Por que somos bons? Essa é uma pergunta muito interessante mesmo quando analisada de maneiras diferentes. Para alguns, a nossa bondade é tão absurda que só poderia ser obra de algo superior a nós. Para outros, a nossa bondade é tão benéfica que sem ela nós não seríamos muito melhores do que orangotangos. Falo do conceito de moralidade, o prezo pelo próximo e o compartilhamento do sofrimento alheio.
Alguns podem pensar: “Bons? Como assim, somos bons?”. Verdade, nem sempre somos bons, mas é a nossa capacidade de fazer o bem que chama a atenção, e não o contrário. Um ato de crueldade e desprezo é, por incrível que pareça, exceção. Acontece que são os atos maléficos que memorizamos, pois ser bom é o normal e não é digno de lembranças, a não ser que estejamos falando de atos de heroísmo, é claro. A nossa moralidade é tão presente em nossas vidas que sequer a percebemos, na maioria das vezes. Quando somos – e que fique claro que o uso da palavra “somos” se refere à humanidade de uma maneira geral – mesquinhos, trapaceiros e cruéis, estamos agindo em desacordo com o padrão. Muitas vezes, um ato de crueldade é muito mais uma questão de burrice do que propriamente maldade.
Mas de onde vem essa bondade? Por mais que o nosso mundo seja bem abastecido de mesquinhez, não há como negar que é uma questão bastante intrigante o fato de existirem pessoas boas. Como eu sou brasileiro e você, leitor, provavelmente também o é, falarei da hipótese mais aceita por essas bandas: a de que a nossa moral vem da bíblia.
Antes devo lembrar que a questão da moralidade é mais ampla do que a bíblia ou seus dez mandamentos. Existem muitas maneiras de se associar “moral” a uma deidade que dispensam a crença na bíblia como verdade absoluta. Para muitos, a existência de nossa moral prova de maneira cabal que existe um projetista. Mas serei mais específico neste texto, pois não quero me alongar muito. Os demais teístas que possuem uma crença mais sofisticada na relação entre moralidade e deus certamente ficarão insatisfeitos, mas continuarei falando sobre moralidade no meu próximo texto.
Então, vamos à bíblia! As famosas leis contidas em Êxodo 20:2-17. A bíblia da qual eu peguei os versículos é da versão Almeida Corrigida e Revisada Fiel, retirada do sítio “Bíblia Online”¹. A minha divisão corresponde a como os mandamentos são disponibilizados segundo a Igreja Católica. O que cada mandamento abrange depende da religião. Os mandamentos são ligeiramente diferentes entre o judaísmo e o cristianismo, assim como entre as denominações cristãs, como a igreja anglicana e a ortodoxa. Mas isso é irrelevante, discutirei as idéias contidas, independente de como estão ordenadas. Analisemos:
2. Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.
3. Não terás outros deuses diante de mim.
4. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.
5. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam.
6. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.
É seguro dizer que isso não tem qualquer relação com moralidade. De fato, os primeiros mandamentos estavam muito mais relacionados a bajulações de deus do que à moral propriamente dita. Esse é o tipo de mandamento que é diametralmente oposto ao comportamento normalmente observado no Brasil. Começando pela própria igreja católica. Imagens de santos, por exemplo, constituem uma desobediência clara a esses versículos. Mas ninguém parece dar a mínima, e com um bom motivo. Realmente isso não faz a menor diferença. A maioria de nós não se sente mal só porque o seu vizinho possui a imagem de um santo na sua sala.
E quanto a adoração de outros deuses, temos os nossos orixás, os semi-deuses das religiões africanas. O “desrespeito” é tanto que, em alguns casos, Iemanjá e Virgem Maria se fundem em uma entidade só.
7. Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.
“Só Deus sabe o quão desobedeci é esse mandamento”.
Bom. Nem preciso dizer que essa ordem, que por acaso foi bem clara e inclusive escrita sobre um bloco de pedra, é amplamente ignorada no nosso país. “Pelamordedeus” e “Tomara Deus que tudo dê certo” são expressões que saem de todas as bocas, todos os dias em diversas ocasiões.
8. Lembra-te do dia do sábado, para o santificar.
9. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra.
10. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas.
11. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou.
E lá vamos nós de novo. Mais um mandamento que não tem absolutamente nada a ver com moral. Com a exceção de algumas correntes do cristianismo, como os adventistas do sétimo dia, o grosso da população brasileira ignora esse mandamento.
12. Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR teu Deus te dá.
