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Já foi dito aqui, muitas vezes, que um ateu não crê que deus não existe. Ou ao menos não que isso seja necessário para caracterizá-lo como ateu. Muitos não-ateus gostam de lembrar que os ateus também creem em alguma coisa, como se crer fosse uma atividade proibida ao grupo. Obviamente, nada impede um ateu de crer em algo que não seja um deus. Não falo aqui das crenças mais ordinárias, como acreditar que tem que estar no trabalho daqui a meia hora ou acreditar que o Brasil é banhado pelo oceano Atlântico. Darei um exemplo de uma crença muito comum entre nós, ateus, seguindo a definição mais restrita de “crença” com a qual denotamos a crença dos, vejam só, crentes.

A crença no livre-arbítrio. A crença no livre-arbítrio talvez não esteja no mesmo patamar da crença de que Jesus nasceu de uma virgem, mas está lado-a-lado com a crença na vida eterna. Não é uma crença tão ingênua quanto a virgindade de uma mãe; no entanto, com certeza é muito esperançosa. Eu acredito, ou tento acreditar, mas o meu lado cético – que está preocupado em acreditar no que é real – briga com o meu lado esperançoso – que procura acreditar no que agrada – e minha crença não fica muito definida. Óbvio que, quando me refiro a ateus, é apenas uma parcela que acredita em livre-arbítrio.

Fala-se de maneira muito leviana no livre-arbítrio, de maneira ainda mais leviana sobre “liberdade” (eu gostaria muito que os norte-americanos me explicassem que “liberdade” é aquela pela qual eles lutam; nunca entendi direito). Adianto que é um assunto “levemente pesado”, se me permitem a contradição. Já falei sobre morte, defendi que deuses não existem (ou que não é lógico acreditar neles, vale esclarecer), mas falar sobre liberdade é mais pesado. Esclarecendo, falo de “liberdade” nesse texto como sinônimo de livre-arbítrio, até porque, se o livre-arbítrio não existe, então não existe qualquer forma de liberdade. Pensar que não somos livres para escolher, para desejar, é mais incômodo do que pensar que deixaremos de existir ou que não há deus. Na verdade, perto do livre-arbítrio, questões como “deus” e “morte” parecem até brincadeira de criança.  Provavelmente não existe deus algum nos protegedo nem garantia de vida após a morte, mas  o que importa é que vivemos e que, acredita-se, ajudamos a construir um mundo melhor. Desacreditar no livre-arbítrio implica acreditar em uma existência pela qual somos meros espectadores, passivamente gostando ou odiando os eventos que se sucedem.

Pegarei um exemplo banal para ilustrar o problema. Imaginemos que você vai a uma loja e deve escolher uma entre duas camisetas. Uma delas é amarela e a outra é azul. Você escolhe a azul. Ponto. Então você sai pela rua com uma camiseta azul, satisfeito com ela, imaginando que sua escolha foi boa. Tudo muito tranquilo até agora. Então você se lembra que, dias atrás, alguém te disse que a cor azul estava na moda. Veja como isso desvaloriza a sua decisão! No fim, o que te levou a escolher a camiseta azul foi apenas uma sugestão fútil sobre tendências da moda. Você imediatamente se sente uma ovelha em seu rebanho, uma ovelha vestindo uma camiseta azul. Talvez quem te disse sobre a moda da cor azul estava se beneficiando com o estouro de vendas de camisetas azuis. Então, só para se rebelar, você decide que talvez seja melhor comprar uma camiseta amarela e dar um “não” às tendências da moda e um “sim” à livre-escolha. Mas daí você se lembra que existe algo chamado “psicologia reversa” e que talvez a intenção era justamente a de fazer você comprar uma camiseta amarela. Como um pato, você caiu e começa a pensar se um pato de camiseta amarela é tão melhor assim que uma ovelha de azul. De um modo ou de outro, a sua escolha foi determinada pela alegação de que a cor azul está na moda.

