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Quando revelamos sermos ateus para alguém de fé, é comum que questionem com expressões de indignação: “como assim, você não acredita em nada?!”. De fato, me falta a fé no sobrenatural e no inexplicável, e para a maioria de nós, é preferível a dúvida do que uma certeza fabricada e sem fundamento. Mas será mesmo que podemos dizer que não acreditamos em nada?

Para isso, me permiti pegar de empréstimo o título outrora utilizado por Bertrand Russell, que sabiamente dizia:

“Eu acredito que quando morrer, irei apodrecer e nada do meu ego sobreviverá. Mas me recuso a tremer de terror diante da minha aniquilação. A felicidade não é menos felicidade porque deve chegar a um fim, nem o pensamento e o amor perdem seu valor porque não são eternos. (…) Se não temessemos a morte, creio que a ideia de imortalidade jamais houvesse surgido. O medo é a base do dogma religioso, assim como de muitas outras coisas na vida humana.”¹

A existência, por si só, traz consigo uma carga de improbabilidade que a torna quase sagrada, sem que seja preciso criarmos fantasias acerca de seres sobrenaturais e universos fantástico post mortem. Como questionava Douglas Adams, “não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?”

Entretanto, a ausência de crença em deus não nos torna diferentes enquanto espécie humana. Nossos erros e acertos são similares. É bem verdade que temos uma postura diferente quanto à busca pelo conhecimento, em contraste com a entrega devota a respostas incoerentes, mas via de regra só se reconhece um ateu quando este expõe a sua descrença. Respiramos, comemos, amamos, desejamos… tudo na mesma intensidade.

Acredita-se que o ateu está condenado à punição de deus (seja ele qual for), por não acreditar. Me parece ser característica elementar dos deuses o egocentrismo ranzinza. Pouco importa se você foi um bom sujeito. Não acredita em deus? Está condenado!

Recentemente meu Estado, Pernambuco, foi atingido por uma terrível enchente que destruiu boa parte dos municípios interioranos. O Brasil inteiro se envolveu em uma bonita campanha para arrecadar doações para as vítimas. Os moradores do meu prédio também ajudaram a arrecadar tais mantimentos, e para sensibilizar ainda mais os seus vizinhos, criaram o slogan “aquele que oferece de bom coração, recebe em dobro de Deus”.

É ai que eu acho que reside a maior diferença entre ateus e religiosos. É preciso que seja ofertada uma recompensa divina para convencer uns aos outros a ajudar seus irmãos necessitados? É nisso que eu acredito. Acredito na ética como forma de estabelecer equilíbrio na sociedade; acredito que um ajudando o outro, estabelece-se uma harmonia e, quando você precisar, saberá que terá com quem contar.

Por fim, terminarei este meu texto com uma citação. Não de um grande filósofo ou cientista, mas de poetas e músicos canadenses da banda Rush, que resumem o meu pensamento:

Eu não tenho fé na fé
Eu não acredito na crença
Você pode me chamar de infiel.
Mas ainda me agarro à esperança
E acredito no amor
Isso é fé suficiente para mim.²

1. RUSSELL, Bertrand. No que acredito. LP&M. São Paulo, 2008.

2. I don’t have faith in faith/I don’t believe in belief/You can call me faithless/I still cling to hope/And I believe in love/And that’s faith enough for me.


Em geral, pensamos na religião como a verdadeira guardiã da moralidade humana, sem a qual a sociedade se desintegraria. Acredita-se que, sem Deus, tudo é permitido. Por que pensamos dessa forma? Porque é mais fácil decorar chavões que pensar no assunto. Assim, tentemos entender por que a religião, em termos morais, é algo virtualmente inútil, possuindo, na prática, apenas um valor marginal. De início, percebamos que os valores morais defendidos por esta ou aquela religião fazem sentido. O fato, entretanto, é que, ao levá-los adiante, nunca conseguimos alcançar os resultados que prometem. Por quê? Porque partem de pressupostos falsos. Por idealizar o homem, os princípios morais que a religião elabora são algo impossível de ser posto em prática, pois dizem respeito a algo que não existe. Não há como esperar que valores feitos para espíritos funcionem para primatas. O que sinceramente poderíamos esperar da moralidade um macaco que se acredita dotado de uma alma eterna a ser julgada por um superchimpanzé imortal que mora na estratosfera?

