homem embriagado. Dizia ele que o fato de um homem religioso ser mais feliz do que um cético é equivalente ao fato de um homem bêbado ser mais feliz do que um homem sóbrio. E complementou: a felicidade advinda da credulidade é uma qualidade perigosa e barata.

Estas palavras não são postas sem propósito, pois os fiéis que bebem do sangue de Cristo parecem mesmo acometidos de certa embriagues. A etimologia da palavra “religião” é fruto de controvérsias, mas há quem defenda que ela advenha do termo latino religare (religio, na vulgata), que significa “religar”. Entretanto, o preço pago por essa conexão com um suposto ser superior nos é cara. Acreditar no sobrenatural necessariamente implica desconectar-se da realidade e ignorar todo o conhecimento científico sério.

Ébrias, as pessoas religiosas tendem a ser seletivas quanto ao conhecimento que entendem por válido. A sistemática é simples: tudo o que vai de encontro à ideia de deus deve ser descartado. Assim, com toda a paixão etílica que demonstram por suas próprias fantasias, continuam a se intoxicar de ilusões pueris, vivendo em uma realidade que lhes é particular.

Não é de se estranhar a paixão que demonstram ao entonar os hinos nas igrejas e templos, nas suas convulsões e exorcismos. George Shaw parece mesmo estar certo em sua analogia, a felicidade advinda da embriaguez da fé é perigosa e barata, aliena e demove dos fiéis qualquer senso de realidade. Não há como negar que até mesmo as crianças que esperam por Papai Noel a cada natal são mais felizes que aquelas que desafiam a sua existência.

Estamos dispostos a pagar o preço de tal ilusão? Não ponho em dúvida o caráter ou a inteligência daqueles que possuem fé em deus, mas até que ponto estamos dispostos a incentivar e ser governados por pessoas com a mente entorpecida por dogmas canônicos? Eleger um político religioso, para mim parece similar a eleger um político assumidamente alcoólatra. Uma atitude no mínimo temerária. Não é apenas a felicidade de quem tem fé que se equipara à embriaguez, mas também a sua capacidade de discernimento. É preciso tratar esse vício hereditário.