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Para não confundirmos nosso interlocutor, geralmente usamos – ou tentamos usar – as palavras da forma mais clara possível. A menos que seja nossa intenção, evitamos quaisquer ambiguidades que possam prejudicar a nossa comunicação. É particularmente mais fácil quando a conversa é instantânea e há um mecanismo de correção para eventuais falhas. No entanto, a experiência de escrever um texto exemplifica bem a dificuldade em comunicar com total eficiência.

As leis, de forma geral, são extremamente dependentes da linguagem usada. Uma vírgula fora do lugar muda o sentido de forma tal que o objetivo inicial se torna a exceção, de acordo com a redação. Os códigos penais – para citar o exemplo mais drástico – precisam de verbos diferentes para cada crime previsto. Assim, eles pretendem abarcar cada fato fundamental da realidade com uma denominação específica.

Tentemos, num exemplo hipotético, alargar essa ideia. Imaginemos que o universo esteja completamente parado, como em uma fotografia, e agora teremos a missão de dar um nome diferente a todo e qualquer fenômeno que conseguirmos distinguir, não importando a escala de tamanho nem as ordens aparentes de repetição.

Comecemos com algo simples: há aproximadamente seis bilhões de seres-humanos em nosso planeta e, a princípio, podemos nos referir a eles simplesmente como “seres-humanos”. Mas lembremos que nossa missão é similar àquela do legislador penal, então, precisamos dar uma denominação única e inconfundível a todos. Uma boa ideia seria usar números de série, que começariam do zero e iriam até o último indivíduo vivo, no momento de nossa foto.

O trabalho já parece hercúleo, mas ainda temos que ver as partes que constituem esses indivíduos. Para demonstrar a dificuldade que teríamos ao aumentar o nível de exigência classificatória, somente uma molécula de DNA possui aproximadamente três bilhões de pares de bases. E lembremos que toda essa análise diz respeito somente a um indivíduo, enquanto nossa missão se extende a todo o universo.

Esqueçamos as dificuldades iniciais e partamos para o fim de nossa jornada: conseguimos, finalmente, elaborar um número de série para tudo o que nos propusemos a fazer, desde a escala macroscópica dos buracos negros até além do comprimento de Planck. Teríamos orgulho de nossa empresa e ficaríamos felizes com o trabalho bem feito. Logo depois, a fotografia mover-se-ia por um intervalo de tempo não maior que um femtossegundo e teríamos de refazer tudo outra vez, pois nosso nível de exigência é tão alto que uma simples mudança na menor partícula possível acarreta uma diferenciação digna de ser contemplada.

Como uma conclusão bastante plausível, podemos simplesmente dizer que a linguagem não toca a realidade. É apenas uma maneira que encontramos de nos relacionar com o mundo ao qual pertencemos. É, talvez, a maior das ficções que guiam nossa existência e sem ela não teríamos alcançado o menor grau de nossa sociedade atual. Parece óbvio concluir, mas a linguagem não é o mundo.

No fundo, qualquer tipo de linguagem se baseia num valor axiológico arbitrário que só tem sentido a posteriori. É uma aproximação grosseira que só funciona quando dois ou mais indivíduos concordam sobre as regras de uso. Toda a nossa lógica é baseada na relação desses valores arbitrários. Se ela funciona, é porque desistimos dos estudos zetéticos que permeiam o porquê dessa valoração e partimos para a dogmática do que precisa ser feito de maneira prática.

A crescente expansão do universo evidenciada pelo afastamento das galáxias entre si fez aventar a possibilidade de um momento muito anterior no qual toda a massa estaria unida em um único ponto supercondensado que, por alguma razão, explodiu e gerou o que conhecemos hoje como leis da física.

