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“Por que tantos tementes a deus?” Essa é uma pergunta muito boa. Nós, ateus, gostamos de debater sobre o assunto e expor nossas conclusões. Debatemos usando argumentos contra a existência de deus(es) e, principalmente, por que não é racionalmente aceitável acreditar em algum. Mas existe um fato que aparentemente derruba todas as nossas tentativas: existe uma boa quantidade de tementes a deus, deuses ou demais entidades sobrenaturais. Diante do fato de que a vasta maioria da humanidade acredita em deus ou deuses, nosso arsenal de argumentos parece quixotesco.

A resposta padrão de muitos ateus a essa questão é: os motivos racionais são poucos ou nenhum, mas os emocionais são muitos e são fortes. Eu me uso dessa resposta, pois realmente acho, depois de anos debatendo com teístas, que os motivos que levam à crença no sobrenatural são majoritariamente de caráter emocional. Uma boa porção deles insiste em dizer que não, possuem argumentos na ponta da língua, mas estão apenas querendo se enganar e, cedo ou tarde, acabam expressando que são, de fato, levados pela emoção.

Novamente, meu intuito não é rebater esses argumentos. Se algum teísta considerar que estou errado, sinta-se à vontade para postar seus argumentos nos comentários de nossos textos. Quero discutir o que seria essa tão falada motivação emocional. Ir além de simplesmente taxar a crença alheia como mera emoção e dar nome aos bois.

Bom, comecemos por um conceito muito desejado por nós: justiça. Queremos que os usurpadores paguem pelos seus atos e que os altruístas sejam recompensados. Tentamos fazer isso dentro de nossa sociedade com nossas próprias mãos, criando prisões e castigos para os primeiros, assim como honras e presentes para os últimos. Porém, reconhecemos nossas limitações e ansiamos por uma força promotora de justiça mais plena. Essa justiça tem que vir de algo maior que nós, mais poderoso e incorruptível. Esse “algo” normalmente é chamado de “Deus”.

Depois temos a curiosidade. A ambição citada no parágrafo anterior reflete uma característica marcante de nossa espécie, que é a vida em sociedade. O desejo de adquirir conhecimento amplo e seguro advém de outro aspecto nosso, que é a vontade de aprender. Dentro de uma sociedade majoritariamente cristã, é comum ouvir de muitos cristãos que o conteúdo da bíblia é uma verdade absoluta e que é tudo o que precisamos conhecer, que a sabedoria ali ensinada é mais profunda do que a mais brilhante eureca de um simples humano. Comicamente ouvimos muito frases do tipo: “no fim todos nós saberemos quem está certo”. É a crença de que, depois da morte, além da justiça feita teremos todas as respostas. Já falei um pouco sobre essa crença aqui (Porque não Acreditar, 5º parágrafo).

O terceiro desejo é a vontade de nunca deixar de existir. Em bom português: “o medo da morte”. Não me adentrarei nele, pois já dediquei três textos ao assunto (este, este e este). Só adianto que considero esse o desejo mais íntimo e o maior responsável pela crença no sobrenatural. Os três grandes desejos aqui comentados não são exclusividade de teístas. Ateus também os possuem. O que muda é que um deles aceita suas limitações e o outro abafa o fato com crenças sobrenaturais.

Portanto, como já devem ter percebido, podemos resumir esses três motivos como um desejo muito íntimo presente em todos nós. Uma fome muito grande por coisas que não vêm na quantidade que gostaríamos. Essa fome imensa que é a mãe de todas as fés. A justiça é rara, o conhecimento é pouco e a vida é curta. Essa fome se sacia acreditando que a justiça será feita, que todos os mistérios do mundo (ou ao menos os poucos que realmente interessam) podem ser desvendados e que a nossa existência não se finda com nossa morte. Essa crença poderia vir da maneira padronizada, através da lógica e da observação. O problema é que “lógica” e “observação” definitivamente não nos levam a concluir o que gostaríamos, então a nossa crença tem que vir do nada, é preciso ter fé. Tornamos uma dada limitação, que é a incapacidade de possuir um entendimento pleno sobre todas as coisas a nosso favor e colocamos os nossos anseios neste mar de ignorância que reconhecemos possuir. Nós, ateus, chamamos esse deus, que mora no incompreendido, de “deus-das-lacunas”. O que escapa nossa razão agora é algo sobrenatural e sacia a nossa fome. Ou pelo menos vai saciar, um dia quem sabe, basta ter fé e paciência…

Não acreditamos em deus pois não existe evidência alguma de que esse mesmo exista.