Podemos supor que ninguém nunca te sugeriu nada e você comprou uma camiseta azul por achá-la mais bonita. Mas e por que você a acha mais bonita? Por que o azul te lembra a paz? Vai ver ele te lembra a paz pois é a cor de um céu limpo, ou porque lembra o mar, praia, férias. Nesse caso, a sua escolha não foi determinada por um interesseiro; foi determinada pela lembrança do mar e do céu que algum dia lhe represetaram paz. Fato é que ela não foi determinada por você e sim pelo que aconteceu em seu passado. Nossas escolhas não nascem espontaneamente no momento em que a realizamos; elas são consequências da carga de experiências que tivemos desde que nascemos.

Tudo fica muito mais leve quando falamos de camisetas e cores. Mas é claro que a questão se estende bem além disso. Aprendemos a ter orgulho de nossas escolhas, como a escolha da faculdade certa ou da esposa certa (ou do marido certo). Fazemos escolhas que consideramos erradas e ficamos imaginando como seríamos mais felizes se tivéssemos seguido um caminho diferente. Sem o livre-arbítrio, esses orgulhos e divagações são infundados. Como folhas boiando em um rio, onde nós somos as folhas e o rio é o meio em que vivemos, podemos ir parar em um lago limpo ou em um esgoto, mas não faz sentido se orgulhar por um ou se lamentar pelo outro. Uma existência sem deus ou sem vida eterna ainda é recheada de méritos, de glórias. Sem livre-arbítrio essas coisas se perdem. Termino o meu segundo texto sobre “morte” falando sobre a importância de deixar um bom legado. Digo naquele parágrafo que o legado é a eternidade concretizada pelos atos. Mas que coisa vazia seria se os seus atos não fossem escolhas suas e sim meras consequências inevitáveis. Darwin termina sua obra-prima dizendo “Há grandeza nessa visão da vida”, se referindo à crença de que todas as formas de vida surgiram de apenas uma, muito mais simples. E ele estava certo: há muita grandeza mesmo nessa visão da vida. Há grandeza na visão de um ateu também, não tenham dúvida, de uma vida sem deuses, uma vida que é bonita por si só. Existe igual grandeza em uma vida que tem um início e um fim, que deve ser aproveitada. Mas não, não há grandeza alguma sem livre-arbítrio.

Imaginem que hoje à noite uma pessoa vai bater na sua casa e lhe trazer uma notícia. Essa pessoa veio do futuro e viu tudo. Veio lhe dizer que a sua vida será medíocre e que você não chegou nem perto de realizar algum sonho seu. Pois bem, como não existe livre-arbítrio, a sua vida realmente será medíocre; quando confrontado com a opção de seguir uma via mais laboriosa e arriscada, você inevitavelmente negará em prol de uma mais confortável. Mas, se o livre-arbítrio existe, a mensagem dessa pessoa (muito importuna, por sinal) será apenas um incentivo para você ser um grande homem ou uma grande mulher. Isso demonstra de maneira mais clara o quão a descrença no livre-arbítrio é pior do que a descrença em deus ou na vida eterna. Tão pior que, pela primeira vez, eu espero sinceramente que alguém refute o meu texto com muita categoria, para que eu possa dormir tranquilo acreditando mais convictamente na liberdade de escolher.

Bom, para terminar, sem livre-arbítrio a vida é comparável a uma montanha russa. Na montanha russa, estamos presos em carrinhos que percorrem subidas e decidas. Como na nossa vida sem liberdade, as subidas e decidas não dependem de nossas escolhas e nossas emoções são determinadas em uma interação passiva na qual você apenas sente as consequências. Bom, termina o percurso da montanha russa, cheia de subidas, descidas, loopings e parafusos – todos eles lhe causaram uma gama de emoções diferentes. Medo, felicidade, alívio ou até mesmo enjoo. Não faria mesmo sentido se te descem parabéns por ter estado no ponto mais alto da montanha russa ou te consolassem por ter passado pelo mais baixo. Ninguém te perguntaria como você fez para dar todos aqueles loopings e ninguém dedicaria uma página na Wikipédia sobre “o parafuso que você deu naquela montanha russa”. Fazemos coisas semelhantes na vida real, como parabenizar e consolar, considerando os sucessos assim como os fracassos, e a analogia com a montanha russa mostra que essas atitudes não fazem tanto sentido assim. Mas talvez uma, e apenas uma pergunta seria relevante, tanto na vida como na montanha russa:

“O passeio estava bom?”

