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Eles são pessoas que prometem uma vida melhor, bem-estar, curas milagrosas e facilidade; a única coisa que querem em troca é um pouco do seu patrimônio. Não estou falando de pastores nem de outros líderes espirituais. Falo de pessoas ainda mais desprezíveis, que sem nenhum escrúpulo se aproveitam da ignorância da população para vender tratamentos e curas fantásticas que muitas vezes trazem ainda mais risco à saúde de suas vítimas.

Os charlatões da saúde assumem várias faces para tirar dinheiro de um público despreparado para duvidar.

Sempre me vem à mente aquele livro Medicina Alternativa de A a Z. Seus vendedores apareciam em vários canais da TV oferecendo tratamentos simples e baratos para todos os tipos de doenças. Para se ter uma ideia da irresponsabilidade, eles recomendavam o uso de uma mistura de mel de abelhas, suco de alho e sopa de cebola para o tratamento de broncopneumonia, uma doença que, se não tratada rapidamente, pode levar à morte.

Conforme revelado pela revista Veja, o autor do livro, o Dr. Carlos Nascimento Spethmann sequer existe. O livro, na verdade, foi escrito por dois homens sem a menor qualificação profissional para tal e, pior, ligados à Igreja Adventista do Sétimo Dia. Até 2005, faturaram 40 milhões de reais.

Outro caso que vale ser citado é o da homeopatia, que em seus mais de 200 anos de existência ainda é incapaz de produzir evidências da sua capacidade de curar. Além dos pacientes, os próprios homeopatas acreditam na capacidade de cura. Gloria Sam nasceu com eczema, uma doença simples e facilmente tratável. Só havia um problema: seu pai era um homeopata praticante que insistiu, até a morte de Gloria, em utilizar homeopatia para curá-la.

Ainda mais revoltante é a campanha lançada pela Igreja da Cientologia, através de sua afiliada CCHR (Comissão dos Cidadãos para Direitos Humanos em inglês) para desacreditar o tratamento psiquiátrico. Aproveitam-se da ignorância do público e tentam, com informações imprecisas e edições grosseiras de vídeo, convencer o paciente de que a psiquiatria é charlatanismo. O interesse da Igreja nisso é promover o tratamento com o seu e-meter, cobrando taxas que podem chegar a U$ 8.000. O e-meter não passa de um instrumento que mede a resistência elétrica do corpo, já tendo sido proibido o seu uso para a prática médica nos EUA e Europa.

Outra prática que se tornou comum ultimamente é a Medicina Ortomolecular, que promete a cura de diversas enfermidades pela simples reeducação alimentar. Segundo eles, é possível recuperar o “equilíbrio” do corpo consumindo o alimento certo. Nesta reportagem do Fantástico, a repórter vai a vários consultórios contando a mesma história. Ela faz um exame que, além de proibido, não tem qualquer valor científico. Em cada um dos consultórios ela recebeu um diferente diagnóstico, incluindo um de “problemas espirituais”. O preço do tratamento chegava a R$ 4,1 mil.

A morte é certa para todos. O melhor que pode ser feito em relação a isso é tentar postergá-la ao máximo. Aliada à falta de informação, a disposição das pessoas em gastar dinheiro com sua saúde gera um terreno fértil para os charlatões da saúde apresentarem seus métodos fáceis, rápidos e “garantidos”.

Curandeirismo e charlatanismo são considerados crimes para os quais prevêem-se de 3 meses a 2 anos de prisão. Mas num país onde só vão presos aqueles que não podem pagar por um advogado, os charlatões nada precisam temer.  Afinal, dinheiro não lhes falta.

Um dos aspectos mais polêmicos, e não por coincidência também um dos mais fascinantes, da saúde pública é a área de economia da saúde, que define de que modo os recursos disponíveis para a saúde serão aplicados.

A vida é um bem finito, ou seja, não importa quanto recurso investiremos nela, ainda assim, iremos morrer. Sempre ouvimos dizer que a vida não tem preço, mas é interessante observar que todos nós, vez por outra, colocamos um valor para as nossas vidas. Um exemplo bastante evidente disso é o adicional de risco que muitos profissionais recebem por sujeitar-se a trabalhos arriscados. Digamos que um eletricista aceite trabalhar em fios de alta tensão e, pelo risco, aceita um adicional de R$ 200 mensais. Ao avaliarmos as taxas mensais de acidentes fatais nesta profissão descobrimos que ocorrem em 1 para cada 1000 trabalhadores (exemplo fictício). Neste caso, o trabalhador coloca a sua vida em um risco de 0,1% por R$ 200, o que seria equivalente a assumir que a sua própria vida vale algo em torno de R$ 200.000.

Quando falamos de políticas públicas de saúde, a ideia de valoração da vida ganha contornos um pouco mais complexos e diretos. O orçamento destinado à manutenção da saúde das pessoas é limitado; por este motivo, os administradores de saúde precisam fazer escolhas que, grosso modo, definem aqueles que vão viver e aqueles que não vão.

Imaginemo-nos como ministros da saúde de um pequeno país com apenas R$ 100 para gastos com saúde. Em nosso país existem dois pacientes com câncer terminal cujo tratamento custaria R$ 45 cada. Além destes, temos um orfanato com 25 crianças com diarreia cujo tratamento custaria R$ 2 cada. Neste caso, a maneira mais inteligente de dispor nossos recursos seria tratar as crianças e um dos pacientes com câncer, não havendo alternativa além de deixar um deles morrer.

Os sistemas de saúde funcionam mais ou menos desta maneira, porém de maneira bastante mais complexa. Não existem médicos, leitos e medicamentos em quantidade suficiente para atender a todos os pacientes. Assim, a vida deles fica sujeita às decisões dos  médicos e enfermeiros. Da mesma forma, em nível nacional, definem-se quais campanhas serão ou não financiadas; assim, de maneira indireta são escolhidos quais doentes receberão maior ou menor atenção.

Seria desastroso um administrador, que com recursos limitados, decidisse não poupá-los para salvar a vida de seus doentes. O custo de tratar alguns poucos seria suficiente para tratar milhões com doenças simples, porém fatais.

Vale a leitura deste artigo, do Ministério da Saúde, no qual é citado o caso da Hepatite C, que é prevalente em 1% na população, ou seja, 1,9 milhões de pessoas no Brasil possuem essa doença. Caso fosse decidido tratar 25% destas pessoas com o tratamento mais eficaz, o Interferon Peguilado, custando R$ 52 mil por pessoa, seriam gastos 64% do total do orçamento do Ministério da Saúde. Não sendo possível tratá-los, o Ministério da Saúde os ignora.

Com todas estas circunstâncias, observamos que a vida real no mundo da assistência à saúde é bastante dura. Mesmo com todos os recursos as pessoas vão continuar morrendo; não há saídas.

Diante deste cenário desolador, surge um dos campos mais férteis e lucrativos para novas ideias. Com tratamentos revolucionários e incrivelmente abrangentes, os Charlatões da Saúde conseguiram, aproveitando-se da credulidade e ignorância da população, formar impérios milionários. Mais sobre eles em meu próximo artigo.