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Ridendo castigat mores. A máxima latina, que significa “rindo castigam-se os costumes”, foi adotada por, dentre outros, Jean-Baptiste Poquelin (vulgo Molière) e Gil Vicente, dramaturgos que faziam de suas peças ocasiões para evidenciar à plateia traços caricatos e criticáveis da sociedade. Seguindo com esse adágio — mas com uma pequena mudança para Ridendo castigat fidem, ou “rindo castiga-se a fé” —, esbocemos alguns comentários um tanto quanto (im)pertinentes. Afinal, se o que as religiões nos divulgam é geralmente um conjunto de ideias estapafúrdias e risíveis, é justo que também tenhamos a chance de fazer o mesmo. Não que tenhamos a mesma fértil imaginação daqueles que pregam palavras supostamente sacras, imbuídas de ideias genuinamente caricatas; não, não temos imaginação suficiente. Mas ao menos temos a sinceridade a nosso lado, e uma boa dose de sarcasmo.

Seja como for, reza a lenda que somos uma espécie sapiens, excessivamente sapiens. Aparentemente. Uma espécie que cobiça desvendar a verdade, seja lá o que a palavra signifique de fato; uma espécie que se diz especial porque talvez ainda não tenha descoberto a importância soberana dos micróbios — tão ou mais relevantes ao mundo do que nós — como a bactéria Propionibacter shermani, douta na arte da produção do queijo suíço (que, aqui, é uma bela metáfora para qualquer dogma religioso: saboroso, mas cheio de furos). Talvez o pior veneno ao homem seja a sua própria ideia de que seja o auge da cadeia evolutiva; embora tenha alguma razão, o pedantismo que disso advém o degenera.

E em sua busca incessante por verdades, por respostas, por serenidade, diante de um espelho deformado esgota-se em desculpas e pretextos os mais aberrantes. Os olhos da razão, se enxergassem, certamente notariam algo próximo dO Grito de Edvard Munch. Enoja, nesse sentido, as tentativas (ou tentações?) de decifrar o homem, o mundo, o cosmos a partir de nossas próprias fantasias; fazendo coro a Henry Miller, podemos dizer que “talvez não se descubra o segredo do universo num cu, mas seria muito mais interessante que o estudo de seu próprio umbigo”[1]. É a razão, pois, a grande culpada por eventualmente ir ao toalete; em sua ausência, quão humanos podemos ser… Ah!, a razão, esta que Martin Luther (o teólogo, não o King) chamava carinhosamente de Fraw Klüglin die kluge Rur — ou, em bom português, “dona sabida, a sábia puta”[2].

Fato é que enquanto trouxermos, dentro do crânio, o circo (de horrores?) que é nosso cérebro, nada haverá para fazer que não seja assistir ao espetáculo. O que é urgente, no caso, não é sabermos se há vida inteligente em outros cantos do universo; necessário é descobrir, primeiramente, se há vida inteligente aqui, nesta caricatura de astro. Depois, ora pois, partamos para outras questões também relevantes. Por exemplo, a de saber se há ou não há deus, ou deuses, ou deusas; a propósito, visto que existem n divindades no mundo, sejam elas “vivas”, extintas ou em vias de, é de se presumir que os crentes praticam em demasia o método da tentativa e erro. Um dia, quem sabe, acertam. Um dia… Pois agora o que se observa são mentes paradas que, por raramente terem ideias plausíveis, se fossem computadores estariam com o cérebro no screen-saver; se fossem televisores, no stand-by.

O interessante, nisso, é ainda hoje encontrarmos homens já formados, mulheres já maduras, pessoas que, já crescidas, ainda acreditam na salvação; e ainda troçam das crianças que esperam, em dezembro, a visita do bom velhinho. O que se torna difícil de compreender é que tais pessoas, quando crescem, abrem mão de Noel, mas não de Deus. Poderíamos imaginar que o espírito natalino seria como o sarampo ou a catapora: se já se teve quando criança, não se volta a contrair; e, no melhor dos casos, poderíamos idealizar que o mesmo ocorresse com a ideia de Deus. Mas, como se nota, esta não é uma simples catapora; é, antes, um vírus semelhante ao da gripe, que sofre mutações para se adaptar às circunstâncias.

Mas deus — ou Deus, como preferir —, sentimos muito por informar, não existe. E há uma boa prova para isso: se Ele existisse, se existisse e se fosse realmente bom e piedoso, haveria arquitetado um mundo com ar condicionado. E nós, assim como Nietzsche, só acreditaríamos em um deus que soubesse dançar — de preferência um tango argentino. É-nos impraticável, considerados esses critérios, acreditar na existência de deus; em qualquer um dos milhares que já passaram pela mente humana. Ainda que a Teologia — essa espécie de coitus interruptus pela qual (ou com o qual) nunca se chega verdadeiramente a uma verdade — venha tentando há séculos explicar a validade de sua hipótese (que só existe enquanto mentira), não podemos digerir o eixo-badeixo que é tal conceito. Não vivemos em Cucolândia das Nuvens; de lá, na verdade, emigramos. Talvez seja por isso que nossos critérios para chegar à verdade — ou a algo próximo disso — sejam bastante diferentes do critério empregado pela religião (algo como “par ou ímpar” ou congênere). Afinal, não é porque somos pessoas normais, naturais, humanas, comuns, que devemos ser lugares-comuns.

Desse modo, a nós as ingênuas fantasias semianalfabetas perdem seu efeito quando notamos que possuímos miolo — que de fato é mole, mas não o é conotativamente. Nossa postura é outra, não aquela seguida por muitos — que consiste no ato de segurar, com uma mão, um grosso e pesado livro que não entendem (ainda que tenham passado a vida inteira a estudá-lo), e com a outra a segurar outro livro, um de páginas em branco que é, afinal, sua cabeça. Não, definitivamente não somos de tal espécie — ainda que sejamos, como eles supostamente o são, sapiens. Não somos daqueles que dão graças quando recebem uma bênção, mas ignoram seu deus quando não carecem de auxílio. É por esse motivo em particular, e por outros mais, que a ideia de deus acaba por se assemelhar ao papel higiênico: só nos lembramos de sua existência quando dele, em desespero, precisamos.

Mas paremos por aqui, pois muito já se escreveu a troco de nada. E se as carolas e os beatos nos condenarem por termos, nestas linhas, trazido alguns sorridentes gracejos, seria interessante que pensassem melhor (perdoe-se a contradição) — pois, ora, caros religiosos, foram vocês que começaram…

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Notas

  1. MILLER, Henry. Opus pistorum. New York: Grove Press, 1941.
  2. LUTHER, Martin. Apud NIETZSCHE, Friedrich. Zur Genealogie der Moral; eine Streitschrift. Frankfurt: Inseln Verlag, 1984.