Essa posição parece ser muito radical para muitas pessoas que não perceberam o cerne da questão pois, como dita a velha frase: “a ausência de evidência não é evidência da ausência”. O tal “cerne” da questão eu discutirei no texto, assim como porque não acreditar em deuses é a coisa mais sensata a se fazer enquanto não existe uma evidência sequer mostrando o contrário. Lembrando que eu não abordarei as supostas “evidências” a respeito do assunto porque é assunto demais para um texto só, fora que estou familiarizado o suficiente com uma boa quantidade dessas “evidências” e precisaria ler/ouvir algo muito diferente para ficar realmente surpreso. Para entender essa questão, irei começar pela rota menos óbvia: supor que deus exista. Claro, vamos ter que pegar um deus em específico, pegarei o abraâmico por estar mais familiarizado com este.

Deus existe, ele realmente criou a terra como está descrito no Gênesis, veio a Terra como Jesus e fez um monte de coisas. Façamos esse exercício mental. O que impede que ele exista? Bom, se foi ele quem criou homens e mulheres (do barro e de uma costela, respectivamente), então pode muito facilmente ter determinado suas limitações. Limitações como não ter a capacidade lógica o suficiente para entender as Suas motivações. Da mesma maneira que uma formiga não tem capacidade lógica para entender sobre buracos-negros, por exemplo. Então, esses humanos poderiam ter evoluído tecnologicamente, ter avançado na filosofia e na cultura, mas mesmo assim ainda seriam limitados. Todas as evidências empíricas possíveis e a mais brilhante lógica do mundo não seria o suficiente para revelar a verdade, que seria a de que Deus existe e foi ele quem os criou. Deus veria todos ali, pessoas crendo nele, outras crendo noutros deuses, e ainda umas que seriam atéias. Somente aquelas pessoas seletas, cristãs, estariam corretas. Não pela lógica ou pela observação, mas puramente porque resolveram acreditar em algo. Resolveram acreditar em Cristo, que por acaso foi uma vez que Deus veio dar uma banda no seu planeta favorito para consertar as próprias mancadas.

Conseguiram ver o erro? Para muitos teístas, o que eu escrevi agora expressa direitinho a lógica por trás de suas crenças. Na verdade, boa parte deles, partindo da premissa de que a minha suposição é muito mais do que suposição, acaba vendo os ateus como “tolos”. Afinal, Deus existe e todos aqueles ateus, escarafunchados na “lógica” e no “empirismo”, são incapazes de acertar a verdadeira resposta. Existe um problema muito grande nessa questão.

O problema é, em um palavra: critério. Crença é uma questão de critério. Não se trata apenas de estar certo em um determinado assunto e ignorar qual foi o meio pelo qual se obteve a respectiva conclusão. Eu dei o exemplo do deus abraâmico e, para muitas pessoas, isso parece corresponder com a realidade. Mas reparem que, se eu substituir a palavra “Deus” por um outra qualquer, digamos, “Sauron”, a suposta “lógica” do parágrafo não decresce nenhum pouco. Alguns poderiam dizer que eles não sentem por Sauron o que sentem por Deus, mas e porque o próprio criador do universo deveria se importar com isso? Se a própria lógica foi abandonada pelo deus da bíblia, o que impede Sauron de abandonar as emoções? E se não fosse Sauron, se fosse uma mega corporação de gnomos invisíveis eu sigo dizendo que a “lógica” não diminuiria nem um pouquinho.

Precisamos de critério pois existe um fato muito indignante: Nunca seremos capazes de contemplar a realidade em toda a sua plenitude. Tudo o que sentimos é um interpretação da realidade e, como tal, sujeita a defeitos. Como o nosso acesso à realidade é apenas parcial, resta sermos criteriosos. Engraçado como muitos crentes costumam dizer “no final, veremos quem está certo”, na crença de que algum dia a “Verdade” será revelada. Essa crença decerto lhes dá mais tranqüilidade para fazerem suas apostas de fé. Mas é claro, não existe absolutamente nada que garanta ou mesmo indique que qualquer verdade será revelada só para saciar a nossa curiosidade.

