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Já foi dito aqui, muitas vezes, que um ateu não crê que deus não existe. Ou ao menos não que isso seja necessário para caracterizá-lo como ateu. Muitos não-ateus gostam de lembrar que os ateus também creem em alguma coisa, como se crer fosse uma atividade proibida ao grupo. Obviamente, nada impede um ateu de crer em algo que não seja um deus. Não falo aqui das crenças mais ordinárias, como acreditar que tem que estar no trabalho daqui a meia hora ou acreditar que o Brasil é banhado pelo oceano Atlântico. Darei um exemplo de uma crença muito comum entre nós, ateus, seguindo a definição mais restrita de “crença” com a qual denotamos a crença dos, vejam só, crentes.

A crença no livre-arbítrio. A crença no livre-arbítrio talvez não esteja no mesmo patamar da crença de que Jesus nasceu de uma virgem, mas está lado-a-lado com a crença na vida eterna. Não é uma crença tão ingênua quanto a virgindade de uma mãe; no entanto, com certeza é muito esperançosa. Eu acredito, ou tento acreditar, mas o meu lado cético – que está preocupado em acreditar no que é real – briga com o meu lado esperançoso – que procura acreditar no que agrada – e minha crença não fica muito definida. Óbvio que, quando me refiro a ateus, é apenas uma parcela que acredita em livre-arbítrio.

Fala-se de maneira muito leviana no livre-arbítrio, de maneira ainda mais leviana sobre “liberdade” (eu gostaria muito que os norte-americanos me explicassem que “liberdade” é aquela pela qual eles lutam; nunca entendi direito). Adianto que é um assunto “levemente pesado”, se me permitem a contradição. Já falei sobre morte, defendi que deuses não existem (ou que não é lógico acreditar neles, vale esclarecer), mas falar sobre liberdade é mais pesado. Esclarecendo, falo de “liberdade” nesse texto como sinônimo de livre-arbítrio, até porque, se o livre-arbítrio não existe, então não existe qualquer forma de liberdade. Pensar que não somos livres para escolher, para desejar, é mais incômodo do que pensar que deixaremos de existir ou que não há deus. Na verdade, perto do livre-arbítrio, questões como “deus” e “morte” parecem até brincadeira de criança.  Provavelmente não existe deus algum nos protegedo nem garantia de vida após a morte, mas  o que importa é que vivemos e que, acredita-se, ajudamos a construir um mundo melhor. Desacreditar no livre-arbítrio implica acreditar em uma existência pela qual somos meros espectadores, passivamente gostando ou odiando os eventos que se sucedem.

Pegarei um exemplo banal para ilustrar o problema. Imaginemos que você vai a uma loja e deve escolher uma entre duas camisetas. Uma delas é amarela e a outra é azul. Você escolhe a azul. Ponto. Então você sai pela rua com uma camiseta azul, satisfeito com ela, imaginando que sua escolha foi boa. Tudo muito tranquilo até agora. Então você se lembra que, dias atrás, alguém te disse que a cor azul estava na moda. Veja como isso desvaloriza a sua decisão! No fim, o que te levou a escolher a camiseta azul foi apenas uma sugestão fútil sobre tendências da moda. Você imediatamente se sente uma ovelha em seu rebanho, uma ovelha vestindo uma camiseta azul. Talvez quem te disse sobre a moda da cor azul estava se beneficiando com o estouro de vendas de camisetas azuis. Então, só para se rebelar, você decide que talvez seja melhor comprar uma camiseta amarela e dar um “não” às tendências da moda e um “sim” à livre-escolha. Mas daí você se lembra que existe algo chamado “psicologia reversa” e que talvez a intenção era justamente a de fazer você comprar uma camiseta amarela. Como um pato, você caiu e começa a pensar se um pato de camiseta amarela é tão melhor assim que uma ovelha de azul. De um modo ou de outro, a sua escolha foi determinada pela alegação de que a cor azul está na moda.

Podemos supor que ninguém nunca te sugeriu nada e você comprou uma camiseta azul por achá-la mais bonita. Mas e por que você a acha mais bonita? Por que o azul te lembra a paz? Vai ver ele te lembra a paz pois é a cor de um céu limpo, ou porque lembra o mar, praia, férias. Nesse caso, a sua escolha não foi determinada por um interesseiro; foi determinada pela lembrança do mar e do céu que algum dia lhe represetaram paz. Fato é que ela não foi determinada por você e sim pelo que aconteceu em seu passado. Nossas escolhas não nascem espontaneamente no momento em que a realizamos; elas são consequências da carga de experiências que tivemos desde que nascemos.