Esse afastamento pôde ser observado por um processo chamado de “desvio para o vermelho” (redshift, no original inglês) [1]. Para um emissor e um receptor de luz estáticos, a frequência da onda eletromagnética é sempre a mesma e, por isso, conseguimos identificar uma cor que lhe é característica. Para emissores e receptores dinâmicos entre si, no entanto, há um desvio de frequência que dá a impressão de mudança de cores. Se o emissor se move em direção ao receptor, este desvio vai para as faixas eletromagnéticas de maior frequência, fenômeno conhecido como desvio para o azul. Quando o emissor se afasta do receptor, o desvio se dá para o vermelho.

É com base nesse exame espectrográfico que podemos medir a velocidade de expansão do universo. Para tal, usamos como medida padrão o desvio para o vermelho de quasares [2], por serem os mais elevados e, portanto, os mais distantes da Terra. Alguns quasares se afastam da Terra com velocidade aproximada de 90% da velocidade da luz. Os mais distantes se encontram a aproximadamente 10 bilhões de anos-luz de nosso planeta.

Voltando à nossa gênese: depois da rápida expansão inicial, sugiram os elementos mais leves da tabela periódica, fato observável até hoje pela sua proporção: hidrogênio e hélio, os dois mais leves, constituem cerca de 95% de toda a massa bariônica do cosmos [3]. Já os elementos mais pesados surgem da fusão dos mais leves, geralmente no interior de estrelas. O nosso Sol [4], por exemplo, fusiona dois prótons (reação próton-próton) de hidrogênio em um núcleo de hélio, liberando dois pósitrons, dois neutrinos e uma quantidade massiva de energia, tão essencial para a vida na Terra.

No entanto, é no interior de estrelas mais massivas que o hélio é formado a partir de um ciclo de reações conhecido como carbono-nitrogênio-oxigênio [5]. A reação se inicia com a fusão de dois prótons de isótopos de carbono, nitrogênio e oxigênio, que atuam como catalisadores da reação principal, liberando dois neutrinos carregados de energia que escapam da estrela, e dois pósitrons, que se anulam imediatamente com elétrons, liberando energia na forma de raios gama.

Quando estrelas gastam todo o seu material de fusão, seu estágio final dependerá de sua massa crítica. Prevê-se que nosso Sol tornar-se-á uma anã branca, condensando sua massa num volume muito menor do que o seu original. São nessas condições de densidade que podem se formar os diamantes estelares, com suas gigantescas pedras de carbono [6]. É da explosão dessas estrelas mais massivas que surge o carbono que, ao ligar-se a outros elementos na Terra, dá origem à química orgânica, sem a qual não teríamos vida como a conhecemos.

Uma outra forma de evidenciar o Big Bang é através de suas consequências. A explosão causada pela singularidade deveria deixar rastros perceptíveis até hoje, aproximadamente 13,5 bilhões de anos depois. Esse “eco” é o que conhecemos atualmente como radiação cósmica de fundo [7], que pode ser captada por aparelhos extremamente simples. Com esse olhar “arqueológico”, podemos chegar até o limite máximo posterior à singularidade, quando as quatro forças fundamentais da física – a saber, gravitacional, eletromagnética e nucleares forte e fraca – tiveram sua alvorada. Experimentos para saber o que há além disso estão sendo conduzidos no Conselho Europeu para a Pesquisa Nuclear (CERN, na sigla em francês) [8], através do Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês) [9], num túnel a 100 m de profundidade, na fronteira entre Suíça e França.

Além dos esforços de observação, temos modelos matemáticos que buscam explicar os momentos para os quais ainda não temos evidências diretas. Tais modelos tentam calcular, através de equações, as variáveis envolvidas nos processos que buscam analisar. É a partir desses modelos que podemos especular a posição de nosso universo [10] e o que existia antes do Big Bang [11].

Referências:

[1] <http://en.wikipedia.org/wiki/Redshift>. Acesso em 21 abr. 2010.

[2] <http://en.wikipedia.org/wiki/Quasar>. Acesso em 21 abr. 2010.

[3] <http://en.wikipedia.org/wiki/Abundance_of_the_chemical_elements#Abundance_of_elements_in_the_Universe>. Acesso em 2 maio 2010.