Em uma última analogia, imaginem europeus em pleno século XIII. Suponhamos que, um cidadão português tenha concluído, acertadamente que existe todo um continente para o oeste e que devem ser realizadas expedições para lá. A nobreza portuguesa, interessada na conclusão do informante, resolve perguntar como ele chegou a ela. Perguntam se ele realizou expedições para aqueles mares, se ele viu embarcações surgirem de lá. Eis que ele diz ter descoberto o suposto continente por ter fé em sua existência. Apresentado desta maneira, alguém pode achar que seria sábio por parte da nobreza seguir o palpite louco do cidadão e ter gasto fortunas com expedições. Acontece que eu estou usando um exemplo muito específico. Aqueles mares eram desconhecidos e fora do alcance lógico dos portugueses. Seria, no fim das contas, insensato mandar naus para lá mesmo que esse caso em particular alavancasse o progresso de Portugal. Isso porque, da mesma maneira que seguiram um palpite certeiro, poderiam seguir uma miríade de palpites muito mais desastrosos e, portanto, colapsariam.

E é por isso que a questão não gira em torno do “porque deus não existe” mas sim “porque não deve se acreditar nele”. E não se deve acreditar por simples honestidade intelectual. É você sendo verdadeiro com os seus conhecimentos, sem dar chutes afobados na pretensão de estar certo.

Algo que nos interessa, a princípio, é a etimologia da expressão utilizada no título. Pois bem: Hocus Pocus, segundo o linguista Jairo Moura, “é pseudo-latim e tenta emular a primeira declinação dos nomes; os magos usavam porque era a língua ‘oficial’ para conjurar magias”; ou seja, é apenas uma expressão que os mágicos adotaram há alguns séculos para distrair a plateia; tão significativa quanto shazam!. Enquanto a platéia se concentrava no Hocus Pocus!, mil coisas aconteciam nas mãos do mágico e atrás das cortinas. Uma ótima forma de tapear o povão.

Devidamente apresentada a expressão, vamos ao que se segue: um amontoado de truques para você fazer e divertir sua família ou, quem sabe, tornar-se um grande bruxo, macumbeiro, médium, pastor, trombadinha… enfim, qualquer coisa relacionada à religião.

Brincadeiras à parte, é provável que você já tenha percebido o quanto as religiões tem-se utilizado das artimanhas dos mágicos para iludir multidões de pobres coitados (nem sempre a palavra pobre está relacionada ao financeiro, mas também ao intelecto). James Randi que o diga.

Sei que, apesar desta revista ser voltada, principalmente, ao público ateísta, muitos religiosos tem nos visitado, e mesmo esses hão-de convir que, pelo menos fora de suas religiões, o que não falta são charlatões posando de super-heróis.

Lembro que cheguei ao ateísmo após experimentar muitas religiões (nem todas ativamente, mas sem medo dos rituais). Acredito que não há modo melhor e mais divertido de compreender e trucar religiões do que quando já se experimentou pelo menos um pouquinho delas.

Proponho então aos ateus que, como eu, se divertem com as crendices; aos agnósticos, que não têm medo de experimentar para tirar a prova; e aos teístas que ousam arriscar a alma pela comprovação dos fatos; que comprem suas velas, aprendam a fazer farofa e energizem suas auras, porque testaremos, a partir dos próximos textos, milagre por milagre, mandinga por mandinga, cada superstição que pudermos imaginar, das mais light às mais pesadas (exceto os sacrifícios; a não ser que eu descubra uma seita em que se possa utilizar ratos de laboratório como sacrifício).

Chega de pilantras e charlatões gritando palavras mágicas e tapando nossa visão. Veremos o show de cima do palco, com os olhos no movimento por detrás das cortinas e ignorando as distrações.

Que rufem os tambores!