“Não há assuntos chatos, apenas escritores chatos.” (Henry Louis Mencken)

O que essa frase de Mencken ilustra é que todo o assunto, quando devidamente abordado, pode se tornar interessante. Eu vou um pouco mais longe e digo que todo o assunto se torna mais interessante na medida em que é contemplado o mais próximo de sua totalidade. Isso é algo que deveria ser dito aos atuais escritores de livros didáticos e professores de ensino fundamental e médio que abordam suas matérias de maneira demasiadamente superficial.

Para exemplificar o que eu estou falando, imagine duas aulas de física. Na primeira, os alunos de ensino médio estão tendo aula com um professor que não sabe muito da matéria. Física é um assunto aparentemente chato, os alunos estão preocupados com o vestibular, filmes, jogos, músicas e do sexo oposto, não com as forças físicas envolvidas no movimento de um carro sobre uma estrada. Mas estes alunos estão prestando atenção ao professor justamente porque ela sanaria uma de suas preocupações, o vestibular. É um sacrifício que devem fazer para serem recompensandos posteriormente. Para isso o professor improvisa musiquinhas com as fórmulas que eles devem decorar. E então a aula se segue com uma típica decoreba de ensino médio inundada de showzinhos e aborrecimento, na qual o maior momento de felicidade é quando toca o sinal que sinaliza término de aula.

Ainda temos a segunda aula. Uma turma que está aprendendo o mesmo assunto da anterior, porém, com um professor que domina o assunto como velejador domina o seu barco. Ao invés de obrigar os alunos a decorarem fórmulas ele insere em suas mentes a lógica e as aplicações de seus ensinamentos. Não os trata como meros recipientes vazios de conhecimento, prestes a serem preenchidos, mas sim como criaturas pensantes que precisam refletir sobre sua maneira de ver o mundo. Quando termina a aula, os alunos não pensam em musiquinhas de fórmulas, mas sim de como o mundo funciona e como é interessante entender isso.

Antes de eu seguir com a conclusão de minha parábola, saibamos reconhecer que uma aula não é mérito apenas do professor e que, dependendo do aluno, nem mesmo o mais sábio dos professores conseguiria incutir interesse ou mesmo o mais chato deles seria capaz de tirá-lo, caso o aluno já fosse um grande curioso.

Agora o leitor deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com a ideia de “mundo cinzento do ateísmo”, tão difundida pela sociedade. Bom, para explicar o que isso tem a ver eu vou entrar um pouquinho mais na analogia dos alunos de física e ficará bem claro o que eu quero dizer.

Imaginem que, durante as aulas, seja anunciado que a matéria “física” não cairá mais no vestibular. Para os alunos da primeira aula, isso significa que eles perderam suas preciosas manhas e tardes estudando algo totalmente inútil, afinal, eles não precisam daquelas musiquinhas para o seu objetivo. Os alunos da segunda aula certamente perceberão a perda que houve da importância das aulas de física. Mas o seu interesse pelo assunto não cessará da maneira abrupta com que cessou no primeiro caso, pois agora eles vêem a física como um assunto interessante, têm uma noção maior da área e conseguem visualizar a imensidão que é o campo de estudo da física. A semente da curiosidade foi implantada em suas mentes e não é um vestibular ou qualquer fator externo que eliminará a vontade de aprender. O sentido de aprender física não é imposto, vem de dentro.