Tudo fica muito mais leve quando falamos de camisetas e cores. Mas é claro que a questão se estende bem além disso. Aprendemos a ter orgulho de nossas escolhas, como a escolha da faculdade certa ou da esposa certa (ou do marido certo). Fazemos escolhas que consideramos erradas e ficamos imaginando como seríamos mais felizes se tivéssemos seguido um caminho diferente. Sem o livre-arbítrio, esses orgulhos e divagações são infundados. Como folhas boiando em um rio, onde nós somos as folhas e o rio é o meio em que vivemos, podemos ir parar em um lago limpo ou em um esgoto, mas não faz sentido se orgulhar por um ou se lamentar pelo outro. Uma existência sem deus ou sem vida eterna ainda é recheada de méritos, de glórias. Sem livre-arbítrio essas coisas se perdem. Termino o meu segundo texto sobre “morte” falando sobre a importância de deixar um bom legado. Digo naquele parágrafo que o legado é a eternidade concretizada pelos atos. Mas que coisa vazia seria se os seus atos não fossem escolhas suas e sim meras consequências inevitáveis. Darwin termina sua obra-prima dizendo “Há grandeza nessa visão da vida”, se referindo à crença de que todas as formas de vida surgiram de apenas uma, muito mais simples. E ele estava certo: há muita grandeza mesmo nessa visão da vida. Há grandeza na visão de um ateu também, não tenham dúvida, de uma vida sem deuses, uma vida que é bonita por si só. Existe igual grandeza em uma vida que tem um início e um fim, que deve ser aproveitada. Mas não, não há grandeza alguma sem livre-arbítrio.

Imaginem que hoje à noite uma pessoa vai bater na sua casa e lhe trazer uma notícia. Essa pessoa veio do futuro e viu tudo. Veio lhe dizer que a sua vida será medíocre e que você não chegou nem perto de realizar algum sonho seu. Pois bem, como não existe livre-arbítrio, a sua vida realmente será medíocre; quando confrontado com a opção de seguir uma via mais laboriosa e arriscada, você inevitavelmente negará em prol de uma mais confortável. Mas, se o livre-arbítrio existe, a mensagem dessa pessoa (muito importuna, por sinal) será apenas um incentivo para você ser um grande homem ou uma grande mulher. Isso demonstra de maneira mais clara o quão a descrença no livre-arbítrio é pior do que a descrença em deus ou na vida eterna. Tão pior que, pela primeira vez, eu espero sinceramente que alguém refute o meu texto com muita categoria, para que eu possa dormir tranquilo acreditando mais convictamente na liberdade de escolher.

Bom, para terminar, sem livre-arbítrio a vida é comparável a uma montanha russa. Na montanha russa, estamos presos em carrinhos que percorrem subidas e decidas. Como na nossa vida sem liberdade, as subidas e decidas não dependem de nossas escolhas e nossas emoções são determinadas em uma interação passiva na qual você apenas sente as consequências. Bom, termina o percurso da montanha russa, cheia de subidas, descidas, loopings e parafusos – todos eles lhe causaram uma gama de emoções diferentes. Medo, felicidade, alívio ou até mesmo enjoo. Não faria mesmo sentido se te descem parabéns por ter estado no ponto mais alto da montanha russa ou te consolassem por ter passado pelo mais baixo. Ninguém te perguntaria como você fez para dar todos aqueles loopings e ninguém dedicaria uma página na Wikipédia sobre “o parafuso que você deu naquela montanha russa”. Fazemos coisas semelhantes na vida real, como parabenizar e consolar, considerando os sucessos assim como os fracassos, e a analogia com a montanha russa mostra que essas atitudes não fazem tanto sentido assim. Mas talvez uma, e apenas uma pergunta seria relevante, tanto na vida como na montanha russa:

“O passeio estava bom?”

“Não há assuntos chatos, apenas escritores chatos.” (Henry Louis Mencken)

O que essa frase de Mencken ilustra é que todo o assunto, quando devidamente abordado, pode se tornar interessante. Eu vou um pouco mais longe e digo que todo o assunto se torna mais interessante na medida em que é contemplado o mais próximo de sua totalidade. Isso é algo que deveria ser dito aos atuais escritores de livros didáticos e professores de ensino fundamental e médio que abordam suas matérias de maneira demasiadamente superficial.

Para exemplificar o que eu estou falando, imagine duas aulas de física. Na primeira, os alunos de ensino médio estão tendo aula com um professor que não sabe muito da matéria. Física é um assunto aparentemente chato, os alunos estão preocupados com o vestibular, filmes, jogos, músicas e do sexo oposto, não com as forças físicas envolvidas no movimento de um carro sobre uma estrada. Mas estes alunos estão prestando atenção ao professor justamente porque ela sanaria uma de suas preocupações, o vestibular. É um sacrifício que devem fazer para serem recompensandos posteriormente. Para isso o professor improvisa musiquinhas com as fórmulas que eles devem decorar. E então a aula se segue com uma típica decoreba de ensino médio inundada de showzinhos e aborrecimento, na qual o maior momento de felicidade é quando toca o sinal que sinaliza término de aula.

Ainda temos a segunda aula. Uma turma que está aprendendo o mesmo assunto da anterior, porém, com um professor que domina o assunto como velejador domina o seu barco. Ao invés de obrigar os alunos a decorarem fórmulas ele insere em suas mentes a lógica e as aplicações de seus ensinamentos. Não os trata como meros recipientes vazios de conhecimento, prestes a serem preenchidos, mas sim como criaturas pensantes que precisam refletir sobre sua maneira de ver o mundo. Quando termina a aula, os alunos não pensam em musiquinhas de fórmulas, mas sim de como o mundo funciona e como é interessante entender isso.