III

É normal uma pessoa religiosa estufar o peito para falar sobre a crença dos grandes gênios da humanidade. Alguns nomes logo vêm à mente. Isaac Newton é o primeiro. Físico, pai do cálculo e teólogo, para orgulho dos teístas. Galileu, um dos homens que desafiou a igreja, também acreditava em deuses. Einstein, muito citado em fontes não confiáveis pela internet como sendo autor de diversas frases, boa parte delas com alto teor religioso, também acreditava em algum deus (embora muito diferente do que a versão da grande maioria dos teístas). Da Vinci, Blaise Pascal e Kepler são outros nomes de grandes gênios crentes em deus.

Segundo o meu último texto, esse fato não interessa. Não entendam isso como uma tentativa de desvio ao fato de que muitos cientistas brilhantes acreditavam em deus. Na verdade, muitos outros cientistas brilhantes não acreditavam em nenhum e isso também não faz diferença alguma. Esse meu texto não vai atacar a validez da defesa apologética na qual os grandes gênios aparecem como evidência de que deus existe. Essa defesa já começa inválida por se tratar de simples falácia do apelo à autoridade. Quero falar sobre a relação entre a crença e suas experiências, uma ideia fundamental que parece ser sistematicamente ignorada por muitos teístas. Para tal eu focarei em Newton, visto que ele é o mais óbvio expoente de cientista crente em deus.

Newton acreditava – muito – em deus. Não resta a menor dúvida quanto a isso. De fato, ele era um teólogo. A faceta de Newton que não nos ensinam na escola inclui teologia e alquimia dentro das atividades deste cientista britânico. Essa mesma faceta é muito lembrada com orgulho pelos defensores da “ciência amiga de deus” de que eu falei no meu último texto. Como a relação deus e ciência é tão repleta de ironias, é óbvio que existe mais uma por trás da teologia de Newton. Não sei se os apologistas nunca pararam para pensar sobre isso por preguiça ou conveniência, mas o fato é que existem ótimos motivos pelos quais Newton não é conhecido por sua teologia e alquimia. Ao contrário do Newton físico, matemático e filósofo natural, a sua contraparte teológica e alquimista não colaborou muito (ou nada) para a humanidade. O cálculo de Newton e suas leis fundamentais revolucionaram a física, mas a alquimia e teologia foram irrelevantes. Seria interessante se Newton não tivesse desperdiçado tanto tempo na busca de uma pedra filosofal ou de um deus bondoso, talvez saísse mais um ou dois postulados.

Mas o ponto mais importante não é esse. Não faz muito sentido divagar sobre o que Newton teria descoberto caso investisse mais tempo em seus estudos sobre a natureza. Newton, como cada ser humano, era uma criatura cujos conhecimentos dependiam intimamente de sua experiência. Antes de ser um filósofo/físico/teólogo de grande calibre ele era um filósofo/físico/teólogo do século XVII – XVIII. Não há como dissociar Newton de seu tempo da mesma maneira que não há como dissociar uma ideia de sua época, visto que a primeira é um reflexo da última.

Um exemplo de como muitos apologistas falham miseravelmente ao dissociar um pensamento de sua experiência está no criacionismo. É comum ver criacionistas defendendo que os principais gênios, como os que eu citei no primeiro parágrafo, eram todos criacionistas. Mais uma vez vamos um pouco além, ignorando o fato de que o argumento é apenas uma falácia, para analisar a sua validade.

Antes de nos perguntarmos por que Newton, Galileu e Pascal eram criacionistas, devemos nos perguntar como eles se tornariam evolucionistas. Sabemos como Darwin se tornou um. Entre os principais fatores está nada menos do que uma viagem ao redor do mundo com frequentes paradas, incluindo na América do Sul, onde Darwin servia primariamente como geólogo mas também coletava espécimes diversos. Wallace, o co-autor da teoria darwinista estava na Malásia quando chegou, de maneira independente, à mesma ideia central que Darwin. Antes de ir para a Malásia Wallace estudou e coletou durante anos na bacia Amazônica, um lugar que muitos brasileiros sequer conhecem. E fez isso em pleno século XIX. Há de se considerar a experiência destes dois naturalistas. Como que Newton chegaria à mesma conclusão que Darwin e Wallace? Estudando prismas? Observando uma maçã cair? Ou então Galileu deveria ter descoberto algo sobre a evolução das espécies olhando as estrelas através de seu telescópio.

