Tag Archives: Teologia

Dentre os sistemas de crenças, o politeísmo tem um traço mais universal, mais humanizado, por assim dizer. Não há motivo aparente para que imaginemos primeiramente um só agente por trás de fenômenos tão diferentes, como a mudança das estações ou o controle patológico – ambos tão fundamentais em sociedades primitivas à mercê dos movimentos e das intempéries naturais.

Devemos levar em conta que não há saltos maiores do que a nossa imaginação pode nos dar. Mesmo as figuras mais estonteantes, como a Quimera ou o Pégaso, não passam da montagem de características de coisas ou de animais diferentes fusionadas em um só ser. Em nosso tempo, encontramos esse mesmo processo no mito do Chupa-cabras, por exemplo, ou na incrível semelhança entre os retratos falados de extraterrestres e o desenvolvimento fetal do ser-humano.

Quando examinamos as antigas mitologias que chegaram até nós, conseguimos relativamente bem destituir os mitos de todas as alegações extraordinárias para encontrarmos traços humanos relacionáveis. Mesmo sendo impossível que alguém seja tão miraculoso quanto Jesus – para citar um dos mais famosos em nossa sociedade –, podemos fazer o exercício mental de imaginarmos um agitador social endeusado pela tradição oral.

O monoteísmo, portanto, parece advir de um pensamento abstrato mais pormenorizado, que tira dos mitos a maior parte das características relacionáveis. Invariavelmente a figura central continua com traços antropomórficos – como o cuidado paternal ou a liderança tribal –, mas se torna impossível realizar o mesmo exercício mental que faríamos com os deuses gregos, como Zeus ou Apolo.

Isso não quer dizer, contudo, que o deus bíblico seja monoteísta desde suas origens. Há boas razões para acreditar que os relatos orais do antigo testamento deem conta de uma monolatria, isto é, o reconhecimento de outros deuses com o monopólio de adoração, como o segundo mandamento nos faz interpretar: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo, 20:3). Assim, muito mais do que refinamento teológico, o deus abraâmico surge como brilhante estratégia política para manter a coesão interna de um grupo nômade e para minar a influência externa sobre sua tribo.

É muito depois, com os teólogos medievais, que a ideia atual do monoteísmo cristão começa a se desenvolver, mas não sem seus ajustes. Grande parte da tradição católica foi incorporada dos mitos pagãos da Europa, gerando um panteão extraoficial no que deveria ser centrado em um só deus. Há toda uma variedade de santos, beatos e outras classes hierárquicas que podem interceder pelos fieis e a quem se atribuem milagres.

“Não são deuses”, afirmariam os apologéticos. No entanto, é óbvio que não faz diferença alguma como o grupo deseja nomeá-los. Fato é que têm todas as características dos mesmos deuses e semideuses que habitaram os panteões politeístas. Também não procederão as alegações das ramificações evangélicas ou protestantes de que isso é uma falha católica, pois a própria noção da trindade demonstra arquétipos politeístas.

Também não procederão porque pululam os exemplos – ambos no antigo e no novo testamento – de homens comuns com poderes miraculosos, desde Moisés e os antigos profetas, até os apóstolos evangelizadores e Paulo. São vistos como emissários divinos com a missão de espalhar as boas novas ou simplesmente reafirmar a fé no deus ausente em corpo, mas o eufemismo não consegue disfarçar os traços politeístas da tradição oral.

Chegamos, então, à visão abstrata do deus único, mas ele não é mais a expressão das crenças primitivas em agentes; é, ao contrário, o trabalho de teólogos e de filósofos que dedicaram seu tempo a fim de conciliá-lo com as descobertas subsequentes, tentando fiá-lo à lógica e à metafísica. Não é por acaso que essa versão racionalista não tem apelo massivo, pois de que adiantaria rezar pela intercessão de uma figura que não nos atenderá ou que, dependendo da base teórica, sequer é senciente?