Antes de eu seguir com a conclusão de minha parábola, saibamos reconhecer que uma aula não é mérito apenas do professor e que, dependendo do aluno, nem mesmo o mais sábio dos professores conseguiria incutir interesse ou mesmo o mais chato deles seria capaz de tirá-lo, caso o aluno já fosse um grande curioso.

Agora o leitor deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com a ideia de “mundo cinzento do ateísmo”, tão difundida pela sociedade. Bom, para explicar o que isso tem a ver eu vou entrar um pouquinho mais na analogia dos alunos de física e ficará bem claro o que eu quero dizer.

Imaginem que, durante as aulas, seja anunciado que a matéria “física” não cairá mais no vestibular. Para os alunos da primeira aula, isso significa que eles perderam suas preciosas manhas e tardes estudando algo totalmente inútil, afinal, eles não precisam daquelas musiquinhas para o seu objetivo. Os alunos da segunda aula certamente perceberão a perda que houve da importância das aulas de física. Mas o seu interesse pelo assunto não cessará da maneira abrupta com que cessou no primeiro caso, pois agora eles vêem a física como um assunto interessante, têm uma noção maior da área e conseguem visualizar a imensidão que é o campo de estudo da física. A semente da curiosidade foi implantada em suas mentes e não é um vestibular ou qualquer fator externo que eliminará a vontade de aprender. O sentido de aprender física não é imposto, vem de dentro.

Assim é o mundo de muitos ateus, incluído esse que vos escreve. Eu não vejo sentido na vida por ela supostamente ter sido arquitetada por um ser sobrenatural. Não acho que devo agir bem para ser recompensado pela mesma entidade. A beleza das coisas não é reflexo da obra de um suposto criador. Para o ateu em questão, o universo é digno de interesse devido a sua própria natureza, da mesma maneira que os alunos da segunda aula vêem no estudo da física um recompensa, e não apenas um meio de atingir a recompensa que seria externa ao aprendizado, no caso, passar no vestibular. Os alunos da primeira aula devem imaginar que tudo ficou vago e indigno de dedicação para os seus amigos da segunda aula, mas isso acontece tão somente porque eles não aprenderam a enxergar a parte interessante do assunto.

Para aqueles que ainda acreditam firmemente que a vida de um ateu é cinzenta pois não há sentido, eu digo simplesmente: sou ateu e minha vida não é cinzenta. Indo além, sou ateu, conheço muitos amigos que são, e suas vidas não são cinzentas. Muito pelo contrário, são pessoas bem dispostas, divertidas, abertas a diálogos e a ideias que divergem das suas. Não que eu ou essas pessoas sejam exemplos de como se deve aproveitar plenamente a vida (na verdade, algumas delas são) mas isso mostra que a nossa vida não é um mar cinzento de depressão e delírio. A grande maioria das pessoas aprendeu a ver a vida como uma extensão de algo maior, esse “algo” que muitos chamam de “deus” e, quando tiram esse “algo” sobra um resto que pode ser chamado de “nada” ou “quase nada”. Elas não sabem o quão estão enganadas. Reflitam profundamente sobre a existência de todas as coisas e perceberão que o mero fato de existirem já as tornam muito interessantes.

Quando revelamos sermos ateus para alguém de fé, é comum que questionem com expressões de indignação: “como assim, você não acredita em nada?!”. De fato, me falta a fé no sobrenatural e no inexplicável, e para a maioria de nós, é preferível a dúvida do que uma certeza fabricada e sem fundamento. Mas será mesmo que podemos dizer que não acreditamos em nada?

Para isso, me permiti pegar de empréstimo o título outrora utilizado por Bertrand Russell, que sabiamente dizia:

“Eu acredito que quando morrer, irei apodrecer e nada do meu ego sobreviverá. Mas me recuso a tremer de terror diante da minha aniquilação. A felicidade não é menos felicidade porque deve chegar a um fim, nem o pensamento e o amor perdem seu valor porque não são eternos. (…) Se não temessemos a morte, creio que a ideia de imortalidade jamais houvesse surgido. O medo é a base do dogma religioso, assim como de muitas outras coisas na vida humana.”¹

A existência, por si só, traz consigo uma carga de improbabilidade que a torna quase sagrada, sem que seja preciso criarmos fantasias acerca de seres sobrenaturais e universos fantástico post mortem. Como questionava Douglas Adams, “não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?”

Entretanto, a ausência de crença em deus não nos torna diferentes enquanto espécie humana. Nossos erros e acertos são similares. É bem verdade que temos uma postura diferente quanto à busca pelo conhecimento, em contraste com a entrega devota a respostas incoerentes, mas via de regra só se reconhece um ateu quando este expõe a sua descrença. Respiramos, comemos, amamos, desejamos… tudo na mesma intensidade.

Acredita-se que o ateu está condenado à punição de deus (seja ele qual for), por não acreditar. Me parece ser característica elementar dos deuses o egocentrismo ranzinza. Pouco importa se você foi um bom sujeito. Não acredita em deus? Está condenado!

Recentemente meu Estado, Pernambuco, foi atingido por uma terrível enchente que destruiu boa parte dos municípios interioranos. O Brasil inteiro se envolveu em uma bonita campanha para arrecadar doações para as vítimas. Os moradores do meu prédio também ajudaram a arrecadar tais mantimentos, e para sensibilizar ainda mais os seus vizinhos, criaram o slogan “aquele que oferece de bom coração, recebe em dobro de Deus”.

