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Um dos argumentos a favor da inexistência de um Jesus histórico[1], mesmo sem os poderes sobrenaturais, é a falta de escritos do filho de Deus. Em análises linguísticas, podemos perceber que, sempre que há uma referência com discurso direto do “cordeiro de Deus” (João 1:29), ele invariavelmente fala sobre a vida na terra com frases humanistas do calibre de “Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis” (João 13:34) ou “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mateus 5-39). Todas elas podem ser traçadas a outras personagens mais antigas, como Buda ou Confúcio. Para os que buscam essa visão do Novo Testamento como a narrativa de um homem comum, é de costume atribuir à fantasia dos escritores os milagres mais absurdos, como a ressurreição dos mortos; os outros, com muita boa vontade, são atribuídos a bloqueios psicológicos dos enfermos.

A falta de textos do próprio Jesus torna difícil a sua definição, tendo em vista todas as contradições entre os Evangelhos[2], sendo o seu caso mais famoso o da genealogia do Redentor (Lucas 3:23-28 e Mateus 1:1-16). Sob essa análise, a pluralidade de fontes autoexcludentes e assaz imaginárias colocam Jesus em pé de igualdade com Héracles e outros semideuses gregos, os quais não sabemos dizer se realmente existiram em forma humana ou se foram simplesmente mitos criados e repassados culturalmente.

Há uma alegação comum entre cristãos de que Sócrates também não escreveu nada e que, por isso, não se poderia provar a sua existência. A princípio, a analogia faz sentido, caso seja tomada somente neste quesito. Contudo, outros aspectos comparáveis das duas personagens devem ser considerados: Sócrates aparece principalmente em uma fonte, a saber, Platão, além de umas poucas referências de autores posteriores; sua principal frase de efeito fora “Só sei que nada sei” (ἓν οἶδα ὅτι οὐδὲν οἶδα)[3], proferida durante o seu suposto julgamento.

Sem afirmar a veracidade histórica de Sócrates, podemos seguir um outro caminho mais interessante, quer seja, o de analisar mais profundamente a analogia e sua validade. Entendamos o seguinte:

1) Mesmo que Sócrates tenha sido uma figura inventada por Platão, seus ensinamentos e suas ações eram de pessoa comum, bem encaixada na camada da sociedade que supostamente habitara; Jesus era muito sábio e chamaria a atenção dos pescadores analfabetos e dos pobres que lhe escutavam os sermões;

2) Todo o legado de Sócrates se restringe ao campo das ideias, na forma de conceitualização a partir da literatura vigente; tudo o que se espera de Jesus são milagres para esta vida e passe garantido para a próxima;

3) Salvas as devidas correções sociais e tecnológicas, hoje em dia é possível reproduzir e levar adiante todas as ideias de Sócrates; por conseguinte, mesmo que não tenha existido, suas ideias foram concebidas por outro ser-humano com as mesmas limitações; Jesus, pelo contrário, faz de seus feitos algo intransponível para qualquer um de seus “irmãos” de carne e osso (por mais que pastores neopentecostais afirmem o contrário). E, convenhamos, com todas as explicações convergindo para o fato de que ele era a vontade de Deus na Terra, torna-se bastante plausível a ideia de que ele não existiu nem seus feitos realmente foram consumados em época alguma;

Como bem sabemos, sem as devidas evidências, quase nada pode ser provado empiricamente. Assim, a discussão central deixa o âmbito da indagação “realmente existiram?” e dá muitos passos adiante com o questionamento “poderiam realmente existir?”. A analogia inicial só diz respeito à primeira pergunta e, dentro desse limite, é válida na comparação. A segunda pergunta, no entanto, destrói qualquer tipo de semelhança acidental (συμβεβεκός) entre os dois, encerrando mais uma tentativa sofrível de apologética cristã.

Notas:

[1] LA SAGESSE. Jesus Cristo Nunca Existiu. Disponível em <http://ateus.net/artigos/historia/jesus_cristo_nunca_existiu.php>. Acesso em 27 mar. 2010.

[2] Bíblia. Tradução de João Ferreira de Almeida. Disponível em <http://ateus.net/artigos/escrituras/biblia/>. Acesso em 28 fev. 2010.

[3] PLATÃO (ΠΛΆΤΩΝ). Apologia de Sócrates (Απολογία Σωκράτους). Texto original em grego disponível em <http://el.wikisource.org/wiki/Απολογία_Σωκράτους>. Acesso em 28 fev. 2010.

De um erro clássico I