Nem Newton, nem Galileu, nem Darwin ou mesmo eu e você tiramos nossas conclusões do nada. O que chamamos de grandes gênios são pessoas que sugam lições de suas experiências com a voracidade que um tolo não conseguiria. Mas a informação chega para todos com a mesma intensidade, a única diferença está em quem a acolhe. Uma maçã caindo foi o suficiente para inspirar Newton a postular algo sobre a gravidade, mas nem mesmo todas as maçãs do mundo caindo simultaneamente fariam com que um homem, preguiçoso ou temeroso em pensar, concluísse qualquer coisa.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes

Em se tratando de plurais, os agnósticos formam um grupo bastante heterogêneo. No mínimo tão heterogêneo quanto nós, ateus. Antes que o meu texto seja mal interpretado, não chamo os agnósticos, todos eles, de “sem opinião”. O time dos “sem opinião” se refere a um grupo dentro do grupo. Um tipo particular de agnóstico muito comum e muito irritante.

Antes de falar deste grupo, vou falar dos agnósticos no geral. Agnóstico é aquele que admite não possuir conhecimento o suficiente para ter convicção de que deus existe, ou de que ele não existe. Agora, se você é um leitor esperto, deve ter percebido que “ateísmo” e “agnosticismo” não são posicionamentos excludentes dentro de uma mesma mente pensante. Não acreditar em algo não significa ter convicção de que este algo não exista. Eu mesmo sou um ateu, e posso ainda ser definido como agnóstico. Mas vá explicar isso para o pessoal “sem opinião”…

Mas quem são esses gajos, afinal? Bom, para começar, todos se definem como agnósticos. Eles o fazem de tal modo que fica fácil criar uma aversão (injusta) aos agnósticos em geral, mesmo que esse grupo possua pessoas muito mais lúcidas que a média da população. O diferencial do time dos “sem opinião” está, obviamente, no esforço destes em não tomar partido algum na questão da existência de deus(es).
Esses agnósticos se baseiam em certas premissas, todas equivocadas.

A primeira delas. “Descrer na existência de deus é crer convictamente que este não existe”.  Falso. Existe a crença e a descrença. Assim como existe a convicção. Crer em alguma coisa é agir sob o pressuposto de que esta coisa exista. Descrer é o oposto. Crer convictamente é ignorar qualquer evidência que derrube a sua crença.

Para ilustrar esse exemplo, imagine uma porta. Agora eu lhe digo que, atrás desta porta, existe um leão faminto que não vai pensar duas vezes antes de devorá-lo. A questão é que você quer abrir essa porta. Existem duas escolhas. Você crê no que eu digo, ou descrê. Logicamente.
A crença de que o leão existe vai se refletir nos seus atos. É muito improvável que você vá incauto em direção à porta, sendo que você acredita na existência do leão espreitador. Certamente você sequer se aproximará da porta, ou caso vá em direção a ela, o fará com muita cautela. Isso é a crença, no seu modelo de mundo, o leão está lá, e é sensato tomar bastante cuidado.

Você pode descrer. Neste caso você abrirá a porta sem o menor receio. Ou talvez com um pouco de receio, é verdade, mas ainda assim abrirá. Você pode discutir comigo, tentar ser razoável. Um leão atrás da porta emitiria algum barulho, ou mesmo calor. Ou poderia me perguntar, e seria uma pergunta muito pertinente: “o que um leão estaria fazendo atrás daquela porta, afinal?”. Eu poderia inventar qualquer coisa. Poderia até mesmo dizer que um simples humano como você não seria capaz de compreender as minúcias da fome do leão.

Uma crença convicta no leão seria se, mesmo sem qualquer evidência a favor do bicho, você ainda ficasse com medo. Impediria qualquer um de se aproximar da porta e gritaria aos quatro cantos que “ali tem um leão!” e que “todos deveriam se manter afastados da porta o máximo possível!”. Poderia também crer convictamente que o leão não está ali, o que é diferente de simplesmente descrer. Porque você ignoraria a priori qualquer evidência corroborando o leão faminto.