É ai que eu acho que reside a maior diferença entre ateus e religiosos. É preciso que seja ofertada uma recompensa divina para convencer uns aos outros a ajudar seus irmãos necessitados? É nisso que eu acredito. Acredito na ética como forma de estabelecer equilíbrio na sociedade; acredito que um ajudando o outro, estabelece-se uma harmonia e, quando você precisar, saberá que terá com quem contar.

Por fim, terminarei este meu texto com uma citação. Não de um grande filósofo ou cientista, mas de poetas e músicos canadenses da banda Rush, que resumem o meu pensamento:

Eu não tenho fé na fé
Eu não acredito na crença
Você pode me chamar de infiel.
Mas ainda me agarro à esperança
E acredito no amor
Isso é fé suficiente para mim.²

1. RUSSELL, Bertrand. No que acredito. LP&M. São Paulo, 2008.

2. I don’t have faith in faith/I don’t believe in belief/You can call me faithless/I still cling to hope/And I believe in love/And that’s faith enough for me.


II

Certamente, todos nós concordamos que a teoria da evolução ainda encontra alguns problemas. É uma teoria forte, porém incompleta. Ainda não se sabe explicar a origem da reprodução sexuada ou da célula eucariótica. A explosão do cambriano e como a vida se originou são lacunas que perduram até hoje. O que alguns não sabem é que essa mesma teoria não está em conflito com a maioria das coisas que acreditam estar. Isso é algo engraçado. Vejo pessoas dizendo que a evolução contradiz a biogênese, a entropia, a estatística, o bom-senso, mas raramente vejo essas pessoas atacarem onde a teoria realmente ainda não explica. Um exemplo disso está em processos de convergência presentes na natureza que, segundo alguns, contradizem a aleatoriedade da evolução.

Pois bem, segundo essas pessoas, uma mesma característica não poderia surgir independentemente em duas populações diferentes pois seria improvável demais. Para um fenômeno que ocorre essencialmente ao acaso, não seria possível uma estrutura, como a asa, por exemplo, surgir mais de uma vez em táxons distintos. Essa alegação se baseia na estatística. Para os seus defensores, dizer que a asa surgiu em vários grupos diferentes equivale a defender que um mesmo apostador ganhou na mega sena mais de uma vez. O melhor adjetivo para descrever esse comportamento tipicamente criacionista é “afobado”. Nomeamos uma estrutura considerando uma ou mais características que supostamente a designam. No caso das asas, seriam estruturas que permitem um vôo ativo e independente. Isso significa que qualquer estrutura que obedeça a essas definições pode e deve ser chamada de “asa”, independente do modo pelo qual ela alcança essas propriedades. Só que isso não implica que essas estruturas devam ser idênticas.

As asas são um exemplo didático, e até bonito, de como a crença na evolução como fundamentalmente aleatória é falsa. Na natureza existem leis bem estritas: qualquer coisa que não funcione muito bem estará apenas consumindo energia e a seleção natural ceifará tudo o que não for útil o suficiente. O que não significa que ela não premie, e muito bem, os improvisos. Dentre todas as estruturas possíveis de existir, pouquíssimas permitem o vôo, mas os caminhos para chegar a essas estruturas são bem mais diversos do que imaginamos à primeira vista.

Desenho das asas de aves e insetos. Notem que as diferenças são muitas.

Para começar, vamos analisar os grupos vivos que possuem asa, que seriam as aves, os morcegos e os insetos (Os pterossauros assim como algum possível grupo portador de asa desconhecido e extinto ficam de fora). Quanto às asas, todas são estruturas chatas e alongadas, quase ovais, que possuem flutuabilidade, força propulsora e arrasto. Sob o ponto de vista funcional, elas podem ser bem parecidas, mas anatomicamente as diferenças são muito maiores. As das aves podem ser entendida como um braço de um dedo só (na verdade, ainda tem o polegar, formando a álula) e com penas. Os morcegos possuem membranas interdigitais enormes, sendo as asas as suas mãos estendidas, por isso o nome “quiróptero” (asa nas mãos). E temos as asas dos insetos, que são bem diferentes das anteriores. São membranas finas e vascularizadas e, ao contrário dos vertebrados, nos insetos os músculos estão inseridos apenas no tórax.