Assim é o mundo de muitos ateus, incluído esse que vos escreve. Eu não vejo sentido na vida por ela supostamente ter sido arquitetada por um ser sobrenatural. Não acho que devo agir bem para ser recompensado pela mesma entidade. A beleza das coisas não é reflexo da obra de um suposto criador. Para o ateu em questão, o universo é digno de interesse devido a sua própria natureza, da mesma maneira que os alunos da segunda aula vêem no estudo da física um recompensa, e não apenas um meio de atingir a recompensa que seria externa ao aprendizado, no caso, passar no vestibular. Os alunos da primeira aula devem imaginar que tudo ficou vago e indigno de dedicação para os seus amigos da segunda aula, mas isso acontece tão somente porque eles não aprenderam a enxergar a parte interessante do assunto.

Para aqueles que ainda acreditam firmemente que a vida de um ateu é cinzenta pois não há sentido, eu digo simplesmente: sou ateu e minha vida não é cinzenta. Indo além, sou ateu, conheço muitos amigos que são, e suas vidas não são cinzentas. Muito pelo contrário, são pessoas bem dispostas, divertidas, abertas a diálogos e a ideias que divergem das suas. Não que eu ou essas pessoas sejam exemplos de como se deve aproveitar plenamente a vida (na verdade, algumas delas são) mas isso mostra que a nossa vida não é um mar cinzento de depressão e delírio. A grande maioria das pessoas aprendeu a ver a vida como uma extensão de algo maior, esse “algo” que muitos chamam de “deus” e, quando tiram esse “algo” sobra um resto que pode ser chamado de “nada” ou “quase nada”. Elas não sabem o quão estão enganadas. Reflitam profundamente sobre a existência de todas as coisas e perceberão que o mero fato de existirem já as tornam muito interessantes.

“Nada” é uma palavra criada por nós, seres humanos. Obviamente fomos nós quem criamos todas as outras que existem no vocabulário para designar e dar significado contextual às coisas, mas a palavra “nada” me chama especial atenção. A abrangência dela é enorme e normalmente a usamos tão corriqueiramente que nem percebemos o que de fato ela pode esconder, ou não esconder, e é aí que reside minha perplexidade em relação a ela. Quando alguém nos pergunta o que estamos sentindo e respondemos “não estou sentindo nada”, fica claro que este nada é bastante superficial e se refere a um estado qualquer em que a pessoa se encontra (dor, tristeza, angústia, paixão, depressão, solidão, alegria etc.). Mas, se analisarmos a mesma resposta “não estou sentindo nada” de forma absoluta, perceberemos quão esta palavra só possui valor factual subjetivo, pois não há meios de uma pessoa (viva e consciente) não estar sentindo absolutamente nada. E nesses termos chego ao ponto que desejo abordar.

Crédulos e incrédulos muitas vezes se “golpeiam” verbalmente na tentativa de cada um dar uma explicação melhor e mais plausível para a origem do universo conhecido ou até mesmo do infinito cosmos (apesar do nosso universo possuir o cognome de “infinito”, ele pode sim ter suas longínquas fronteiras, já o cosmos, não), porém, é muito comum ambos ignorarem que o nada não existe e nunca existiu, e se perderem em pensamentos que jamais os levarão a lugar algum. Esta dificuldade de assimilação é perfeitamente aceitável por termos uma visão padrão de começo, meio e fim e por existirmos. Temos uma visão subjetiva do nada e ao pensarmos no cosmos muitas vezes não conseguimos apartar essa subjetividade de nossas mentes e acabamos pensando equivocadamente que um dia “ele” foi um nada. As estórias religiosas para explicar a origem das “coisas” são de longe as mais irracionais e muitas vezes cômicas, mas isso não significa que não exista uma singela parte de céticos e ateus que insistem em pensar no cosmos como tendo uma “origem” a partir de um nada. Com certeza é nesses moldes que a confusão e as questões naturalmente instigantes se elevam ainda mais. Nem poderia ser diferente. O erro se inicia a partir do momento em que o pensador (crédulo ou incrédulo) tenta desenvolver em sua mente a ideia do nada absoluto. Primeiramente teríamos que compreender o que é o nada, mas visto que ele nunca existiu, caso contrário nada existiria (nada = nada), não temos então que nos esforçar para compreendê-lo. É um pensamento sem lógica e não nos ajuda a entender as coisas. Ao contrário, pois somente nos faz alimentar a absurda ideia da “causa primeira”. Absurda pois com deuses ou sem deuses o nada jamais poderia gerar algo. Seja qual algo for.