Na história da teologia, portanto, passamos de deuses interventores a deuses que apenas impulsionaram o início de tudo. Obviamente, o fato de postularmos apenas um deus como o agente por trás do começo de tudo deve-se muito mais à herança cristã do que a conclusões filosófico-teológicas. Assim, resolvemos – em parte – a questão da reza, mas não a da reverência; e muito menos resolvemos a questão do politeísmo popular: se antes era cultuado em altares próprios a deus(es), hoje reside na cabeça de cada crente em sua abstração conceitual.

Privados de uma definição concreta e sem aderir ao escrutínio teológico, cada fiel cria o seu próprio deus, selecionando características convenientes sem abrir mão da palavra plurissignificativa, pois ela mantém o grupo coeso sob a crença em deus(es), não importando o quão diferentes sejam. Evidentemente, continuam fora – e vistos com os piores olhos possíveis – aqueles que simplesmente não criam ou não creem em figuras transcendentais.

***

Para saber mais, sugiro a análise de James Fieser sobre os textos de Hume – além dos próprios textos, é claro – que tratam do assunto. O artigo está disponível em inglês no endereço http://www.iep.utm.edu/humereli/#H2. Último acesso em 15 fev. 2011.

Ridendo castigat mores. A máxima latina, que significa “rindo castigam-se os costumes”, foi adotada por, dentre outros, Jean-Baptiste Poquelin (vulgo Molière) e Gil Vicente, dramaturgos que faziam de suas peças ocasiões para evidenciar à plateia traços caricatos e criticáveis da sociedade. Seguindo com esse adágio — mas com uma pequena mudança para Ridendo castigat fidem, ou “rindo castiga-se a fé” —, esbocemos alguns comentários um tanto quanto (im)pertinentes. Afinal, se o que as religiões nos divulgam é geralmente um conjunto de ideias estapafúrdias e risíveis, é justo que também tenhamos a chance de fazer o mesmo. Não que tenhamos a mesma fértil imaginação daqueles que pregam palavras supostamente sacras, imbuídas de ideias genuinamente caricatas; não, não temos imaginação suficiente. Mas ao menos temos a sinceridade a nosso lado, e uma boa dose de sarcasmo.

Seja como for, reza a lenda que somos uma espécie sapiens, excessivamente sapiens. Aparentemente. Uma espécie que cobiça desvendar a verdade, seja lá o que a palavra signifique de fato; uma espécie que se diz especial porque talvez ainda não tenha descoberto a importância soberana dos micróbios — tão ou mais relevantes ao mundo do que nós — como a bactéria Propionibacter shermani, douta na arte da produção do queijo suíço (que, aqui, é uma bela metáfora para qualquer dogma religioso: saboroso, mas cheio de furos). Talvez o pior veneno ao homem seja a sua própria ideia de que seja o auge da cadeia evolutiva; embora tenha alguma razão, o pedantismo que disso advém o degenera.

E em sua busca incessante por verdades, por respostas, por serenidade, diante de um espelho deformado esgota-se em desculpas e pretextos os mais aberrantes. Os olhos da razão, se enxergassem, certamente notariam algo próximo dO Grito de Edvard Munch. Enoja, nesse sentido, as tentativas (ou tentações?) de decifrar o homem, o mundo, o cosmos a partir de nossas próprias fantasias; fazendo coro a Henry Miller, podemos dizer que “talvez não se descubra o segredo do universo num cu, mas seria muito mais interessante que o estudo de seu próprio umbigo”[1]. É a razão, pois, a grande culpada por eventualmente ir ao toalete; em sua ausência, quão humanos podemos ser… Ah!, a razão, esta que Martin Luther (o teólogo, não o King) chamava carinhosamente de Fraw Klüglin die kluge Rur — ou, em bom português, “dona sabida, a sábia puta”[2].