Esse equívoco manifesta-se de maneira mais óbvia na seguinte afirmação, muito comumente pronunciada por este subgrupo peculiar de agnósticos:
“Eu não acredito, mas eu também não desacredito.”
Uma pérola, em minha opinião. Assemelha-se a dizer “Eu não conheço, mas eu também não desconheço.” ou “Eu não confio, mas também não desconfio.”! No entanto, é muito normal ler ou ouvir essa frase em discussões por aí afora. De maneira geral, eu tomo essa frase como um diagnóstico de que o sujeito em questão faz parte mesmo do timinho dos “sem opinião”.

A outra premissa é a de que crer e descrer em deus(es) são posições de mesmo mérito intelectual. Discordo totalmente.
Peguemos o exemplo do leão atrás da porta. Qual a chance de ter um leão atrás da porta, sendo que você está em um recinto fechado, dentro de uma zona altamente urbanizada, com um oceano atlântico te separando da savana africana? Cinqüenta por cento? Certamente que não. Fica óbvio que a crença e a descrença, neste caso, não fazem parte de extremos opostos de igual plausibilidade. Pois bem, o mesmo acontece com deus. Quais são as evidências de que existe algum deus? Eu desconheço. E isso que eu já li muita coisa, das mais absurdas às mais sofisticadas defesas da existência do “papaizão”.

O religioso fanático tem uma visão romantizada das coisas. Visão essa na qual o mundo é um palco e o seu teste de fé é negar a realidade, sonhar com o além-vida e converter os infieis para a sua crença. O ateu fanático também vê as coisas de maneira exagerada. Sendo ele o paladino defensor da razão, a única virtude que um ser humano pode ter. Assim como esses dois, o agnóstico também pode ser fanático. Evidentemente, é esse o caso dos “sem opinião”. Eles também têm uma visão romântica do mundo, em que este está em uma guerra ideológica entre teístas e ateus e eles, os agnósticos, são os únicos seres sábios e iluminados que se distanciaram desse conflito para pensar livremente a respeito do mundo. Todos os três exemplos de fanáticos se mostram como pessoas simplórias. Estão sempre na constante tentativa de se destacar dos demais, colocando todos no mesmo saco e eles, como seres acima de qualquer debate.

Mas tem algo pior no time dos “sem opinião”. Uma desvantagem adicional. Ao passo que ateus e teístas, mesmo os fanáticos, têm ao menos sobre o que se posicionar, os “sem opinião” sequer têm isso. Como eu disse anteriormente, é um esforço constante em não tomar partido. São pessoas inteligentes o suficiente para admitir que religiosidade e racionalidade não conseguem conviver juntas. Percebem que deus é algo que foge à lógica e à razão. Mas têm medo de admitir que não acreditam em deus. Claro, pois, se algum deus existir, eles estarão seriamente lascados.

Não ter opinião é algo perdoável somente sob o estado da ignorância. Mas à medida que nos informamos mais sobre um assunto, é recomendável nos posicionarmos. Ter opinião não é sinal de fanatismo, mas sim de sinceridade frente aos seus conhecimentos. De que adianta termos conhecimento, se não colaboramos para melhorá-lo?

Entre ateus, um dos debates mais recorrentes gira em torno dos obstáculos psicológicos que atrapalham a transição da crença para a descrença.

É unânime que o maior motivo é o medo da morte. Mas eu falarei sobre este obstáculo em particular em outros textos, pois exige uma discussão maior. Neste texto falarei sobre a descabida fama de fundamentalismo atribuída aos ateus em geral.

Eu entendo as pessoas que não se consideram ateias justamente por este motivo. Muitas se dizem “agnósticas”, outras dizem “não acreditar em nada”. No imaginário popular “ateísmo” está associado com “negação” e não com “dúvida” ou “ceticismo”. Chego até a ouvir coisas como: “Não gosto que me chamem de ateu. Eu simplesmente não acredito em deuses.”

Pois ateísmo é justamente isso, é a descrença em deuses. O problema já começa no sufixo. “Ismo”, uma ideologia, um grupo, um plural. Mas é difícil definir ateísmo como uma ideologia. Da mesma maneira que não nos sentiríamos muito tentados em definir alguém como um militante do “aunicornioísmo” simplesmente por não acreditar em unicórnios.