Curiosamente o equivocado nada absoluto assusta as pessoas por elas terem em mente justamente o seu nada subjetivo: o começo, meio e fim da existência orgânica que somos, conscientes ainda por cima. A humanidade, debruçada em centenas de crenças variadas, inventou a “vida eterna”, os “espíritos”, as “almas”, para poder de uma certa maneira conviver bem com a noção da própria morte, esta última representante máxima da ideia distorcida do nada e de toda a aflição humana que isto envolve. Mas esta mesma aflição, considerando-a somente em relação ao nada, curiosamente não tem impacto algum quando pensamos em “quem” não existe ou em “quem” ainda não nasceu (ou nem foi concebido). Um casal que planeja ter um filho em cinco anos, sequer para pra pensar sobre o “nada” em que se “encontra” hoje seu futuro primogênito(a). A não existência pós vida incomoda muito, enquanto a não existência pré vida nada significa aos humanos. Mas por que, se ambas as situações para o efeito da aflitiva não existência são rigorosamente a mesma coisa? No meu entender a resposta que parece ser a mais coerente, além da nossa imensa bagagem emocional, é essa equivocada ideia a respeito do nada. Tanto quando se trata da “origem” do cosmos quanto qualquer outra questão que envolva a tentativa de se “idealizar” o nada absoluto, como a morte tanto nos aparenta ser.

Alguns filósofos e grandes pensadores já “flertaram” inutilmente com o nada, tentando preencher de maneira até mesmo metafísica o que simplesmente não pode ser preenchido de modo algum, e assim muitos foram à loucura. E pode ser aí, em nossa equivocada ideia sobre o nada, que reside o início da solução de muitos mistérios ainda não descobertos pela ciência. Pode ser na inexistência do nada, na ausência da origem cósmica tão discutida, que se encontre respostas mais esclarecedoras. Talvez esteja na hora de esquecermos a ideia do nada absoluto e voltarmos nossa atenção para algo novo.

É comum a afirmação de que o ateísmo conduz ao niilismo, e de que este tira o significado da existência. Na verdade não tira, pois a existência não tem significado algum. Nós também não. O significado é criado por nós. Mas isso não é tudo; há mais um detalhe, e é ele que realmente nos incomoda: com o niilismo, em vez de colocarmos o significado como a base do mundo, colocamos o mundo como a base do significado. Claro que, ao fazê-lo, ruem todos os significados que não possuam relação com a realidade, pois se tornam subordinados a ela, e isso é bastante desejável, pois mantém nossos pensamentos com os pés no chão. Noutras palavras, o niilismo nos proíbe de recorrer à metafísica em busca de consolos emocionais.

O ateísmo incomoda os religiosos e os agnósticos pelo mesmo motivo que o niilismo incomoda os ateus. Trata-se de uma espécie de medo de perdermos certos confortos emocionais que dependem de mentiras. O religioso pensa que, sem deus, a vida seria intolerável; o ateu pensa que, sem sentido, a vida seria uma miséria. Mas não seria, pois esse tipo de coisa só existe em nossas cabeças; são mentiras confortantes, mais nada. Temos medo de perder todas as coisas às quais estamos emocionalmente apoiados, sejam elas verdadeiras ou não. Então, como se nota, a equação é bem mais simples do que normalmente se supõe.