Eis o primeiro mandamento que tem alguma coisa a ver com moral. É muito estranho a ordem destes mandamentos. O decálogo começa com leis referentes à adoração. Antes de falar sobre respeito aos pais, se fala para não fazer nada nos sábados, que não pode falar o nome de deus em vão. Primeiro, o orgulho de YHVH ou Javé, o deus abraâmico, para só depois o bem-estar da humanidade.
13. Não matarás.
Esse é o meu favorito. Me admiro que não seja o primeiro mandamento. Gosto da objetividade, do caráter utilitarista. Ninguém duvida que matar é errado, pelo menos na grande maioria dos casos. Mas por trás deste mandamento tão econômico em palavras e em subjetividade, residem algumas dezenas de contradições.
A primeira questão é: “Não matar o que?”. Esse é um problema, o homem mata muito para sobreviver. O mandamento se refere apenas aos seres humanos? Suponho eu que sim. Mas a contradição continua, principalmente porque esse mandamento encontra-se justamente no Antigo Testamento. O que não falta no AT são mortes, e então vem um mandamento dizendo que “não se deve matar?”
“Contradição” é o nome do problema.

"Na teoria ele é lindo" de Carlos Ruas
14. Não adulterarás.
Aqui vemos a marca da cultura. É errado adulterar na medida em que supomos uma fidelidade mútua conjugal. Mas como isto fica em culturas poligâmicas?
15. Não furtarás.
Um mandamento que se assemelha ao “não matarás”. Breve e objetivo. Não tenho muito o que comentar sobre ele. É por mandamentos como esses que muitas pessoas acreditam na moral como originada da bíblia.
16. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
Não mentir. Outro mandamento importante. Só que a mentira não está no mesmo nível que o assassinato e o furto. Mentir, antes de ser um “pecado”, é uma arte. Todos mentem, o tempo todo. Mentir é uma ferramenta social, sem a mentira a sociedade ruiria. Temos os casos em que mentir é claramente errado, um atitude imunda, como mentir que o responsável pela janela quebrada não foi você, por exemplo.
17. Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.
Eu amo esse mandamento. No catolicismo, na verdade temos dois mandamentos aí. “Cobiçar a mulher do próximo” é simplesmente hilário. Porque a bíblia não fala nada sobre “cobiçar o homem da próxima”? Eu tenho a minha resposta: a bíblia não foi feita para mulheres.
E o que temos depois? Servos, servas, bois e jumentos. Isso, para mim, é uma indicação clara de que a bíblia foi um livro escrito por homens hebreus há séculos atrás para homens hebreus dessa mesma época. Não digo que o mandamento deveria citar carros ou aparelhos eletrônicos, mas penso que seria muito mais interessante se ele fosse mais amplo.
É quase um passatempo ateu criticar o decálogo. Esperava-se muito mais de uma suposta ordem expressa provinda do próprio YHVH escrita em pedra. Dá para dizer tranquilamente que a nossa moral é muito mais ampla e sofisticada do que estes versículos. E então vem aquela famosa questão da família causa/efeito. A nossa moral assim o é por causa dos mandamentos ou os mandamentos são desta maneira porque temos a nossa moral? Eu não acho que seja uma questão muito difícil. Toda a vez que eu vejo esse trecho do AT eu vejo os limites culturais explícitos, vejo a obra de homens fervorosos, não de uma entidade detentora de toda a benevolência possível.
Podemos analisar cada mandamento sob a pergunta fundamental: “E se fosse comigo?”. É uma pergunta que não se aplica aos primeiros mandamentos, pois estes seriam um compromisso entre homem e deus. Mas faça a si mesmo os seguintes questionamentos:
“Gostaria que meus filhos me desonrassem?”
“Gostaria que me matassem, ou matassem alguém que eu amo?”
“Seria agradável ver a sua esposa deitando com outro homem ou, para mulheres, o seu marido deitando com outra mulher?”
“É legal tirarem o que você conseguiu com o seu esforço?”
“Gosta que mintam para ti?”
“Confiaria em alguém que cobiça as suas coisas, inclusive o seu jumento?”
É a partir de perguntas como essas que julgamos o valor dos mandamentos. É com perguntas dessa natureza que colaboramos para uma relação mais agradável com nossos vizinhos. O que essas perguntas têm em comum é que elas se referem ao que nos afeta. Por trás destas perguntas se esconde um caráter egoísta. Paradoxalmente, é do egoísmo que nasce o respeito ao próximo. Esse assunto eu deixarei para a próximo, longe da pequeneza dos dez mandamentos.
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