Fóssil de Archaeopteryx

Mas como essas asas vieram a surgir é que é a parte interessante. São caminhos muito diferentes levando para o mesmo modo de locomoção. A origem das asas nas aves remonta à sua ancestralidade com os dinossauros, mais especificamente os terápodos (o grupo do velociraptor e do tiranossauro), chegando à espécie considerada como a ave mais antiga, que seria o Archaeopteryx. Seriam terápodos pequenos, leves, as penas seriam escamas modificadas. Essas penas estariam presentes não só no Archaeopteryx, como também em alguns de seus ancestrais terrestres. A função das penas em um dinossauro que não voava, ainda que pequeno, é uma incógnita. Mas devemos lembrar que nem tudo possui uma função em termos de sobrevivência, podendo as penas servir como display, seja para assustar predadores ou atrair fêmeas. O que muitos não sabem é que existiu uma porção de dinossauros com penas. Alguns deles possuíam muitas penas nas pernas traseiras e certamente muitas dessas linhagens de répteis penados foi extinta. Voltando aos Archaeopteryx, eles eram dinossauros muito pequenos, do tamanho aproximado de um pé humano, e não se sabe ainda se eles voavam ou apenas planavam. A hipótese atual para o comportamento desse bicho é que ele realizava vôos baixos e curtos, certamente para capturar animais voadores como libélulas. É a conhecida hipótese terrícola. Além de ser uma hipótese mais plausível, eu particularmente gosto muito dela, graças a um detalhe: ela lembra muito o começo do vôo dentro de nossa própria civilização. Como os primeiros aviões, o Archaeopteryx também não realizava vôos elaborados e extensos. O 14-bis voou apenas alguns metros, somente depois surgiriam aviões capazes de voar durante horas, percorrer continentes ou atingir velocidades supersônicas. Com as aves essa história é semelhante. Hoje existem aves que atravessam o planeta, pairam no ar e realizam rasantes em altíssimas velocidades. Um começo humilde, pouca coisa mais do que um mero salto, para enfim o vôo e todas as suas possibilidades.

Dumbo: inspirado pela história de sucesso dos insetos?

Para os insetos, a origem das asas é completamente diferente. As membranas que hoje são usadas para o vôo, antes eram usadas como termorreguladoras. Esse mecanismo não é novo. Para resfriar a linfa, o inseto a espalhava por uma membrana fina e a sacudia velozmente aumentando a troca de calor entra a linfa e o meio. Elefantes fazem algo análogo, irrigando as orelhas com sangue e abanando-as. O que os elefantes não conseguem é utilizar essas orelhas para voar (ao menos os elefantes reais, desconsiderando, neste caso, o Dumbo). É uma pena que não possamos conhecer a compreensão de mundo de um inseto, pois seria engraçado imaginar o quão perplexo ficou o primeiro inseto encalorado em seu primeiro vôo. E algo tão versátil, útil e poderoso quanto as asas, nascendo de um mecanismo prosaico de termorregulação. É como se os helicópteros tivessem sido inventados por um fabricante de ventiladores. Você pode imaginar a cena.

O que há de mais moderno em termos de "asas".

O ponto é: muitas pessoas veem na funcionalidade e na beleza da natureza um projetista infinitamente sábio e onisciente por trás. Tanta convergência, tanta eficiência só pode ser interpretada como obra de um designer inteligente. Bobagem. Não interessa o quão perplexos fiquemos com a complexidade de nosso mundo, sempre existe uma ótima explicação. Uma explicação mais completa, plausível e elegante, que só pode ser obtida através de muito estudo e muita perspicácia (sempre com uma pitada de  criatividade). Poderíamos encerrar a questão das asas como prova cabal de que existe um deus por trás das espécies e que ele sabe o que está fazendo, mas morreríamos sem conhecer as suas histórias evolutivas, interessantes e belas por si mesmas, como as próprias asas que deram origem.

A vida é um fenômeno interessantíssimo que, embora nossa intuição diga o contrário, teve um início e nunca mais parou. O que entendemos como vida em sentido estrito é aquele tempo de duração medido entre o nascimento e a morte de um indivíduo. No entanto, para que este indivíduo tenha nascido, tomando a nós mesmos como exemplo, foi necessário que um espermatozoide e um óvulo, ambos vivos, fossem unidos.

Para a panspermia [1], a vida na Terra é o resultado das sementes pré-bióticas que se encontram por todo o universo. Essas sementes teriam chegado ao nosso planeta através de metereoritos, enxergados como cegonhas cósmicas que levam os aminoácidos fundamentais a todos os cantos do vasto espaço sideral. É relativamente fácil encontrar metereoritos carbonáceos que possuam uma diversidade de compostos orgânicos maior do que a encontrada na Terra [2].

É uma hipótese intrigante, por mais que haja poucas evidências diretas para comprová-la ou refutá-la. A sua principal concorrente e paradigma mais aceito nas teorias de gênesis da vida é aquela que explica o seu surgimento a partir de reações químicas de elementos que existiam em abundância na Terra primitiva. Harold Urey e Stanley Miller [3], ainda nos anos de 1950, conseguiram sintetizar aminoácidos e outros compostos essenciais para a nossa existência a partir de compostos simples. É a face moderna da teoria da abiogênese, quebrando aquela sequência em direção ao passado na busca do ponto em que o não-vivo tornou-se vivo [4].

O ponto crucial que nos trouxe até este exato momento foi o aparecimento da primeira molécula autorreplicante. Essa capacidade comum a todos os seres-vivos é a base de toda a biodiversidade observável na natureza. Muito provavelmente, o RNA [5] primitivo é o ancestral de todas as formas atuais de codificação/decodificação de proteínas. Não só ele continua presente no DNA [6], molécula muito mais elaborada, como exerce funções fundamentais e específicas, dependendo do seu tipo, no processamento e na síntese de proteínas.

Iniciada a vida, há cerca de 3,5 bilhões de anos atrás [7], restaria agora explicar como ela se desenvolveu. O mecanismo de seleção artificial sempre foi um dos meios mais eficientes que o homem encontrou de manipular o meio-ambiente. Foi assim que conseguimos domesticar os cães, variantes dos lobos selvagens, criando a imensa variedade de raças, desde os graciosos poodle até os ferozes pitbull. Com base no mesmo princípio, cultivamos vegetais de acordo com nossas necessidades, escolhendo as sementes mais férteis de árvores que dão os melhores frutos.