Nessa situação, o que nos incomoda não é tanto o fato de deus não existir, mas o fato de que, sem uma figura subjetiva autônoma, não há como legitimar qualquer postura de valorização subjetiva com base em elementos externos. Não temos em quê nos apoiar, pois estamos sozinhos no mundo, e paradoxalmente apoiar-se em si mesmo não nos conforta: queremos nos apoiar em algo que esteja fora da condição humana, mesmo sabendo que isso é impossível. Aqui fica claro que são emocionais os motivos pelos quais, nessas circunstâncias, normalmente recorremos à metafísica. Ninguém quer acreditar num sentido que é meramente uma crença; mas todos os sentidos são meras crenças.

Então o mundo não tem significado, e essa é uma verdade emocionalmente corrosiva; por isso, ateus ou não, temos a tendência de fugir dela. Certas verdades doem mais do que estamos dispostos a suportar: a coisa toda reduz-se basicamente a isso. Pois bem, e para que serve entender isso tudo? Para várias coisas, mas principalmente para entendermos nossa condição; como a ciência, o esclarecimento proveniente do niilismo serve para quaisquer fins. Tentemos entendê-lo com calma. De início talvez não percebamos, mas a “ausência de sentido” é uma ideia que pode ser importante, por exemplo, à nossa satisfação pessoal, pois, sendo máquinas fisiológicas, nossa satisfação precisa ocorrer fisiologicamente em nossos corpos, não apenas nas representações simbólicas desses corpos. Para tanto, precisamos ser capazes de orquestrar uma relação entre a realidade e a nossa satisfação — e compreender essa relação é exatamente o processo de dar sentido às coisas. Se um perder-se do outro, passaremos a viver em função de fantasmas, e isso é muito mais comum do que se imagina: basta pensarmos na busca pela felicidade.

Pois bem, como costumamos dar mais importância à nossa ideia da realidade que à própria realidade, nossas necessidades geralmente se encontram bastante distantes da ideia que fazemos dessas necessidades; ou seja, nós nos ignoramos em favor dessas abstrações ocas, guiamo-nos por critérios que sequer tocam nossa natureza — que muitas vezes sequer nos preocupamos em entender —, vivendo completamente alienados de nossos corpos, vistos como meros detalhes. Tornamo-nos, assim, uma ficção de nós mesmos. Ora, uma ideia sem realidade por detrás é simplesmente nada — como podemos permitir que o sentido do nada seja determinante em nossas vidas reais? Isso é insanidade.

A matéria é primária, o sentido é secundário; sempre. Nós somos nossos corpos, não a ideia que fazemos deles; nossas experiências pessoais são fatos fisiológicos, não a ideia que fazemos desses fatos. Sentidos não existem, mas podem ser criados; contudo, criar sentidos abstratos, sem qualquer correspondência com nossas experiências pessoais concretas, e então viver em função disso: trata-se apenas de um modo criativo de nos perdermos da realidade. Por isso deveríamos cuidar para que nossas ideias sobre nós mesmos sempre sejam redutíveis — ou ao menos relacionáveis — à fisiologia, ou serão apenas desvarios cerebrais. Isso não é exagero, apenas um bom senso há muito tempo negligenciado em favor de progressos vazios.

Talvez essa ideia, de início, pareça um pouco extrema, mas só parece extrema às nossas cabeças. Se levarmos à prática, veremos que o sentido não faz falta alguma, pois ele sempre foi uma quimera. Quando, por fim, conseguirmos fazer com que nossas ideias e nossa fisiologia caminhem lado a lado, e em paz, talvez percebamos que dar significado às coisas é simplesmente supérfluo. Comer não precisa ter sentido, nem dormir, beber, dançar; tampouco a dor, o prazer, ou mesmo o viver — nossas razões a esse respeito são irrelevantes. Aceitemos que isso tudo independe de nossas explicações. Sentidos não significam nada; são apenas um modo de entreter uma civilização que não soube muito bem o que fazer depois de assegurar as bananas.