Claro que eu seria muito ingênuo em comparar, no seco, deus com unicórnios. Existem muitas semelhanças, mas, como toda a analogia, têm suas diferenças. A principal diferença é que a crença em deus se tornou tão ampla que a tratamos como o default. O que entendemos por “normal” se baseia na maioria. Se 90% da população humana fosse perneta, os portadores de um par de pernas seriam “aberrações”. No mundo real, dizemos que as pessoas com apenas uma perna são “pernetas”, mas não precisamos de um termo para as que possuem duas, pois elas são o nosso “normal”. E a situação não é diferente para a descrença em deus, muitas vezes tratada como algo excêntrico, um desvio, uma anormalidade (e de fato é, sob o ponto de vista estatístico).

Outro problema seria a associação histórica entre ateísmo e negação. Em séculos anteriores, um ateu normalmente era alguém teimoso. Não existia toda essa quantidade de informação facilmente disponível. Outros ainda defendem que o prefixo “a” de “ateu” pode e deve ser interpretado como negação. Mas duvido que defenderiam o mesmo para “agnóstico”. Eles seriam o que, afinal? Seriam “negadores do conhecimento”?

Mas a atual associação feita entre ateísmo e fundamentalismo deve muito à deturpação causada por certos crentes, estes verdadeiramente fanáticos. Nomes como Dawkins, Hitchens, Harris, Dennet e até mesmo Sagan aparentemente despertam mais ódio do que Lúcifer e Judas. Esses dias, em um debate no Fórum Ateus.net, apareceu essa charge aqui:

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Isso resume perfeitamente a versão cômica e degenerada que muitos teístas fanáticos pintam dos ateus. O ateu da esquerda comete terrorismo intelectual dizendo que “não há como fugir do universo” (sabe-se lá o que o autor quis dizer com isso). O ateu do meio preenche o estereótipo mais popular no imaginário crente, o arrogante detentor da verdade absoluta. Um terceiro ateu se limita a pregar o amor de Darwin em mais uma caricatura descabida.

Agora eu pergunto: Você já viu algum ateu fazer qualquer uma das coisas retratadas na charge?

Certamente não. Eu pelo menos nunca vi algo assim. Mas vi algo parecido, feito não por ateus, mas sim por crentes. E é aí que está a grande ironia.

A sátira feita sobre os ateus usa elementos típicos de um… Crente fanático!

O ateu da esquerda fala sobre o universo exatamente da mesma maneira que um crente fundamentalista fala de seu deus vingador. O segundo ateu cita um interessante fato sobre a cosmologia justamente como um cristão ou muçulmano fanático citaria um versículo de seu livro sagrado. E o terceiro espalha o “amor de Darwin” da mesma maneira que um cristão o faz com Jesus.

A charge se transforma em um reconhecimento do ridículo. Assim como boa parte da argumentação teísta encontrada pela internet, carente de conteúdo e lotada de falácias. Convenhamos, é muito intrigante que alguém critique um grupo retratando-o com atributos característicos do seu próprio. Imagine um macumbeiro que, na tentativa de sacanear os católicos, faça uma charge na qual um padre está prestes a despachar uma galinha preta.

O que poucos percebem é que o ateísmo cético é uma posição bastante neutra. Aliás, irritantemente neutra para muitos. Tão neutra quanto a descrença em fadas. Um ateu crê no ateísmo no mesmo grau que um banguela escova os seus dentes. É algo tão neutro que “simplesmente não há”.

Eu queria encerrar esse texto com uma questão deveras relevante para quem quer que acredite em fundamentalismo ateu.

Existe uma boa razão para um ateu ser fundamentalista?

Bom, muitos sequer conseguirão imaginar uma boa razão para ser ateu, que dirá um fundamentalista, mas pensem. Um teísta temente a um deus pai vaidoso e vingador tem uma boa razão para ser fundamentalista. Basta piscar torto e terá um castigo eterno e sofrido para amargar. Mas o que puniria um ateu? O que ele ganharia sendo fundamentalista?

Além do conforto de uma nuvem, de um certo sentimento de paternalismo e da expectativa do impossível, o que exatamente esperamos de Deus? A muitos, algo mais: a partir do momento em que se notou ser possível aliar os mecanismos do capitalismo às engrenagens da fé — empresa que precisou mais de publicidade que de engenharia —, surgiu a Igreja. Fundada sob um solo lamacento, mas escorada por firmes dogmas, conseguiu se perpetuar porque, no mundo, o número de tolos é inversamente proporcional ao número de oportunistas. Estes sempre foram uma pequena parcela, mas conseguiram levar a cabo o encilhamento das muitas bestas. Escusado seria dizer que ainda conseguem; não citaremos nomes, pois ma(is )cedo ou mais tarde nossas lembranças nos ajudarão a rememorar o óbvio.