Darwin [8] e Wallace [9], independentemente, chegaram à conclusão de que a natureza poderia agir de forma semelhante, selecionando os indivíduos mais aptos para uma determinada situação ambiental. Mesmo sem a função de um agente consciente, seria possível que indivíduos se adaptassem ao seu meio e, mais impressionante do que isso, que diferentes indivíduos, separados geograficamente, pudessem, ao longo de várias gerações, diferir de forma tão radical a ponto de se transformarem em espécies distintas.

É interessante notar que ambas as seleções – natural ou artificial – não têm um objetivo teleológico a longo prazo. A seleção artificial nos serve para a geração imediata e continuará nos servindo para as gerações futuras, mas isso não quer dizer que a geração atual só existe como meio para elas. De forma análoga, podemos fazer um exercício mental: uma mutação que seria benéfica para um futuro distante dificilmente passará no crivo imediatista da seleção natural, pois não apresenta vantagens para o momento em que a sobrevivência as exige.

Com base em análises tanto morfológicas quanto químicas e genéticas, é possível vasculhar o presente e o passado, relacionando todas as espécies das quais temos notícia com seus parentes e antepassados. A síntese desses dados pode ser expressa de forma gráfica em árvores filogenéticas [10], ou em sua forma mais ampla, conhecida popularmente como árvore da vida.

Referências:

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Panspermia

[2] http://en.wikipedia.org/wiki/Murchison_meteorite

[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Experiência_de_Urey-Miller

[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Abiogênese

[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/ARN

[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/ácido_desoxirribonucleico

[7] http://pt.wikipedia.org/wiki/Evolução_da_vida_e_formação_da_Terra

[8] http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin

[9] http://pt.wikipedia.org/wiki/Alfred_Russel_Wallace

[10] http://pt.wikipedia.org/wiki/árvore_filogenética

Da insatisfação I: Como surgiu o universo?

Este é o meu terceiro texto sobre o assunto “morte”. Pode até parecer que estou batendo na mesma tecla, mas é que o tema é complicado.
Complicado, porém não complexo. Temos dificuldade em aceitar a morte, pois ela parece fria demais. Mas compreender é fácil. Aliás, morte é um fenômeno desconcertantemente simples.

Nos textos anteriores, falei de como a ilusão da vida eterna era tentadora e da visão de um ateu sobre a eternidade. Mas não cheguei a falar da morte em si. Sempre quis falar da morte, pois existe uma ideia muito triste e negativa dela. Morte, no conceito popular, atrai ideias como:

Tudo o que está sobre este prato foi vivo algum dia. Essa é apenas uma maneira apetitosa de se enxergar a morte.

defunto, velório, caixão, escuridão, frieza, tristeza, perda, algodãozinho nas narinas, túmulo, despedida, enterro, herança (se for rico), saudade e mais tristeza. Muita tristeza, pois morte seria algo triste. Esse texto é um esforço meu para mostrar um lado mais amplo do conceito “morte” que, antes de ser triste, é bem irônico e simples.

Simples, pois entendemos “morte” como o término da vida. Esta última sim, é complexa. A vida é o inexplicável fenômeno da ordem surgindo e se sustentando em meio ao caos, é a reprodução e perpetuação, é a transformação rápida e explosiva, é o casulo da consciência. É o aglomerado de moléculas ricas em carbono, hidrogênio e oxigênio, entre outros. Moléculas essas muitíssimo mais complexas do que qualquer outra já encontrada. E a morte é o fim de tudo isso. Banalmente simples.

Sob o ponto de vista de um indivíduo que ama a própria vida, a morte parece inconcebível. Mas se formos imaginar uma entidade capaz de analisar o mundo tal como é e filosofar sobre ele, a vida certamente a assustaria muito mais. Os olhos da suposta entidade correriam pelo universo avistando estrelas, planetas, cometas, buracos negros, tudo isso intermediado por longos períodos de um vazio imenso. Depois de milhões de anos essa entidade pensadora certamente estaria muito entediada. Mas, se por alguma improbabilidade histórica, ela viesse a repousar seus olhos sobre a Terra e ver o que paira sobre sua superfície, tenho certeza de que ficaria chocada. Suas minúcias, seus milagres, sua rapidez a deixariam perguntando “o que diabos é isso que está na superfície, afinal?”. Sequer repararia que essas criaturas morrem algum dia. Coisa prosaica é estar morto, sem consciência, sem graça, sem ação. Certamente seriam necessários outros milhões de anos para digerir a ideia de que existe vida. Coisa que não seria necessário para entender a morte; afinal, aquela coisa inexplicável se tornou mais parecida com tudo o que ele tinha visto durante milhões de anos.

Edelgard, antes e depois do falecimento. Fotografia de Walter Schel.