Fato é que enquanto trouxermos, dentro do crânio, o circo (de horrores?) que é nosso cérebro, nada haverá para fazer que não seja assistir ao espetáculo. O que é urgente, no caso, não é sabermos se há vida inteligente em outros cantos do universo; necessário é descobrir, primeiramente, se há vida inteligente aqui, nesta caricatura de astro. Depois, ora pois, partamos para outras questões também relevantes. Por exemplo, a de saber se há ou não há deus, ou deuses, ou deusas; a propósito, visto que existem n divindades no mundo, sejam elas “vivas”, extintas ou em vias de, é de se presumir que os crentes praticam em demasia o método da tentativa e erro. Um dia, quem sabe, acertam. Um dia… Pois agora o que se observa são mentes paradas que, por raramente terem ideias plausíveis, se fossem computadores estariam com o cérebro no screen-saver; se fossem televisores, no stand-by.

O interessante, nisso, é ainda hoje encontrarmos homens já formados, mulheres já maduras, pessoas que, já crescidas, ainda acreditam na salvação; e ainda troçam das crianças que esperam, em dezembro, a visita do bom velhinho. O que se torna difícil de compreender é que tais pessoas, quando crescem, abrem mão de Noel, mas não de Deus. Poderíamos imaginar que o espírito natalino seria como o sarampo ou a catapora: se já se teve quando criança, não se volta a contrair; e, no melhor dos casos, poderíamos idealizar que o mesmo ocorresse com a ideia de Deus. Mas, como se nota, esta não é uma simples catapora; é, antes, um vírus semelhante ao da gripe, que sofre mutações para se adaptar às circunstâncias.

Mas deus — ou Deus, como preferir —, sentimos muito por informar, não existe. E há uma boa prova para isso: se Ele existisse, se existisse e se fosse realmente bom e piedoso, haveria arquitetado um mundo com ar condicionado. E nós, assim como Nietzsche, só acreditaríamos em um deus que soubesse dançar — de preferência um tango argentino. É-nos impraticável, considerados esses critérios, acreditar na existência de deus; em qualquer um dos milhares que já passaram pela mente humana. Ainda que a Teologia — essa espécie de coitus interruptus pela qual (ou com o qual) nunca se chega verdadeiramente a uma verdade — venha tentando há séculos explicar a validade de sua hipótese (que só existe enquanto mentira), não podemos digerir o eixo-badeixo que é tal conceito. Não vivemos em Cucolândia das Nuvens; de lá, na verdade, emigramos. Talvez seja por isso que nossos critérios para chegar à verdade — ou a algo próximo disso — sejam bastante diferentes do critério empregado pela religião (algo como “par ou ímpar” ou congênere). Afinal, não é porque somos pessoas normais, naturais, humanas, comuns, que devemos ser lugares-comuns.

Desse modo, a nós as ingênuas fantasias semianalfabetas perdem seu efeito quando notamos que possuímos miolo — que de fato é mole, mas não o é conotativamente. Nossa postura é outra, não aquela seguida por muitos — que consiste no ato de segurar, com uma mão, um grosso e pesado livro que não entendem (ainda que tenham passado a vida inteira a estudá-lo), e com a outra a segurar outro livro, um de páginas em branco que é, afinal, sua cabeça. Não, definitivamente não somos de tal espécie — ainda que sejamos, como eles supostamente o são, sapiens. Não somos daqueles que dão graças quando recebem uma bênção, mas ignoram seu deus quando não carecem de auxílio. É por esse motivo em particular, e por outros mais, que a ideia de deus acaba por se assemelhar ao papel higiênico: só nos lembramos de sua existência quando dele, em desespero, precisamos.

Mas paremos por aqui, pois muito já se escreveu a troco de nada. E se as carolas e os beatos nos condenarem por termos, nestas linhas, trazido alguns sorridentes gracejos, seria interessante que pensassem melhor (perdoe-se a contradição) — pois, ora, caros religiosos, foram vocês que começaram…

*   *   *

Notas

  1. MILLER, Henry. Opus pistorum. New York: Grove Press, 1941.
  2. LUTHER, Martin. Apud NIETZSCHE, Friedrich. Zur Genealogie der Moral; eine Streitschrift. Frankfurt: Inseln Verlag, 1984.