Fato é que, na triste atualidade em que vivemos, o paternalismo, a expectativa do impossível e mesmo o conforto delirante de uma nuvem são garantidos pela retórica anêmica daqueles que souberam aliar o medo das massas à cobiça glauca do cifrão. O oportunismo não tem limites. E não tem limites nosso pensamento quando o assunto é trazer à superfície hipóteses para entendermos como, ainda hoje, presenciamos a transformação das pessoas e da fé em simples mercadorias. E é na Bíblia, este best-seller, que estão os bosquejos trêmulos que abalizam o ofício dos agiotas da fé. Que, é certo, trabalham às avessas: a eles pede-se salvação; ao povo, dinheiro. Nesse ínterim, o que observamos hoje em dia? Um fundamentalismo sem o menor fundamento. Nesse caso, o que torna isso ameaçador? Ninguém mostrar algo de fundamental.

Seja na contemporaneidade, seja no passado, não podemos deixar de evidenciar algumas possíveis releituras em se tratando da história das religiões. E, particularmente falando do cristianismo, como nos esclareceram os historiadores a denominada “Trindade” foi, de fato, formada por três pessoas: Tertuliano, que inventou; Atanásio, que defendeu; e Constantino, que decretou. Talvez a mesma trindade ainda exista, ainda que com algumas modificações técnicas; ao que parece, ainda se forma por três sujeitos, quais sejam, o Pusilânime (que concebe band-aids metafísicos para curar os traumas que a ciência imputou à fé), o Tolo (que ampara o Pusilânime em sua tentativa de desfazer contradições) e o Imbecil (que estabelece a continuidade da sandice). E, resta-nos um comentário talvez satírico: a levar a sério a Santíssima Trindade — façamos, ao menos, um esforço —, seria abusivo de nossa parte considerar o universo uma espécie de empresa familiar?

Razão comercial ou não, entendamos a questão como mera retórica. Mas continuemos a discorrer sobre o fato. E, livres para tal, adicionemos a dúvida: teriam as muitas igrejas atuais o caráter de franquias à McDonald’s? Uma coisa é certa: sabemos bem que não é por acaso que encontramos com certa facilidade porta-vozes de Deus. E nisso não haveria qualquer problema, não fosse a questão do copyright — afinal, os royalties estariam sendo pagos a quem, por direito, os merece? Na hipótese altamente provável de que foram os seres humanos que criaram Deus à sua imagem e semelhança, fica outra questão: quando receberemos nossa percentagem? Mas talvez estejamos desinformados e, passados mais de dois mil anos, a ideia já pertence ao domínio público.

E o motivo de tudo isso?, poderia o atento leitor perguntar. A nós restaria a tentativa de uma resposta: houve, há e haverá Deus em todas as culturas — queiramos ou não — enquanto houver umbigos que se satisfaçam com aberrantes incoerências; assim como houve, há e haverá quem, disso, tire proveito — pois o homem é, além de um animal político, um animal ganancioso (e isso Aristóteles esqueceu-se de dizer). Mas não é de nós que devem esperar lavagens cerebrais ou de dinheiro. Nossas ideias, nossos argumentos, estão aqui, límpidos como são; para aceitá-los — bom senso (sempre) em punho — é questão de sensatez. E assim advertimos, mesmo em risco de sermos desprezados, que na realidade Deus não passa de uma caricatura daquilo que os homens gostariam de ser — não fosse a predisposição humana, e natural, em tal espécie conseguir ser tão somente o avesso de suas ilusões. Ilusões que, metafísicas, resistem feito impulso cego, livres da ação do darwinismo que, fosse válido para o caso, há muito teria descartado todos os traços estapafúrdios que esboçam a silhueta intelectual dos homens.

Por isso — e por muitos outros motivos —, desculpem-nos, mas não nos peçam para n)os levar a sério.

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