Depois de morrer vamos para o céu. Como assim “céu”? E como é esse céu? E por que alguém haveria de querer ir para lá? Por que só depois de morrer? Notemos que não há qualquer exagero nesse tipo de pergunta. Se disséssemos que vamos à praia, não nos incomodaríamos de responder perguntas desse gênero. Como assim “praia”? E como é essa praia? Por que alguém haveria de querer ir para lá? Por que só depois de as férias começarem? Se o mundo houvesse sido criado por um deus, deveríamos saber responder com relativa segurança o que queremos dizer com “ir para o céu depois de morrer”, assim como temos segurança a respeito de férias no litoral. O fato de religiosos se mostrarem tão hesitantes a respeito do céu deveria nos deixar desconfiados, pois comportam-se exatamente com quem não sabe do que está falando. Não conseguem responder as perguntas mais básicas, que seriam facílimas se o céu de fato existisse.

Tentemos imaginar como o mundo seria se houvesse um deus. A princípio, isso é algo difícil de conceber, pois nunca tivemos contato com esse tipo de entidade. Então, para facilitar, tentemos imaginar como seria o mundo se nós o houvéssemos criado; já será um bom começo. Pois bem, como seria o céu? Mais ou menos como uma festa VIP: só entram convidados. O inferno seria o equivalente à prisão. Então, se o mundo fosse uma criação humana, as coisas se enquadrariam mais ou menos nesse esquema, e haveria muitos jornalistas fotografando quem se deu bem, quem acabou no inferno, e assim por diante. Nossas vidas todas girariam em torno disso, e o mundo seria movido pela mais profunda religiosidade.

Mas, pelo modo vago como descrevemos coisas como “céu”, “vida eterna” e “realidade espiritual”, de onde parece que realmente tiramos tais ideias? Dos sonhos. A descrição do mundo espiritual assemelha-se grandemente à descrição de um sonho. São muitas as semelhanças entre ambas as coisas: acontecem num lugar do qual só temos uma ideia vaga, que não sabemos como situar no tempo e no espaço; um lugar no qual não valem as regras físicas deste mundo, mas as morais, sim; um lugar no qual nossa matéria não tem massa, no qual nosso corpo seria desnecessário, mas mesmo assim preservamos as estruturas necessárias para a sobrevivência no mundo físico. Tendo isso em mente, com a afirmação de que, “depois de morrer, vamos para o céu”, deveríamos entender que ficaremos para sempre num mundo de sonhos do qual nunca acordaremos. Trata-se de uma explicação que até faz sentido se levarmos em consideração a época em que foi inventada. Contudo, hoje sabemos que defuntos não sonham.

A conclusão que queremos alcançar é que, se deus existisse, o mundo seria muito diferente — ele faria sentido, por exemplo; até um mundo criado por nós teria algum sentido. Contudo, o mundo que temos diante de nós parece não ter nenhum. Na verdade, lembra um terreno baldio: um lugar abandonado que não foi criado por ninguém, que não serve para nada, que não existe em função de coisa alguma; ou seja, o mundo apenas existe, e nós também. Seja como for, deve ficar claro que entender a realidade dessa maneira não se trata de pessimismo, mas de aceitar as coisas como elas são. O mundo poderia ter um criador, mas isso não é compatível com a realidade que observamos; o mundo poderia ter sentido, mas isso não é compatível com a realidade que observamos; a vida poderia ser eterna, nós poderíamos ter superpoderes mentais e assim por diante, mas a conclusão seria a mesma: não há fatos que apontem nessa direção.

Como se percebe, a falta de sentido decorre justamente do fato de a realidade ser indiferente à vida, e essa indiferença não é uma mera hipótese pessimista, mas um fato esmagadoramente comprovado pelo próprio funcionamento da realidade. Os átomos não ligam para nós. Com o avanço da ciência, já estão diante de nós todos os fatos necessários para entendermos o mundo razoavelmente bem; só não queremos aceitá-los. Uma realidade cega, morta e sem sentido é a única interpretação compatível com os fatos que conhecemos. O mundo só faz sentido se visto como algo destituído de sentido.