Mas tem algo de irônico na morte. Entendendo a morte como a perda da vida, fica a impressão de que uma é o oposto da outra. Uma ideia mais engraçada do que parece, à primeira vista. Schopenhauer, em uma observação muito perspicaz, certa vez assim disse: “(…) Após a morte você será o que era antes de nascer.”*. A menos que você tenha péssimas lembranças de sua época “pré-vida”, a morte não parece ser algo tão ruim assim. Enquanto a vida é um espectro que abrange desde o sofrimento angustiante ao prazer intenso, a morte é tranquila, neutra. Nem mais, nem menos. Sem felicidade, sem tristeza, sem prazer, sem dor, sem glória, sem fracasso, sem amor nem ódio, ganhos ou perdas. Estar morto é, antes de tudo, atingir a paz. “Paz” é a palavra que se associa a “morte” de maneira mais adequada. Muito mais adequada do que “defunto” e “tristeza”, por exemplo. Até porque a tristeza fica por parte dos entes queridos que se mantiveram vivos, o morto não sente nada.

Aliás, a paz me lembra outro ponto irônico relacionado à morte. Havia lido em algum lugar que “neste milênio a humanidade atingirá a paz eterna”. Sim, era alguma bobagem esotérica. Mas a relação morte-paz me fez pensar mais fundo sobre essa mensagem. De repente, ela não me pareceu tão inatingível assim. Não consigo pensar em outro tipo de paz plena para humanidade que não consista em um extermínio em massa.

Falei algumas ironias sobre a morte e tentei enfatizar que ela é mais banal do que triste. Em resumo, tudo o que eu fiz até agora foi menosprezá-la. Mas estaria sendo injusto. A grande ironia da morte também é o seu aspecto mais importante. Como eu disse, a vida vista como um bem pessoal parece ser o extremo oposto da morte. Mas a morte tem um papel diferente para a vida de uma maneira geral, a vida como o fenômeno global que consiste em plantas, animais, fungos e certos microorganismos se reproduzindo constantemente. Ecologicamente falando, a morte não é o oposto, mas sim parte constituinte e fundamental da vida. Morrer é abrir espaço, transferir energia, servir de comida, ferramenta ou até mesmo lar. É dar a oportunidade a outros. Não reclame da morte, se não fosse por ela, você sequer teria nascido. Não haveria recursos, espaço para que alguém como você surgisse e se prosperasse. Em outras palavras, morrer é bem importante… Para a vida, é claro.

Esquema representando uma carcaça de baleia. Uma morte representando vida em exuberância.

*SCHOPENHAUER, Arthur. “On the indestructibility of our essential being by death“, 2. In: ______. Essays and aphorisms. Trad. de R. J. Hollingdale. Londres: Penguin Books, 1970, p. 67.

Morte:

  1. Uma terrível verdade exige uma grande ilusão
  2. O breve e o eterno
  3. A simplicidade inconcebível

Um ateu, ao declarar sua descrença, ouve muitas perguntas. Algumas são tendenciosas, do tipo “Então nada te impede de sair matando e roubando?”. Outras começam levemente erradas, como “Mas, você não acredita em nada?” (em um exemplo típico da leviandade com que muitos falam sobre o “nada”, já citado no texto do Ricardo). Tem ainda as que começam cabalmente erradas, como a “Suponho então que você acredite na ‘deusa Ciência’”. Mas existe uma pergunta em especial que é pertinente, muito pertinente. Muitos teístas se sentem muito curiosos quanto a isso, mas parecem temer uma resposta fria e demasiadamente racional.

“Quando você morre, tudo termina?”

O fato desta pergunta ser tão boa já denota o quão íntima é a relação religiosidade-medo de morrer (crentes, se vocês não torceram o nariz no primeiro texto, sintam-se livres para torcê-lo agora). Obviamente, essa pergunta possui muitas variantes, como “Quando morremos, deixamos de existir?”. Falarei de todas essas perguntas como se fossem uma só, pois elas realmente nos remetem a mesma dúvida. E a pergunta já começa partindo de uma idéia errada.

Errada. Pois estamos falando do que, afinal? Estamos falando apenas de nossa consciência ou de todas as coisas que nos representam?

Se o indagador está se referindo à consciência, sim, imagino que ela termine ali. E é apenas nesse ponto que nossas opiniões divergem. Existem certas hipóteses afirmando que a consciência pode residir fora do cérebro. Hipóteses tão populares que uma delas apareceu logo “de cara” em um dos comentários do meu primeiro texto sobre o tema. Mas são populares tão somente por satisfazerem o nosso desejo desesperado pela vida eterna. Fora os críticos da idéia de que a consciência reside apenas no cérebro, pois alegam que é um fanatismo, devido à ausência de prova de que ela não existe em outro lugar também. Pessoalmente, acho essa opinião muito descabida. Equivale a dizer que não podemos afirmar com certeza que o olho é o órgão sensorial responsável pela visão porque ainda não averiguamos o mesmo potencial sensorial de todos os outros órgãos.

