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Se uma coisa é prática não significa necessariamente que seja verdadeira. Teria muito trabalho com argumentações elegantes alguém que discordasse desse aforismo. Principalmente porque teria de recorrer a inúmeros silogismos para comprovar que mentiras não são práticas. Não precisamos ir muito longe para encontrar situações em que são a maneira mais conveniente de se comportar.

No entanto, vemos, a todo e qualquer momento, pessoas alegando veracidade em suas opiniões dada a praticidade que elas acarretam. Devemos nos lembrar que não temos em nós uma espécie de imperativo para a verdade, no sentido de sinceridade e honestidade. Pelo contrário, em todos os casos em que dizer algo que corresponde ao nosso pensamento é prejudicial, teremos sérias consequências físicas por estarmos traindo a nossa índole cretina naturalista.

Assim, não adianta dizer que algo é mais ou menos verdadeiro pelo conforto que nos dá. Até porque, em quase todos os casos, o que nos dá conforto é aquilo que aprendemos que nos dá conforto. Em suma, as nossas formas mais comuns de apaziguamento mental são exatamente aquelas que nos ensinaram desde sempre. Talvez por limitação de remédios, ou ainda por realmente funcionarem, estatisticamente.

Só que não queremos acreditar por acreditar. Sabemos, bem no fundo, que a fé cega é tão fraca quanto fazem parecer os mais céticos. Queremos justificar nossas ações; não parecer um bando de idiotas arrebanhados em uma brincadeira de fazer o que um mestre manda. Eis todo o arcabouço basilar do nosso autoengano: a vontade de que algo seja verdadeiro e a falsa noção de causalidade.

A vontade faz com que partamos da conclusão para a sua justificação e a falsa noção de causalidade nos dá certezas superficiais, mas fortes o bastante para satisfazer o nosso intento: sentirmos conforto em continuar fazendo o que fazemos.

Aos pirrônicos, cabe a máxima de que, em última análise, nenhuma relação causal pode, em campo aberto, ser conclusivamente provada ou refutada. Esquecem-se de adicionar que uma relação observada diversas vezes consecutivas e independentes goza de uma presunção maior do que aquela que só aconteceu uma vez, mais passível de explicação por coincidência ou relação de temporalidade.

Esquecem-se principalmente quando adotam “verdades” do segundo tipo e detonam as do primeiro. Mas não atirai pedras pois fazeis o mesmo. Qual, então, a saída para uma espécie cujo conforto depende, necessariamente, de algumas – ou várias – mentiras, ficções ou ilusões? Aparentemente, nenhuma.

Não há nenhuma sanção externa a comportamentos hipócritas. Se a sociedade decide puni-los é para que a hipocrisia se mantenha em um nível controlado. Se, por outro lado, a sanção for moral, cabe ao dono da consciência pesada buscar meios para que seu senso de verdade e justiça corresponda a suas ações e sua busca por conhecimento. Em outras palavras, que a relação entre praticidade e correspondência real seja a maior possível.