Ademais, na elaboração de tais princípios de sublime irrelevância, ela não apenas erra o alvo sistematicamente, como também nunca demonstra uma abordagem positiva. A religião não busca solucionar os problemas, mas evitar que surjam por meio da negação de nossa natureza. Busca nos acovardar perante o mundo e perante nós mesmos, desviando nossos olhares do presente e encorajando uma miopia passiva que nos será recompensada no além. Para ilustrar, vejamos a questão do seguinte modo: a função da moral é administrar os problemas sociais decorrentes do fato de sermos humanos. Qual é a solução religiosa? Desumanizar o ser humano, isto é, negá-lo, castrá-lo, torná-lo doente, i.e. espiritualizá-lo. Seu valor, portanto, é meramente negativo. Seus princípios não são respeitados por seres úteis ou racionais, mas por terem respaldo do criador dos céus e da terra, proporcionando algum sentimento de segurança àqueles que os seguem. Essa é a única utilidade da religião no âmbito moral. Trata-se de uma contribuição indireta, de um pretexto para agirmos moralmente, ainda assim, não como homens, mas como serviçais de fantasmas.

Analisemos um pouco mais a questão. Sabemos que uma parcela considerável da população mundial é religiosa e acredita em divindades moralistas. Não parece estranho, entretanto, que vejamos como extremistas os que efetivamente seguem os princípios de sua religião? Na prática, os que governam suas vidas em função de tais princípios são considerados fanáticos alienados, doentes mentais. Porém, se a religião fosse algo realmente verdadeiro, não é exatamente isso o que deveríamos fazer? Mas não fazemos. Religiosos ou não, somos humanos, e nossa intuição prática nos diz que há algo de muito errado nos valores morais religiosos. Muito poucos, na vida real, levam tais princípios a sério. Como isso se explica? Vejamos: por que julgamos inadmissível que se coloque Deus acima da lei? Exatamente porque não tratamos Deus como algo real — não ao pé da letra —, e sim como algo que se escolhe, semelhante a um time de futebol ou a um partido político, ou seja, como um assunto pessoal e privado. Então, no fim das contas, tratamos Deus como aquilo que é: uma crença. Pois bem, isso significa que, em regra, não se acredita literalmente em Deus, acredita-se na crença em Deus. Afirmam acreditar em Deus, mas agem como se ele não existisse. Usemos o mito da criação para exemplificá-lo. Alguém realmente acredita que o mundo foi criado em seis dias? Sabemos que se trata de uma mentira óbvia; não apenas algo improvável, mas absolutamente ridículo, tanto que nem mesmo os fiéis da inerrância bíblica conseguem acreditar nisso literalmente, vendo-se forçados a elaborar sofisticadas interpretações simbólicas para justificar essa paspalhice que algum lunático tirou da cartola. Então por que respeitamos tais crenças? Por questão de boas maneiras. Pelo mesmo motivo que não dizemos às pessoas obesas que são obesas, aos paraplégicos que são paraplégicos, e assim por diante. Sabemos da verdade, mas não a dizemos simplesmente para não magoá-las, para não ferir seus sentimentos, pois viver já é duro o bastante, e não precisamos jogar à cara dos indivíduos suas limitações, defeitos e inépcias simplesmente porque isso é verdade. Não julgamos que estar certo é uma justificativa boa o suficiente para ser rude e grosseiro.

