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A visão mais comum que se tem dos ateus é a de indivíduos carentes de espiritualidade; ou seja, como se fossem indivíduos aos quais falta uma espécie de sensibilidade que diz respeito exclusivamente à esfera religiosa. Mas o que é exatamente esse sentimento? E por que não tê-lo deixa os demais tão desconfiados? Ao que parece, pela simples razão de que tendemos a excluir os que são diferentes. Não é uma explicação que enaltece os ateus, mas parece ser bastante simples, óbvia e observável, satisfazendo ao menos o critério da Navalha de Occam.

Traçando um paralelo, imaginemos um indivíduo que não possui amigos. Além disso, suponha-se, para todos os fins, que somos seres sociáveis. Qual costuma ser nossa reação diante de um eremita confesso? Geralmente algo que não está muito distante da que um religioso teria diante de um ateu. Mas pensemos por ora no caso do eremita. Mesmo que — talvez inspirados por boas maneiras antropológicas — relutemos em confessá-lo, temos a clara impressão de que, pelo fato de o indivíduo não possuir um círculo social, sua vida paira oca sobre o abismo do absolutamente nada.

Na tentativa prematura de construir uma imagem de sua vida sem possuir qualquer dado a respeito, partiremos de vários preconceitos sem sentido, como, por exemplo, o de que ele é infeliz — mesmo que vejamos que ele é feliz. Obviamente, também pressuporemos que saibamos perfeitamente bem do que ele precisa — algo que invariavelmente coincide com o que nós próprios precisamos. Enfim, seja qual for o argumento que apresentemos em favor do ermitão, o indivíduo em geral se recusa a admitir que seja possível a alguém levar sozinho uma existência completa e satisfatória — ainda que ela esteja diante dele em carne e osso.

Assim, mesmo que o solitário leve uma vida aparentemente mais agradável que a nossa, isso só pode ser uma consequência do fato de que indivíduos iludidos são mais felizes, pois alguém que não concorda conosco só pode estar errado. Julgamos que, como sua vida não se encaixa no padrão que preestabelecemos como o único válido para alcançar uma satisfação que nós próprios nunca alcançamos — e nem por isso nos sentimos inclinados a pô-la em xeque —, o melhor que temos a fazer é nos protegermos desse indivíduo com todas as forças pelo simples fato de ser diferente; ou seja, mesmo que não tenha nos ameaçado em nada, o simples fato de ele ser diferente já é, para nós, uma ameaça implícita, que nos deixa tensos diante da possibilidade de não sermos o centro do universo.