[4] <http://pt.wikipedia.org/wiki/Fus%C3%A3o_nuclear>. Acesso em 21 abr. 2010.

[5] <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciclo_CNO>. Acesso em 21 abr. 2010.

[6] <http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u28888.shtml>. Acesso em 21 abr. 2010.

[7] <http://pt.wikipedia.org/wiki/Radia%C3%A7%C3%A3o_c%C3%B3smica_de_fundo>. Acesso em 21 abr. 2010.

[8] <http://public.web.cern.ch/public/>. Acesso em 21 abr. 2010.

[9] <http://public.web.cern.ch/public/en/LHC/LHC-en.html>. Acesso em 21 abr. 2010.

[10] <http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=universo-dentro-buraco-minhoca&id=010130100413>. Acesso em 21 abr. 2010.

[11] <http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=o-que-existia-antes-do-big-bang&id=010130090105>. Acesso em 21 abr. 2010.

Em 1977, como parte do programa de exploração interplanetária batizada de Voyager,foi lançada na direção de Saturno a sonda Voyager I. Após completar a sua missão, em 1990, uma última foto foi tirada em direção ao planeta Terra, a uma distância de 6.4 bilhões de quilômetros. Esta fotografia ganhou fama e foi batizada de Pale Blue Dot (ou pálido ponto azul), que mais tarde inspirou a confecção de um livro homônimo do brilhante astrônomo norte-americano Carl Sagan, que na época fazia parte do projeto e havia solicitado que a imagem fosse capturada pela sonda.

Na imagem acima, destacada pelo círculo azul, o planeta Terra se apresenta como um insignificante ponto no universo. Olhos desavisados nem ao menos perceberiam sua presença. Não há nada de especial neste ponto luminoso, exceto para nós, que o habitamos. Este é o planeta no qual residimos e que serviu de testemunha para todos os feitos da humanidade. Não conhecemos (ainda) outra forma de vida, senão aquela que aflorou em solo terrestre.

Para nós, seres humanos, é fácil imaginar que todo o universo gira em torno de nossa jovem existência, de nosso planeta tão rico em vida, e tão facilmente desprezamos o fato que nada temos de especial neste colossal universo, senão o fato de que fomos afortunados o suficiente para proporcionar, em dado momento, que a célula primordial viesse a existir.

Dentre tantos planetas, só a Terra possui vida; logo deve ter sido obra de uma inteligência superior, diriam os crentes. Entretanto, sabemos que não é bem assim. Dentre bilhões de planetas que flutuam no nosso universo, não é nada impressionante o fato de a vida ter aflorado em ao menos um deles. Imagine que mesmo se a chance fosse de um em um milhão, ainda assim haveria uma alta porcentagem de favorecimento a alguns desses planetas.

É muito provável, ainda, que existam outros sistemas onde tal fato também se deu. Não é descartada a possibilidade de outros planetas que carregam em seu solo alguma espécie de vida extraterrena, que pode ser, ou não,similar ao que conhecemos por vida. Seja qual for a situação, nossa possibilidade de comunicação com tais seres se vê separada por anos-luz.

Me parece extremamente pretensioso que se atribua à uma força inteligente e infinitamente superior a criação de tudo o que existe, que deliberadamente o fizera com a única finalidade de servir de nicho para um grupo de humanoides, com a intenção de que estes últimos louvassem e erguessem templos em homenagem a este criador vaidoso e ciumento.

Entretanto, como nos lembra bem Carl Sagan, apesar de insignificante, este é o nosso planeta. É tudo o que temos. Não conhecemos ainda meios de migração para outros planetas, e não há qualquer previsão que torne tal acontecimento possível. É preciso cuidar do que temos, pois é o único que temos, e deixar de lado todas as futilidades e puerilidades metafísicas criadas por desocupados religiosos, inconformados com uma existência simples na Terra, e que sob a pretensão de serem vistos como humildes servos de um ser maior, criam a ilusão de uma vida póstuma, elevada e superior.