Como qualquer dependente, aquele que precisa de crenças religiosas estapafúrdias para conseguir ser moral provavelmente tem problemas em lidar com a realidade. Não zombamos de suas crenças não porque elas nos inspirem qualquer respeito, mas simplesmente para poupá-los, para não tornar sua vida ainda mais difícil. Basta que imaginemos como seria nossa vida se dependêssemos de mentiras para viver em paz, se tivéssemos de defendê-las como se fossem verdades, mesmo sabendo perfeitamente bem que são mentiras, e isso nos dará uma ideia de como acreditar em besteiras deve ser difícil. Por exemplo, caso precisássemos acreditar que no céu vive um holograma suicida três-em-um; caso precisássemos acreditar que nossos entes queridos são vertebrados imortais. Como continuar a acreditar quando a realidade toda demonstra que estamos completamente errados? Nossa única alternativa viável seria não pensar muito no assunto — e é exatamente o que se faz. Isso porque, para qualquer indivíduo educado, deve ser extremamente perturbador ter de acreditar nessas asneiras. Então supomos que, se acredita em algo tão desvairado, deve ter bons motivos para isso — e como esses motivos são invariavelmente vergonhosos, temos a boa educação de deixá-los em paz com suas demências. O fato é que ninguém precisa de Deus porque ele não existe, mas da crença em Deus muitos precisam, e esse é o único motivo pelo qual respeitamos tais crenças. Claro que, pessoalmente, não temos dúvida alguma de que se trata de uma idiotice sem tamanho.

Segundo a etimologia da palavra, respectus, em latim, quer dizer “consideração”, “atenção”[1]. É a origem de nossa palavra em português para “respeito”. Antes de dar uma definição do verbete, acho necessário dizer o que não é respeito.

Em primeiro lugar, quem ou o quê deve ser respeitado? Juridicamente[2], as pessoas têm liberdade constitucional à manifestação do pensamento (Constituição Federal, art. 5º, IV), à inviolabilidade de consciência e de crença (CF, art. 5º, VI) e à livre expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença (CF, art. 5º, IX). É uma pequena amostra do extenso rol de direitos e garantias fundamentais elencados em nossa Carta Magna.

No caput do famigerado artigo 5º, é possível perceber que todos esses direitos são destinados aos indivíduos. Eles têm plena capacidade de exercê-los até onde a lei os restringe, como com a vedação ao anonimato do inciso IV e o direito de resposta, redação do inciso V. Em poucas palavras, os indivíduos têm todo o respeito estatal às suas convicções, mas toda e qualquer palavra ou opinião que seja externada é passível de crítica e sanções, caso haja abuso.

Mas o que isso realmente nos diz? Diz-nos que eu, enquanto indivíduo destinatário de direitos e garantias fundamentais, posso muito bem pensar que sou Napoleão Bonaparte. Diz-nos também que, caso eu externe esse pensamento e seja uma ameaça à vida e à ordem social, posso sofrer intervenção psiquiátrica. Grosso modo, equivale a dizer que eu sou respeitado; minhas ideias absurdas não. Elas precisam de respaldo e autossustentação para que sejam consideradas.

Analisemos, então, o que quer dizer um cristão, por exemplo, respeitar algum membro de outra religião ou de nenhuma: “respeito solenemente a sua vontade de passar a eternidade no inferno por não professar a religião verdadeira que garante uma passagem direta para o céu”. Agora vejamos como um ateu respeita um religioso: “respeito carinhosamente a sua infantilidade religiosa que tanto me faz rir, com todas as suas atitudes ridículas e suas bajulações a um ser imaginário com quem todos dizem se comunicar e de quem todos dizem obter respostas, em casos que poderiam muito bem ser clínicos, caso não fossem culturais”. Tudo isso dito com um sorriso amarelo de quem não sabe ao certo o que realmente quer dizer “respeito”.

O verdadeiro respeito pode e deve passar pela integridade intelectual. Pensemos: o que é uma reunião ecumênica? O fato de líderes religiosos de diferentes crenças se reunirem só demonstra a praticidade política de sua representatividade. A mensagem passada é a de que não queremos que nossos fieis se degladiem entre si, pois um banho de sangue é desnecessário, vez por outra. No entanto, em suas ideologias dissonantes e contraditórias, todos buscam abocanhar o maior número de pessoas para sua causa — que, diga-se de passagem, é a única certa e verdadeira. A imagem mais nítida de uma reunião assim é a de pessoas que, com uma mão, dão efusivas saudações e juram fidelidade e fraternidade, mas que seguram uma arma carregada e pronta para atirar, na mão que ficou escondida atrás de seu corpo.