Bom. Na primeira possibilidade, falei sobre a consciência. Ressalto que ela é a única dúvida razoavelmente aceitável. Isso porque ninguém são realmente acredita que “tudo termina” depois da morte. Vamos lá, nem precisa pensar muito. Todos os dias uma boa parcela da população (na casa dos milhões) morre. O mundo obviamente não cessa sua existência por causa de milhões, e certamente não o fará depois de qualquer morte em particular. O que eu acabei de falar é óbvio, admito. Mas esconde um significado muito mais sutil. Desde que a vida surgiu, seja lá qual for a sua concepção de vida, ela nunca deixou de existir desde então. Pessoas, peixes, formigas, lesmas, macieiras, musgos e bactérias morrem aos bilhões a cada momento. Mas nascem outros bilhões no seu lugar, usando matéria e energia muitas vezes proveniente, direta ou indiretamente, de antigos cadáveres. Morremos e nascemos, mas a vida continua na sua marcha incansável.

Existe outro ponto fundamental que devemos considerar. Nós alteramos o nosso meio enquanto existimos, o tempo todo. Imagine um indivíduo que está comendo uma banana. Vamos chamá-lo de Zé Exemplo. Logo após isso ele sofre um infarto fulminante e morre. Talvez esse indivíduo, o Zé Exemplo, não tenha sido um grande gênio da humanidade, ele nunca escreveu um bom romance e gerações posteriores sequer notarão que ele existiu algum dia. Mas fato inegável é que, graças ao Zé Exemplo, o mundo ficou com uma banana a menos. Junto ao resto de seus atos realizados dentro sua vida sem glamour ou emoções fortes, Zé Exemplo deixou como herança a ausência de 1 (uma) unidade de banana! Esta banana que foi transformada em mais matéria e energia para Zé Exemplo, assim como mais um bolinho de matéria fecal (também conhecido como “merda”).

Usando um exemplo menos insignificante, peguemos algo que Zé Exemplo não foi. Um grande romancista. Aí fica ainda mais óbvia a eternidade do sujeito. Basta pensar em uma aula de literatura, falando tão somente das obras do Zé Romancista. Apesar de pessoas como o Zé Romancista serem mais claramente eternas do que o Zé Exemplo, isso não as tornam qualitativamente mais “eternas” em muitos aspectos. O único aspecto “mais eterno” que poderíamos identificar seria o de que essas pessoas encontram-se consideravelmente mais presentes em nossa memória e cultura. Como os “imortais” membros da Academia Brasileira de Letras. Boto em aspas, pois é ridículo imaginar que os membros da ABL sejam mais “imortais” do que muitos outros nomes, a menos que você realmente ache, por exemplo, que José Sarney (cadeira 38) foi mais importante para a literatura nacional do que Érico Veríssimo.

Voltando ao cerne, à pergunta. A resposta é “não”.

Quando você morre, você não termina. A única coisa que a morte determina é que todo o seu potencial de mudança cessou e nada mais. Basta pensar. Olhe tudo ao seu redor. Para começar, imagino eu que você esteja lendo este texto pela tela de seu computador, que tem boas chances de estar apoiado em uma mesa. É bem possível que tenha uma luz acesa no recinto em que você está nesse momento, ou qualquer objeto que esteja usando energia elétrica. Bom, certamente você não imagina que tudo isso surgiu da noite para o dia. Tudo o que existe ao seu redor é fruto de uma longa história de descobertas, de produção, transporte e, de uma maneira mais indireta, guerras, revoluções, sexo, mais mortes e outros detalhes. Em resumo, o presente é resultado do passado. Toda a sua vida depende integralmente de eventos que já decorreram, e isso inclui as ideias e ações de pessoas que já morreram. Ou seja, de uma maneira ou de outra, elas existem. Mais uma vez eu destaco algo óbvio, para demonstrar um fato mais sutil e que muitas vezes passa despercebido. Alguém não precisa estar ciente de sua existência para existir de fato (uma inversão da afirmativa “Penso, logo existo” seria, portanto, inválida).

Por mais contraditório que pareça, é por isso que a maior prova de nossa eternidade não está em algo memorável e inalterado durante as injúrias do tempo. A prova mais cabal de que toda e qualquer criatura, ato, evento, fenômeno são eternos está justamente no fato de que o mundo muda o tempo todo (esse é um ponto interessante, prometo me aprofundar sobre isso em outro texto, pois este já está ficando longo).

Essa minha visão é bem menos acolhedora do que a clássica visão do paraíso eterno. Ou mesmo a visão mais moderna, espírita, de uma vida pululando entre vários mundos e várias dimensões. Mas a minha visão, que não é exclusivamente minha, tem uma vantagem. Ao passo que a visão de existência pós-morte retratada pelas religiões exige uma força oculta, muitas vezes em “dimensões diferentes” ou “sobrenaturais”, inexplicáveis para um “simples humano”, a minha é prosaica. Tudo o que eu disse sobre eternidade é apenas uma observação honesta dos fatos. Se nós alteramos o mundo em nossa volta, então automaticamente estendemos a nossa existência aos nossos atos. Você não precisa ter superpoderes, fé ou fazer parte de um povo escolhido para usufruir desta “imortalidade”.

Concluindo. Pense no seu legado. Seus atos não são meramente parte de um teste para averiguar se você merece ou não uma vida eterna agradável. Seus atos são a própria vida eterna. E ela não será agradável ou desagradável para você, pois já estará morto. Ela o será para as gerações futuras. O mundo será pior ou melhor por sua causa, cabe a você tomar as suas escolhas.

Morte:

  1. Uma terrível verdade exige uma grande ilusão
  2. O breve e o eterno
  3. A simplicidade inconcebível