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A vida é um fenômeno interessantíssimo que, embora nossa intuição diga o contrário, teve um início e nunca mais parou. O que entendemos como vida em sentido estrito é aquele tempo de duração medido entre o nascimento e a morte de um indivíduo. No entanto, para que este indivíduo tenha nascido, tomando a nós mesmos como exemplo, foi necessário que um espermatozoide e um óvulo, ambos vivos, fossem unidos.

Para a panspermia [1], a vida na Terra é o resultado das sementes pré-bióticas que se encontram por todo o universo. Essas sementes teriam chegado ao nosso planeta através de metereoritos, enxergados como cegonhas cósmicas que levam os aminoácidos fundamentais a todos os cantos do vasto espaço sideral. É relativamente fácil encontrar metereoritos carbonáceos que possuam uma diversidade de compostos orgânicos maior do que a encontrada na Terra [2].

É uma hipótese intrigante, por mais que haja poucas evidências diretas para comprová-la ou refutá-la. A sua principal concorrente e paradigma mais aceito nas teorias de gênesis da vida é aquela que explica o seu surgimento a partir de reações químicas de elementos que existiam em abundância na Terra primitiva. Harold Urey e Stanley Miller [3], ainda nos anos de 1950, conseguiram sintetizar aminoácidos e outros compostos essenciais para a nossa existência a partir de compostos simples. É a face moderna da teoria da abiogênese, quebrando aquela sequência em direção ao passado na busca do ponto em que o não-vivo tornou-se vivo [4].

O ponto crucial que nos trouxe até este exato momento foi o aparecimento da primeira molécula autorreplicante. Essa capacidade comum a todos os seres-vivos é a base de toda a biodiversidade observável na natureza. Muito provavelmente, o RNA [5] primitivo é o ancestral de todas as formas atuais de codificação/decodificação de proteínas. Não só ele continua presente no DNA [6], molécula muito mais elaborada, como exerce funções fundamentais e específicas, dependendo do seu tipo, no processamento e na síntese de proteínas.

Iniciada a vida, há cerca de 3,5 bilhões de anos atrás [7], restaria agora explicar como ela se desenvolveu. O mecanismo de seleção artificial sempre foi um dos meios mais eficientes que o homem encontrou de manipular o meio-ambiente. Foi assim que conseguimos domesticar os cães, variantes dos lobos selvagens, criando a imensa variedade de raças, desde os graciosos poodle até os ferozes pitbull. Com base no mesmo princípio, cultivamos vegetais de acordo com nossas necessidades, escolhendo as sementes mais férteis de árvores que dão os melhores frutos.

Darwin [8] e Wallace [9], independentemente, chegaram à conclusão de que a natureza poderia agir de forma semelhante, selecionando os indivíduos mais aptos para uma determinada situação ambiental. Mesmo sem a função de um agente consciente, seria possível que indivíduos se adaptassem ao seu meio e, mais impressionante do que isso, que diferentes indivíduos, separados geograficamente, pudessem, ao longo de várias gerações, diferir de forma tão radical a ponto de se transformarem em espécies distintas.

É interessante notar que ambas as seleções – natural ou artificial – não têm um objetivo teleológico a longo prazo. A seleção artificial nos serve para a geração imediata e continuará nos servindo para as gerações futuras, mas isso não quer dizer que a geração atual só existe como meio para elas. De forma análoga, podemos fazer um exercício mental: uma mutação que seria benéfica para um futuro distante dificilmente passará no crivo imediatista da seleção natural, pois não apresenta vantagens para o momento em que a sobrevivência as exige.

Com base em análises tanto morfológicas quanto químicas e genéticas, é possível vasculhar o presente e o passado, relacionando todas as espécies das quais temos notícia com seus parentes e antepassados. A síntese desses dados pode ser expressa de forma gráfica em árvores filogenéticas [10], ou em sua forma mais ampla, conhecida popularmente como árvore da vida.

Referências:

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Panspermia

[2] http://en.wikipedia.org/wiki/Murchison_meteorite

[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Experiência_de_Urey-Miller

[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Abiogênese

[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/ARN

[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/ácido_desoxirribonucleico

[7] http://pt.wikipedia.org/wiki/Evolução_da_vida_e_formação_da_Terra

[8] http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin

[9] http://pt.wikipedia.org/wiki/Alfred_Russel_Wallace

[10] http://pt.wikipedia.org/wiki/árvore_filogenética

Da insatisfação I: Como surgiu o universo?