As pessoas merecem, sim, todo o respeito que podemos conceder; e criticar suas ideias, por mais que o equívoco geral diga o contrário, é a forma mais honesta e sincera que temos para tal.

Notas:

[1] Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 3.0

[2] Constituição Federal. Disponível em <http://www.planalto….tui%C3%A7ao.htm> Acesso em 06 de março de 2010.

Pensemos no caso dos direitos dos ateus. O que ateus podem exigir da sociedade? O direito de ser irrelevantes. Parece estranho, então exemplifiquemos. Um ateu pode apenas exigir que, digamos, ao ir a uma frutaria, tenha o direito de escolher o suco que bem entender, bebê-lo, pagá-lo, receber o troco, colocá-lo no bolso e partir sem ser questionado sobre os porquês de sua descrença na origem divina do universo. Sendo razoáveis, isso é tudo o que podemos esperar. Não queremos, enquanto ateus, receber descontos na compra de laranjadas, ou que se cobre mais de religiosos. Queremos simplesmente ser vistos como cidadãos comuns, que a sociedade tenha tolerância quanto ao ateísmo, de modo que o fato de sermos ateus seja tão irrelevante quanto o fato de outrem ser religioso.

No mais, se nossa descrença diz respeito à religião, só faz sentido que sejamos tratados diferentemente no que diz respeito à religiosidade. É perfeitamente lógico que não possamos, por exemplo, nos casar em igrejas ou participar de grupos de oração. Sendo ateus, aceitamos tais implicações com a maior boa vontade, pois simplesmente fazem sentido. Em tais questões não haveria sentido em exigir igualdade. Pelo contrário, seria absurdo esperar que ateus, no tocante à fé, fossem tratados como religiosos, assim como seria absurdo esperar que indivíduos feiosos fossem tratados como belos no tocante à beleza. Ateus devem ser tratados como ateus; religiosos como religiosos; feiosos como feiosos; belos como belos. Mas tudo em seu devido contexto. Nessa situação, o preconceito surgirá apenas se permitirmos que as coisas se misturem. Por exemplo, se acreditarmos que, pelo fato de um indivíduo ser ateu, também é feio. Apenas isso seria um preconceito, isto é, uma generalização indevida.

Não temos fé, e não damos a mínima se a Igreja considera o ateísmo errôneo para com os profetas. Porém, enquanto ateus, não queremos ser julgados pelo que não tem relação alguma com religiosidade. Não queremos ser forçados a mentir sobre nossas opiniões em entrevistas de emprego, durante conversas, e assim por diante. Esperamos que um indivíduo, ao declarar-se ateu, não cause espanto algum, que os demais não reajam com perplexidade, dizendo: pelos céus, ele é ateu! Ao dizer que somos ateus, esperamos que os demais recebam tal afirmação com naturalidade, sem espanto, assim como ninguém se espanta ao ouvir que certo indivíduo é católico, evangélico ou espírita. É apenas nesse sentido que entendemos a igualdade, e exigir mais que isso seria injusto para com os demais. Para percebê-lo, basta pensar do seguinte modo: para os ateus, a vida não tem sentido. Isso é problema de quem? Problema dos ateus. Se somos ateus, problema nosso, e não importa se tal fato nos entristece ou desmotiva. Isso não é culpa dos religiosos.

Agora, para ilustrar tal situação perante a sociedade, suponhamos que a consciência da ausência de sentido nos cause depressão. Isso nos dará o direito de exigir que recebamos medicação gratuita para tratá-la? Teremos o direito de exigir que a sociedade custeie a manutenção de uma instituição voltada exclusivamente aos ateus com o nobre fim de amenizar os dissabores de uma existência sem sentido? Poderemos exigir que ateus devam cumprir jornadas de trabalho mais curtas por viverem angustiados? Será justo processar um padre que se recuse a casar, perante os olhos de Deus, um casal de ateus? Podemos ser ateus, mas é ridículo exigir compensações da sociedade pelo fato de a existência não ter sentido e isso nos entristecer, e o mesmo se aplica aos demais: não podem exigir compensação da sociedade por um problema que só diz respeito a eles próprios.